História-e-Memória
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História-e-Memória


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JACQUES LE GOFF 
 
História e memória 
 
 
 
FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA 
BIBLIOTECA CENTRAL-UNICAMP 
 
 
L525h 
Le Goff, Jacques, 1924 
História e memória / Jacques Le Goff; tradução Bernardo Leitão 
... [et al.] -- Campinas, SP Editora da UNICAMP, 1990. 
(Coleção Repertórios) 
 
 
Tradução de: Storia e memoria. 
 
 
1. Historiografia. I. Título. 
 
 
 
ISBN 85-268-0180-5 20. CDD \u2013 907.2 
 
Índice para catálogo sistemático: 
1. Historiografia 907.2 
 
Coleção Repertórios 
 
Copyright©1990 Storia e Memória Giulio Einaudi 
Editora; Sp. A 
 
Projeto Gráfico 
Camila Cesarino Costa 
Eliana Kestenbaum 
 
Editoração 
Sandra Vieira Alves 
 
Adaptação da Edição Portuguesa 
Maria Clarice Samnpaio Villac 
 
Revisão 
Alzira Dias Sterque 
Marta Maria Hanser 
 
Composição 
Gimar Nascimento Saraiva 
 
Montagem 
Nelson Norte Pinto 
 
1990 
Editora da Unicamp 
Rua Cecíllio Feltrin, 253 
Cidade Universitária \u2013 Barão Geraldo 
CEP 13083 \u2013 Campinas \u2013 SP \u2013 Brasil 
Tel.: (0192) 39.3157 
SUMÁRIO 
 
Prefácio ............................................................................................. 04 
História ............................................................................................. 13 
Antigo/Moderno ............................................................................. 149 
Passado/Presente ............................................................................ 179 
Progresso/Reação ........................................................................... 204 
Idades Míticas ................................................................................ 246 
Escatologia ..................................................................................... 281 
Decadência ..................................................................................... 325 
Memória ......................................................................................... 366 
Calendário ...................................................................................... 420 
Documento/Monumento ................................................................. 462 
. 
 
 
 
 
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PREFÁCIO 
 
[pg. 006] Página em branco 
[pg. 007] 
O conceito de história parece colocar hoje seis tipos de problemas: 
1. Que relações existem entre a história vivida, a história "natural", senão 
"objetiva", das sociedades humanas, e o esforço científico para descrever, pensar e 
explicar esta evolução, a ciência histórica? O afastamento de ambas tem, em especial, 
permitido a existência de uma disciplina ambígua: a filosofia da história. Desde o início 
do século, e sobretudo nos últimos vinte anos, vem se desenvolvendo um ramo da 
ciência histórica que estuda a evolução da própria ciência histórica no interior do 
desenvolvimento histórico global: a historiografia, ou história da história. 
2. Que relações tem a história com o tempo, com a duração, tanto com o tempo 
"natural' e cíclico do clima e das estações quanto com o tempo vivido e naturalmente 
registrado dos indivíduos e das sociedades? Por um lado, para domesticar o tempo 
natural, as diversas sociedades e culturas inventaram um instrumento fundamental, que 
é também um dado essencial da história: o calendário; por outro, hoje os historiadores 
se interessam cada vez mais pelas relações entre história e memória. 
3. A dialética da história parece resumir-se numa oposição \u2013 ou num diálogo \u2013 
passado/presente (e/ou presente/passado). [pg. 008] Em geral, esta oposição não é 
neutra mas subentende, ou exprime, um sistema de atribuição de valores, como por 
exemplo nos pares antigo/moderno, progresso/reação. Da Antiguidade ao século XVIII 
desenvolveu-se, ao redor do conceito de decadência, uma visão pessimista da história, 
que voltou a apresentar-se em algumas ideologias da história no século XX. Já com o 
Iluminismo afirmou-se uma visão otimista da história a partir da idéia de progresso, que 
agora conhece, na segunda metade do século XX, uma crise. Tem, pois, a história um 
sentido? E existe um sentido da história? 
4. A história é incapaz de prever e de predizer o futuro. Então como se coloca ela 
em relação a uma nova "ciência", a futurologia? Na realidade, a história deixa de ser 
científica quando se trata do início e do fim da história do mundo e da humanidade. 
Quanto à origem, ela tende ao mito: a idade de ouro, as épocas míticas ou, sob aparência 
científica, a recente teoria do big bang. Quanto ao final, ela cede o lugar à religião e, em 
particular, às religiões de salvação que construíram um "saber dos fins últimos" \u2013 a 
escatologia \u2013, ou às utopias do progresso, sendo a principal o marxismo, que justapõe 
uma ideologia do sentido e do fim da história (o comunismo, a sociedade sem classes, o 
internacionalismo). Todavia, no nível da práxis dos historiadores, vem sendo 
desenvolvida uma crítica do conceito de origens e a noção de gênese tende a substituir a 
idéia de origem. 
5. Em contato com outras ciências sociais, o historiador tende hoje a distinguir 
diferentes durações históricas. Existe um renascer do interesse pelo evento, embora 
seduza mais a perspectiva da longa duração. Esta conduziu alguns historiadores, tanto 
através do uso da noção de estrutura quanto mediante b diálogo com a antropologia, a 
elaborar a hipótese da existência de uma história "quase imóvel". Mas pode existir uma 
história imóvel? E que relações tem a história com o estruturalismo (ou os 
estruturalismos)? E não existirá também um movimento mais amplo de "recusa da 
história"? 
6. A idéia da história como história do homem foi substituída pela idéia da 
história como história dos homens em sociedade. Mas será que existe, se é que pode 
existir, somente uma [pg. 009] história do homem? Já se desenvolveu uma história do 
clima \u2013 não se deveria escrever também uma história da natureza? 
1) Desde o seu nascimento nas sociedades ocidentais \u2013 nascimento 
tradicionalmente situado na Antiguidade grega (Heródoto, no século V. a.C., seria, 
senão o primeiro historiador, pelo menos o "pai da história"), mas que remonta a um 
passado ainda mais remoto, nos impérios do Próximo e do Extremo Oriente \u2013, a ciência 
histórica se define em relação a uma realidade que não é nem construída nem observada 
como na matemática, nas ciências da natureza e nas ciências da vida, mas sobre a qual 
se "indaga", se "testemunha". Tal é o significado do termo grego e da sua raiz indo-
européia wid-, weid- "ver". Assim, à história começou como um relato, a narração 
daquele que pode dizer "Eu vi, senti". Este aspecto da história-relato, da história-
testemunho, jamais deixou de estar presente no desenvolvimento da ciência histórica. 
Paradoxalmente, hoje se assiste à crítica deste tipo de história pela vontade de colocar a 
explicação no lugar da narração, mas também, ao mesmo tempo, presencia-se o 
renascimento da história-testemunho através do "retorno do evento' (Nora) ligado aos 
novos media, ao surgimento de jornalistas entre os historiadores e ao desenvolvimento 
da "história imediata". 
Contudo,