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o brasil e a seguranca no seu entorno estrategico america do sul e atlantico sul

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para o subcontinente, tendo como 
pano de fundo o processo de consolidação do Conselho de Defesa Sul-Americano 
(CDS), criado em 2008. Na última seção, serão apresentados alguns desafios ao 
aprofundamento do processo de integração regional.
2 POR UMA ESCALA SUL-AMERICANA DE ANÁLISE REGIONAL
A utilização da escala regional para a análise de questões de segurança internacional 
coincide com a chamada “nova onda do regionalismo”, iniciada em meados da 
década de 1980 e ampliada com o fim da Guerra Fria. Nesse período, a intensificação 
* Oficial do Exército Brasileiro. Mestre em geografia humana e doutor em ciência política pela Universidade de São 
Paulo (USP). É professor e pesquisador do Programa de Pós-graduação em Ciências Militares da Escola de Comando 
e Estado-Maior do Exército (ECEME).
22 O Brasil e a Segurança no seu Entorno Estratégico
das relações entre países de uma mesma região expunha a necessidade de arranjos 
de governança para a gestão de fluxos que transpunham as fronteiras nacionais. 
A escala regional situa-se em um ponto intermediário entre perspectivas 
estritamente nacionais, de um lado, e globais, de outro. Nesta escala, a importância 
dada aos “entornos” territoriais se deve ao fato de que, apesar da ideia de “fluidez 
dos territórios”, que ganhou força com o processo de globalização, os territórios dos 
Estados são entes geograficamente localizados, e a contiguidade territorial continua 
tendo peso nas questões de segurança. Desta forma, o fato de os Estados serem 
permanentemente “localizados” torna-se um imperativo geopolítico. Tal caráter 
impõe aos Estados preocupações territoriais, excluindo de seu leque de estratégias 
a possibilidade de “mudança domiciliar” com relação a vizinhos indesejáveis. 
De forma geral, região tem sido compreendida nos estudos de segurança 
internacional como um grupo de Estados interdependentes que, por imperativos 
geográficos de proximidade ou vizinhança, compartilha ameaças e preocupações 
militares, independentemente de seus interesses (Buzan, 1991). Cabe destacar que, 
no caso aqui estudado, a escala regional é a sul-americana – e não a latino-americana. 
A opção por este recorte é, antes de tudo, uma construção subjetiva que obedece 
a fatores históricos, geográficos, culturais e políticos. Em relação ao constructo 
latino-americano, há os seguintes aspectos: a sua criação exógena, como referência 
de separação dos países anglo-saxônicos dos demais países americanos; a presença 
de fragmentos territoriais (ilhas caribenhas) e culturais (mosaico de línguas); 
e a maior proximidade de parte da região em relação ao poder hegemônico norte- 
-americano, a qual contribui para, em termos de segurança internacional, tornar 
a América Latina uma espécie de ilusão cartográfica. Desta forma, especialmente 
a partir da década de 1990, têm se tornado cada vez mais corriqueiras as referências à 
América do Sul como unidade regional, com vocação comunitária e que compartilha 
entre seus membros uma identidade comum, tanto de caráter quanto de destino.
2.1 O Complexo Regional Sul-Americano 
2.1.1 Peculiaridades
Do ponto de vista das questões de defesa e segurança, a situação sul-americana 
é paradoxal: se, de um lado, a região se destaca pela ausência de guerras formais, 
por outro, enfrenta sérios problemas relativos à fragilidade do império da lei e ao 
alto grau de violência social.
O cenário decorrente de tal paradoxo sugere uma interessante situação em 
que a lógica do dilema de segurança de John Herz1 estaria invertida. Ou seja, no 
1. Para o autor, “os esforços de ampliação de segurança de um Estado conduzem à maior insegurança de seu vizinho” 
(Herz, 1950, tradução nossa). 
23Breve Panorama de Segurança na América do Sul
caso sul-americano, as maiores ameaças teriam origem não em políticas de poder 
adotadas por Estados, mas na incapacidade destes de adotarem políticas públicas no 
enfrentamento de suas vulnerabilidades sociais. Neste caso, os principais problemas 
não seriam “de” fronteira – questão de defesa –, mas estariam “na” fronteira – 
questão de segurança. Sob tal inversão, a ameaça passaria a ser o vizinho fraco, 
incapaz de controlar seu próprio território, e não o vizinho forte (Villa e Medeiros 
Filho, 2007, p. 8). 
Essa peculiaridade regional, marcada pelo contraste paradoxal entre instabi-
lidade e/ou violência doméstica e relativa paz nas relações internacionais, parece 
ter origem no período pós-independência, ainda no final do século XIX, tendo se 
consolidado nas primeiras décadas do século XX. De fato, com o fim da Guerra 
do Chaco (1932-1935), a região passou a figurar como um ambiente internacional 
“livre”2 de conflitos bélicos. A explicação para tal fenômeno é complexa e distante 
de ser consensual. Certamente, não resulta de uma estratégia regional deliberada, 
mas, antes, é fruto de uma combinação de fatores que envolvem aspectos políticos, 
históricos e geográficos.
Cinco fatores podem ser apontados como possíveis causas do padrão anômalo 
da América do Sul no sistema internacional ao longo do último século. O primeiro 
diz respeito à localização periférica da região em relação aos grandes conflitos 
mundiais. O fato de os países da região registrarem os menores índices de gastos de 
defesa do mundo parece ter relação com a posição periférica – não só geográfica – 
que a região ocupa em relação aos interesses de poder das grandes potências. 
Tal posição amenizaria a sensação de insegurança internacional e reduziria, con-
sequentemente, os investimentos militares, tornando menos belicosas as relações 
entre os Estados da região.
O segundo fator, oriundo do primeiro, refere-se ao poder bélico relativamente 
pequeno dos países da região. O problema maior seria o custo de se fazer a guerra. 
É por demais conhecido entre os estrategistas militares a noção de que é muito 
menos oneroso defender que atacar. A incapacidade logística seria apenas uma das 
limitações para o uso de instrumentos militares em operações de caráter ofensivo. 
Neste caso, a ausência de guerras na região se daria não pela eficácia dissuasiva dos 
exércitos nacionais, mas pela incapacidade ofensiva dos oponentes.
O terceiro fator corresponde à presença hegemônica dos Estados Unidos como 
elemento de estabilidade regional. Sob tal perspectiva, os Estados Unidos teriam a 
capacidade de constranger qualquer tentativa de aventura bélica entre os países da 
região. Além disso, em vários momentos do século XX, foi possível perceber esforços 
2. Ocorreram alguns conflitos entre países sul-americanos no período aqui considerado. O mais grave, envolvendo 
Peru e Equador, ocorreu em 1995. Foram dezenove dias de combate e morreram aproximadamente cem equatorianos 
e quatrocentos peruanos. 
24 O Brasil e a Segurança no seu Entorno Estratégico
norte-americanos no sentido de implementar uma arquitetura hemisférica de 
defesa e segurança, por meio, por exemplo: de um sistema de defesa hemisférico 
(pós-Segunda Guerra Mundial); da doutrina de segurança nacional (Guerra Fria); 
e de um sistema de segurança hemisférica (pós-Guerra Fria). 
O quarto fator se refere à prioridade dada aos problemas domésticos – 
(inimigo interno) em detrimento dos interesses externos. Ao longo dos dois 
últimos séculos, a instabilidade política e a fragilidade institucional dos Estados 
nacionais acabaram por provocar o uso recorrente do aparelho militar na repressão 
a conflitos internos. A urgência destes problemas, para manter seja a incolumi-
dade do território seja o regime político em vigor, teria gerado na mentalidade 
militar a percepção de que a prioridade deve ser dada aos problemas domésticos, 
em detrimento dos problemas de defesa externa. Ao longo do século XX, este 
fator esteve fortemente vinculado às injunções da bipolaridade emergente com 
a Guerra Fria, que marcaram a opção dos militares da região pela doutrina

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