História-e-Memória
476 pág.

História-e-Memória

Disciplina:<strong>história</strong>17 materiais
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JACQUES LE GOFF

História e memória

FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA
BIBLIOTECA CENTRAL-UNICAMP

L525h
Le Goff, Jacques, 1924

História e memória / Jacques Le Goff; tradução Bernardo Leitão
... [et al.] -- Campinas, SP Editora da UNICAMP, 1990.
(Coleção Repertórios)

Tradução de: Storia e memoria.

1. Historiografia. I. Título.

ISBN 85-268-0180-5 20. CDD – 907.2

Índice para catálogo sistemático:
1. Historiografia 907.2

Coleção Repertórios

Copyright©1990 Storia e Memória Giulio Einaudi
Editora; Sp. A

Projeto Gráfico
Camila Cesarino Costa

Eliana Kestenbaum

Editoração
Sandra Vieira Alves

Adaptação da Edição Portuguesa
Maria Clarice Samnpaio Villac

Revisão
Alzira Dias Sterque

Marta Maria Hanser

Composição
Gimar Nascimento Saraiva

Montagem
Nelson Norte Pinto

1990
Editora da Unicamp

Rua Cecíllio Feltrin, 253
Cidade Universitária – Barão Geraldo
CEP 13083 – Campinas – SP – Brasil

Tel.: (0192) 39.3157

SUMÁRIO

Prefácio ............................................................................................. 04
História ............................................................................................. 13
Antigo/Moderno ............................................................................. 149
Passado/Presente ............................................................................ 179
Progresso/Reação ........................................................................... 204
Idades Míticas ................................................................................ 246
Escatologia ..................................................................................... 281
Decadência ..................................................................................... 325
Memória ......................................................................................... 366
Calendário ...................................................................................... 420
Documento/Monumento ................................................................. 462
.

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PREFÁCIO

[pg. 006] Página em branco
[pg. 007]
O conceito de história parece colocar hoje seis tipos de problemas:
1. Que relações existem entre a história vivida, a história "natural", senão

"objetiva", das sociedades humanas, e o esforço científico para descrever, pensar e
explicar esta evolução, a ciência histórica? O afastamento de ambas tem, em especial,
permitido a existência de uma disciplina ambígua: a filosofia da história. Desde o início
do século, e sobretudo nos últimos vinte anos, vem se desenvolvendo um ramo da
ciência histórica que estuda a evolução da própria ciência histórica no interior do
desenvolvimento histórico global: a historiografia, ou história da história.

2. Que relações tem a história com o tempo, com a duração, tanto com o tempo
"natural' e cíclico do clima e das estações quanto com o tempo vivido e naturalmente
registrado dos indivíduos e das sociedades? Por um lado, para domesticar o tempo
natural, as diversas sociedades e culturas inventaram um instrumento fundamental, que
é também um dado essencial da história: o calendário; por outro, hoje os historiadores
se interessam cada vez mais pelas relações entre história e memória.

3. A dialética da história parece resumir-se numa oposição – ou num diálogo –
passado/presente (e/ou presente/passado). [pg. 008] Em geral, esta oposição não é
neutra mas subentende, ou exprime, um sistema de atribuição de valores, como por
exemplo nos pares antigo/moderno, progresso/reação. Da Antiguidade ao século XVIII
desenvolveu-se, ao redor do conceito de decadência, uma visão pessimista da história,
que voltou a apresentar-se em algumas ideologias da história no século XX. Já com o
Iluminismo afirmou-se uma visão otimista da história a partir da idéia de progresso, que
agora conhece, na segunda metade do século XX, uma crise. Tem, pois, a história um
sentido? E existe um sentido da história?

4. A história é incapaz de prever e de predizer o futuro. Então como se coloca ela
em relação a uma nova "ciência", a futurologia? Na realidade, a história deixa de ser
científica quando se trata do início e do fim da história do mundo e da humanidade.
Quanto à origem, ela tende ao mito: a idade de ouro, as épocas míticas ou, sob aparência
científica, a recente teoria do big bang. Quanto ao final, ela cede o lugar à religião e, em
particular, às religiões de salvação que construíram um "saber dos fins últimos" – a
escatologia –, ou às utopias do progresso, sendo a principal o marxismo, que justapõe

uma ideologia do sentido e do fim da história (o comunismo, a sociedade sem classes, o
internacionalismo). Todavia, no nível da práxis dos historiadores, vem sendo
desenvolvida uma crítica do conceito de origens e a noção de gênese tende a substituir a
idéia de origem.

5. Em contato com outras ciências sociais, o historiador tende hoje a distinguir
diferentes durações históricas. Existe um renascer do interesse pelo evento, embora
seduza mais a perspectiva da longa duração. Esta conduziu alguns historiadores, tanto
através do uso da noção de estrutura quanto mediante b diálogo com a antropologia, a
elaborar a hipótese da existência de uma história "quase imóvel". Mas pode existir uma
história imóvel? E que relações tem a história com o estruturalismo (ou os
estruturalismos)? E não existirá também um movimento mais amplo de "recusa da
história"?

6. A idéia da história como história do homem foi substituída pela idéia da
história como história dos homens em sociedade. Mas será que existe, se é que pode
existir, somente uma [pg. 009] história do homem? Já se desenvolveu uma história do
clima – não se deveria escrever também uma história da natureza?

1) Desde o seu nascimento nas sociedades ocidentais – nascimento
tradicionalmente situado na Antiguidade grega (Heródoto, no século V. a.C., seria,
senão o primeiro historiador, pelo menos o "pai da história"), mas que remonta a um
passado ainda mais remoto, nos impérios do Próximo e do Extremo Oriente –, a ciência
histórica se define em relação a uma realidade que não é nem construída nem observada
como na matemática, nas ciências da natureza e nas ciências da vida, mas sobre a qual
se "indaga", se "testemunha". Tal é o significado do termo grego e da sua raiz indo-
européia wid-, weid- "ver". Assim, à história começou como um relato, a narração
daquele que pode dizer "Eu vi, senti". Este aspecto da história-relato, da história-
testemunho, jamais deixou de estar presente no desenvolvimento da ciência histórica.
Paradoxalmente, hoje se assiste à crítica deste tipo de história pela vontade de colocar a
explicação no lugar da narração, mas também, ao mesmo tempo, presencia-se o
renascimento da história-testemunho através do "retorno do evento' (Nora) ligado aos
novos media, ao surgimento de jornalistas entre os historiadores e ao desenvolvimento
da "história imediata".

Contudo,