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Resumo do Livro O menino do pijama listrado

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feliz de voltar a Haja-Vista. A casa ali já se tornara o seu lar e ele havia parado de se preocupar se ela tinha cinco andares ou apenas três, e não se importava tanto com os soldados indo e vindo como se fossem os donos do lugar. Ele lentamente se deu conta de que as coisas não eram tão más assim por ali, principalmente depois de ter conhecido Shmuel. Bruno sabia que havia muitas coisas com as quais se alegrar, como, por exemplo, o fato de que o pai e a mãe pareciam mais felizes, e a mãe não precisava de tantas sonecas pela tarde nem de tantos tragos do xerez medicinal. E Gretel estava passando por uma nova fase – nas palavras da mãe – e sua tendência era ficar fora do caminho dele. Havia também o fato de o tenente Kotler ter sido transferido para longe de Haja-Vista, portanto ele não estava mais por perto para atormentar Bruno e irritá-lo o tempo todo. (A sua partida ocorrera subitamente e causara grande gritaria entre a mãe e o pai durante a noite, mas ele se foi, disso não havia dúvida, e não ia voltar mais; Gretel ficou inconsolável.) Este era outro motivo de felicidade: ninguém mais o chamava de “homenzinho”. Mas o melhor de tudo é que ele tinha um amigo chamado Shmuel. 
Ele adorava caminhar ao longo da cerca todas as tardes e ficou satisfeito em ver que o amigo parecia muito mais feliz ultimamente, e os seus olhos não estavam mais tão fundos, embora o corpo ainda fosse ridículo de tão magro, e o rosto de uma desagradável tonalidade cinza.
17 A MÃE CONSEGUE O QUE QUERIA
 	No decorrer das semanas seguintes a mãe parecia cada vez mais descontente com a vida em Haja-Vista, e Bruno entendia perfeitamente quais eram os seus motivos. Afinal, quando eles chegaram, o menino havia detestado o lugar porque era muito diferente da antiga casa e não tinha coisas como os três melhores amigos da vida toda. Mas tudo aquilo mudara ao longo do tempo, principalmente por causa de Shmuel, que era mais importante para ele do que Karl ou Daniel ou Martin jamais haviam sido. Porém a mãe não tinha o seu Shmuel. Não havia ninguém com quem pudesse conversar, e o único com quem ela travara uma amizade ainda que passageira – o jovem tenente Kotler – fora transferido para outro lugar.
 	Embora ele se esforçasse para não ser um daqueles meninos que gastavam o tempo olhando pelo buraco das fechaduras e escutando conversas pelas chaminés, certa tarde Bruno passou pelo escritório do pai, num momento em que a mãe e o pai estavam lá dentro, tendo uma das suas conversas. Ele não queria ser enxerido, mas os dois estavam falando em voz alta e o menino não pôde deixar de ouvir o que diziam. Bruno não ouviu muito mais porque as vozes estavam se aproximando da porta e sempre havia a chance de que a mãe saísse do escritório de uma vez em busca de um trago do xerez medicinal, e então ele correu escada acima. Ainda assim, ouviu o bastante para saber que havia a chance de eles voltarem a Berlim e, para sua surpresa, não soube como se sentir a respeito da idéia. 
Havia uma parte dele que se lembrava do quanto ele gostava da sua antiga vida lá, mas tantas coisas estariam mudadas agora. Karl e os outros dois amigos cujos nomes não conseguia mais lembrar provavelmente já o teriam esquecido àquela altura. A avó estava morta e eles quase nunca tinham notícias do avô, que, segundo o pai havia ficado senil. Por outro lado, ele havia se acostumado com a vida em Haja-Vista: não se incomodava com herr Liszt, tinha ficado muito mais próximo de Maria do que jamais fora em Berlim, Gretel ainda estava passando por uma fase e ficava fora do caminho dele (e também não parecia mais um Caso tão Perdido assim) e suas conversas com Shmuel às tardes o enchiam de alegria. Bruno não sabia como se sentir e decidiu que, acontecesse o que acontecesse, aceitaria a decisão sem se queixar.
Nada mudou durante algumas semanas; a vida prosseguiu normalmente. O pai passava a maior parte do tempo no escritório ou do outro lado da cerca. A mãe passava os dias em silêncio e tirava cada vez mais sonecas vespertinas, algumas nem mesmo à tarde, mas antes do almoço, e Bruno estava preocupado com a sua saúde porque nunca tinha visto alguém precisar de tantos tragos de xerez medicinal quanto ela. Gretel ficava em seu quarto, concentrada nos muitos mapas que havia colado pelas paredes e consultando os jornais durante horas antes de mover um pouco os seus pinos. (Herr Liszt ficava muito satisfeito em vê-la fazendo isso.) E Bruno fazia exatamente o que lhe pediam e não criava confusão e se divertia com o fato de ele ter um amigo secreto sobre o qual ninguém sabia. Então um dia o pai convocou Bruno e Gretel a seu escritório e informou-os sobre as mudanças que estavam por vir.
18 PLANEJANDO A ÚLITIMA AVENTURA
 	No dia seguinte àquele em que o pai contara a Bruno que ele logo voltaria a Berlim, Shmuel não apareceu na cerca como de costume. Nem veio no dia seguinte. No terceiro dia, quando Bruno chegou lá não havia ninguém sentado de pernas cruzadas no chão, e ele esperou por dez minutos e estava prestes a dar meia-volta e ir para casa, extremamente preocupado por ter que deixar Haja-Vista sem ver o amigo uma última vez, quando um ponto na distância se transformou numa mancha que virou um vulto que virou uma pessoa que virou um menino de pijama listrado. Bruno abriu um grande sorriso ao ver o vulto caminhando na sua direção e sentou-se no chão, pegando em seu bolso o pedaço de pão e a maça que contrabandeara consigo para dar a Shmuel. 
 	Contudo, mesmo à distância ele podia perceber que o amigo parecia ainda mais triste do que o habitual, e quando chegou à cerca ele não aceitou a comida com a ansiedade de sempre.
 Achei que você não vinha mais, disse Bruno. Eu vim ontem e anteontem também, mas você não estava aqui.
Desculpe, disse Shmuel. Aconteceu uma coisa. 
Bruno olhou para ele e estreitou os olhos, tentando adivinhar o que poderia ter ocorrido. Imaginou se Shmuel também fora notificado de que iria para casa; afinal, coincidências como essas aconteciam, como, por exemplo, o fato de os dois fazerem aniversário no mesmo dia.
E então? perguntou Bruno. O que houve?
Meu pai, disse Shmuel. Não conseguimos encontrá-lo. 
Não conseguem encontrá-lo? Que estranho. Quer dizer que ele se perdeu? 
Suponho que sim, disse Shmuel. Ele estava aqui na segunda e então foi mandado para o trabalho com mais alguns homens e nenhum deles voltou.
 19 O QUE ACONTECEU NO DIA SEGUINTE
 	O dia seguinte – sexta-feira – foi mais um dia molhado. Quando Bruno acordou pela manhã, olhou pela janela e ficou desapontado ao ver a chuva caindo. Se não fosse pelo fato de que aquela seria a última chance de ele e Shmuel passarem algum tempo juntos – sem falar que a aventura prometia ser muito emocionante, especialmente porque envolvia fantasias e roupas, - ele teria desistido de sair e teria esperado por outra tarde na semana seguinte, quando não tivesse planejado nada de especial. 
Entretanto, o tempo estava passando e não havia nada que ele pudesse fazer o respeito. E, afinal, era apenas de manhã, muita coisa poderia acontecer até a tarde, no horário em que os meninos costumavam se encontrar. Certamente a chuva já teria parado àquela altura. Ele ficou olhando pela janela durante as aulas matinais de herr Liszt, mas a chuva não deu sinais de enfraquecimento e até golpeava com maior força as janelas. 
 	Bruno observou a janela durante o almoço na cozinha, quando estava chorando definitivamente menos, e até viu um raio de sol saindo de trás de uma nuvem escura. Ele olhou a chuva durante as aulas de geografia e história ao longo da tarde, quando o vento atingiu sua força máxima e a chuva até ameaçou derrubar as janelas. Felizmente a chuva parou quase na hora de herr Liszt ir embora, e então Bruno vestiu um par de botas e o pesado casaco de chuva, esperou até que ninguém estivesse olhando e saiu de casa.
As botas chafurdavam na lama e ele passou a apreciar a caminhada mais do que em qualquer outra ocasião