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o brasil e a seguranca no seu entorno estrategico america do sul e atlantico sul

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relacionado à necessidade de estabilidade regional, entendida como 
precondição para a manutenção dos regimes democráticos na região. Para tanto, 
a adoção de políticas públicas transparentes de defesa e segurança, sob o controle 
civil, passa a ser uma meta central.
4.1.2 Agenda bolivariana
Esta agenda resgata a necessidade de se fazer frente a ameaças externas – poder 
hegemônico, potências extrarregionais – que podem pôr em xeque a capacidade 
autônoma dos países do subcontinente, retomando o pensamento de Simon 
Bolívar. De caráter nitidamente ideológico – para o qual o “socialismo do século 
XXI” idealizado por Hugo Chávez é a sua melhor expressão –, ela se caracteriza 
por mesclar tendências socialistas, populistas e nacionalistas. Sua retórica é 
35Breve Panorama de Segurança na América do Sul
notadamente antiamericanista, sendo os Estados Unidos citados entre as principais 
ameaças externas à região. Em termos de propostas, a agenda bolivariana contempla 
a possibilidade de uma “integração militar sul-americana”, sugerindo, inclusive, 
a criação de um organismo militar regional, com estratégia própria.5 
4.1.3 Agenda brasileira
Tradicionalmente, a postura brasileira era contrária ao surgimento de qualquer 
arquitetura de defesa sub-regional. Os primeiros sinais favoráveis ao desenvolvimen-
to de um sistema de defesa sul-americano começaram a vir à tona com a criação 
do Ministério da Defesa, em 1999, quando o então ministro Geraldo Quintão 
defendeu uma estratégia regional sul-americana, capaz de promover não a formação 
de alianças militares no sentido clássico, mas o diálogo sobre políticas de defesa 
na região (Martins Filho, 2006, p. 21). Estes sinais se tornaram mais explícitos 
na gestão do ministro José Viegas Filho (2003-2004), que se mostrava favorável 
ao avanço da cooperação militar na América do Sul, especialmente por meio da 
integração das indústrias de defesa.6 Foi, porém, na gestão do ministro Nelson 
Jobim (2007-2011) que se consolidou a proposta, por ele encampada, em relação 
à criação do CDS. Tal postura tem conferido ao país lugar de destaque na geopo-
lítica regional, sugerindo uma agenda brasileira de defesa para a América do Sul.
4.2 O CDS: origem e consolidação 
A primeira reunião presidencial a tratar do projeto de uma arquitetura regional 
de defesa contou com a participação de três presidentes, cada um representando 
uma das agendas aqui consideradas.
A proposta para a criação do CDS foi apresentada durante encontro entre 
os então presidentes Lula, Hugo Chávez e Néstor Kirchner, realizado em 19 de 
janeiro de 2006, na Granja do Torto, em Brasília. Segundo o presidente brasileiro, 
o objetivo da proposta seria a promoção do desenvolvimento tecnológico regional 
no setor de defesa, além de um caráter mais institucional às reuniões periódicas 
dos ministros de Defesa da América do Sul. Na ocasião, a opinião do presidente 
venezuelano, entretanto, era a de que o projeto seria uma espécie de “Otan do 
Sul”, com clara tendência antiamericana.
Passados alguns meses após os debates iniciais, a proposta parecia condenada 
ao “engavetamento”. O tema foi retomado, porém, em outubro de 2007, quando 
Nelson Jobim assumiu o cargo de ministro da Defesa. Jobim resolveu percorrer, a 
partir do início de 2008, todos os países vizinhos, em uma missão que ele mesmo 
5. Em 4 de julho de 2006, após a reunião de presidentes do Mercosul, que aprovaram a entrada da Venezuela no bloco, 
o presidente venezuelano Hugo Chávez declarou que o Mercosul “deberá tener algún día una organización de defensa 
conjunta, una estrategia propia para proteger la soberanía de sus países” (Elias, 2006).
6. Ver Viegas Filho (2003). 
36 O Brasil e a Segurança no seu Entorno Estratégico
intitulou de diplomacia militar. Dois objetivos principais eram apresentados em seus 
discursos: a construção de uma identidade regional de defesa; e a criação de uma 
indústria bélica sul-americana. No primeiro semestre de 2008, dois acontecimentos 
deram relevância à discussão do tema: o conflito envolvendo Colômbia, Equador 
e Venezuela; e a reativação da Quarta Frota norte-americana. Tais acontecimentos 
impulsionaram o debate e promoveram uma rodada de negociações entre autoridades 
de defesa dos países da região. Finalmente, em 16 de dezembro de 2008, durante 
a reunião extraordinária de chefes de Estado da União de Nações Sul-Americanas 
(Unasul), realizada em Costa do Sauípe – (Bahia, Brasil), o CDS foi criado como 
uma instância de consulta, cooperação e coordenação em matéria de defesa.
4.3 Segurança coletiva ou segurança cooperativa: qual a vocação do Conselho 
de Defesa Sul-Americano?
Cabe uma última discussão a respeito da arquitetura de defesa regional em gestação 
na América do Sul. Qual deve ser sua vocação? A formação de blocos regionais 
de defesa sugere dois tipos que, de certa forma, estão na base do que Deutsch 
(1982, p. 269) chama de comunidade de segurança pluralística e comunidade de 
segurança amalgamada: um constructo de segurança cooperativa e de segurança 
coletiva, respectivamente. Enquanto a primeira visa à manutenção da paz entre os 
países-membros, a segunda sugere, para além da segurança cooperativa, a formação 
de uma comunidade política, com identidade funcional comum e a geração de 
poder, cujo objetivo principal seria a legítima defesa contra um inimigo comum.
A definição do modelo que se pretende para o arranjo de defesa regional – 
cooperativo ou coletivo – mostra-se de grande importância, pois é desta definição 
que derivam os mecanismos a serem empregados. 
Se o modelo adotado for o da segurança cooperativa, os mecanismos de 
cooperação esperados devem se restringir à construção de confiança entre Estados, 
objetivando um ambiente regional marcado pela paz e estabilidade. Em termos 
práticos, os mecanismos de confiança mútua podem ser representados por 
atitudes como: notificação de manobras militares, troca de informações sobre 
gastos com defesa, intercâmbio entre estabelecimentos de formação militar etc. 
Uma estratégia adequada para este fim pode vir a ser o desarmamento mútuo das 
partes, como sugeriu o então presidente peruano Alan García.7 
Se o modelo for o de segurança coletiva, entretanto, visto que, neste caso, 
a região deve ser entendida como uma comunidade política, a estratégia a ser 
adotada sugere maior grau de integração, apontando inclusive para elementos de 
7. O então presidente peruano Alan García propôs a assinatura de um protocolo de Paz, segurança e cooperação entre os 
países sul-americanos. Segundo o que foi noticiado, “Garcia fez um cálculo de que se reduzissem em 3% os gastos que 
já existem na América do Sul em armamento nos próximos cinco anos e em 15% os gastos em novas armas, permitiria 
liberar recursos para que 10 milhões de sul-americanos saiam da pobreza” (Vaz, 2009). 
37Breve Panorama de Segurança na América do Sul
supranacionalidade. A própria noção de ameaça comum como princípio fundante 
dos interesses compartilhados constituiria o elemento motivacional da formação da 
identidade regional. Nos moldes aqui expostos, a adoção do modelo de segurança 
coletiva provocaria uma alteração radical na forma como a concepção estratégica 
de dissuasão tem sido empregada: se, tradicionalmente, ela tem sido aplicada em 
termos regionais, com foco no entorno de cada país, o modelo de segurança coletiva 
sugere pensá-la em termos extrarregionais. Em um cenário hipotético de plena 
integração política da América do Sul, portanto, a importância dada à dissuasão 
de âmbito estritamente regional cederia lugar, paulatinamente, à necessidade por 
uma dissuasão de amplitude extrarregional (Nascimento, 2008, p. 7).
Diferentemente do modelo mais modesto de segurança cooperativa, que sugere 
inclusive o desarmamento como solução para a segurança, a noção de segurança 
coletiva tende a apontar em sentido

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