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Resumo do Livro O menino do pijama listrado

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mas não havia nada. 
Aqui não é minha casa e nunca vai ser, ele murmurou, enquanto atravessava a sua própria porta para encontrar todas as suas roupas espalhadas sobre a cama e as caixas de brinquedos e livros ainda fechadas. 
Mamãe mandou eu ajudar ele disse baixinho e Maria acenou e apontou para uma sacola grande, contendo todas as suas meias, cuecas e camisetas. Bruno suspirou e abriu a sacola, e ele queria apenas rastejar para dentro dela e torcer para que, quando tornasse a rastejar para fora, ele acordasse e estivesse em casa novamente.
O que você acha de tudo isso, Maria? Ele perguntou após um longo silêncio, pois sempre gostara de Maria e a considerava um membro da família.
Tudo isso o quê? Perguntou ela.
Vir a um lugar como este. Não acha que cometemos um grave engano? 
Isto não cabe a eu dizer, senhor Bruno. Sua mãe já lhe explicou sobre o trabalho de seu pai e...
Ah, eu já cansei de ouvir sobre o trabalho do meu pai, disse Bruno, interrompendo-a. É só disso que se fala, se é que você não sabe. O trabalho do papai isso e aquilo. Bem, se o trabalho do meu pai significa que temos de mudar da nossa casa, para longe do corrimão escorregador e dos meus três melhores amigos, então acho que meu pai devia pensar duas vezes a respeito do trabalho dele, não acha?
Neste exato momento houve um ranger no corredor do lado de fora, e Bruno viu a porta do quarto da mãe e do pai se abrir. Ele congelou, incapaz de se mover por um momento. A mãe ainda estava no andar de baixo, o que significava que o pai estava lá dentro e era bem capaz que tivesse escutado tudo o que Bruno acabara de dizer. Ele observou a porta, mal ousando respirar, imaginando se o pai sairia de lá e o levaria para baixo para uma conversa séria. A porta se abriu mais, e Bruno deu um passo atrás conforme apareceu uma figura, porém não era o pai. Era um homem bem mais jovem, e também mais baixo que o pai, embora usasse um tipo de uniforme igual, mas sem o mesmo número de condecorações. Ele parecia muito sério. Ele trazia uma caixa nas mãos e caminhava em direção à escada, no entanto parou por um instante quando viu Bruno ali o observando, acenou brevemente com a cabeça e seguiu seu caminho.
Quem era esse? Perguntou Bruno. 
Creio que era um dos soldados de seu pai, disse Maria, que ficara bem ereta quando o jovem apareceu e mantivera as mãos diante de si como numa prece. Ela voltara os olhos para o chão em vez de olhar para o seu rosto e só relaxou quando o jovem se foi. Nós vamos conhecê-los com o tempo.
Acho que não gostei dele, disse Bruno. Ele era sério demais.
Seu pai também é muito sério, disse Maria.
Sim, mas ele é o papai, explicou Bruno. Pais devem ser sérios. E não acho que aquele homem se parecia com um pai. Embora ele fosse muito sério, não há dúvida disso.
Bem, eles têm empregos muito sérios, disse Maria com um suspiro. Ou ao menos é o que eles pensam. Mas, se eu fosse você, ficaria longe dos soldados.
Parece que não há outra coisa a se fazer por aqui além disso, disse Bruno, triste. Acho que não haverá sequer outras crianças com quem brincar além de Gretel, e que graça há nisso afinal de contas? Ela é um Caso perdido.
Olhou ao redor do quarto sem erguer completamente os olhos do chão, tentando ver se havia algo de interessante para ser achado. Não havia. Ou não parecia haver. Mas, então, uma coisa lhe chamou a atenção. No canto do quarto que ficava de frente para a porta havia uma janela do teto descia pela parede, um pouco como aquela no andar de cima da casa de Berlim, ainda que não tão alta. Bruno observou-a e pensou que poderia ver o lado de fora sem mesmo ter de ficar nas pontas dos pés. Ele caminhou lentamente na direção da janela, na esperança de que fosse possível ver todo o caminho de volta até Berlim, e a sua casa e as ruas ao redor e as mesas onde as pessoas se sentavam e bebiam os refrescos espumantes e contavam histórias hilariantes umas às outras. Andou devagar porque não queria se decepcionar. 
Bruno pôs o rosto junto ao vidro e olhou o que estava do lado de fora, e desta vez, quando seus olhos se arregalaram e a boca fez o formato de um O, as mãos ficaram bem juntas ao corpo, porque havia algo que o fez se sentir muito inseguro e com frio.
3 O CASO PERDIDO
Bruno estava certo de que, teria feito muito mais sentido se eles tivessem deixado Gretel para trás em Berlim, para cuidar da casa, porque ela era só encrenca. Gretel era três anos mais velha do que Bruno e fizera questão de deixar claro, quanto aos assuntos do mundo, especialmente que diziam respeito a eles dois, ela estava no comando. Bruno não gostava de admitir que tinha um pouco de medo dela, mas se fosse honesto consigo mesmo e ele sempre tentava ser, teria de reconhecê-lo.
Gretel tinha hábitos desagradáveis, como era de se esperar das irmãs. Ela passava muito tempo no banheiro durante as manhãs, por exemplo, e não parecia se importar que Bruno ficasse do lado de fora, pulando ora de um pé ora de outra, desesperado para usar o banheiro. 
A irmã tinha uma grande coleção de bonecas dispostas em prateleiras ao redor do quarto, que observavam Bruno quando ele entrava e o seguiam por lá, registrando tudo o que ele fazia. O menino tinha certeza de que, se fosse explorar o quarto da irmã enquanto ela estivesse fora de casa, as bonecas lhe contariam tudo o que ele tivesse feito. Ela tinha também algumas amigas bastante desagradáveis, que pareciam achar muito inteligente fazer gracinhas a respeito dele, algo que Bruno jamais faria se fosse três anos mais velho do que ela. 
Todas as amigas desagradáveis de Gretel, acima de qualquer coisa, pareciam se deliciar em atormentá-lo, dizendo-lhe coisas inapropriadas sempre que a mãe ou Maria não estavam por perto.
O Bruno não tem nove anos, mas apenas seis, dizia uma monstrenga em especial.
Todos os outros meninos de nove anos são maiores que você.
Não tenho seis anos, tenho nove, ele protestava, tentando escapar.
Então por que você é tão pequeno? Indagava o mostro. 
Isso era verdade, e também um assunto muito delicado para Bruno. O fato de ele não ser tão alto quanto qualquer outro menino de sua classe, era fonte de constantes aborrecimentos. O lado bom de não estar mais em Berlim era que nenhuma delas estaria por perto para atormentá-lo. Talvez, se fossem obrigados a ficar na casa nova por algum tempo, quem sabe até um mês, quando retornassem à casa antiga, ele já tivesse crescido bastante, então elas não poderiam mais maltrata--lo. Era algo a se pensar, afinal, se ele pretendia seguir a recomendação da mãe e fazer o melhor de uma situação ruim.
Bruno correu até o quarto de Gretel sem bater na porta e a descobriu dispondo a civilização de bonecas nas muitas prateleiras pelo quarto.
O que está fazendo aqui? ela gritou.
 Não sabe que não se deve entrar no quarto de uma dama sem antes bater na porta?
É claro que você não trouxe todas as suas bonecas para cá, não? perguntou Bruno.
Claro que trouxe, ela respondeu. Pensou que eu as deixaria em casa? Ora, pode levar semanas até que voltemos para lá.
Semanas? disse Bruno.
 Acha mesmo que levará tanto tempo?
Bem, eu perguntei ao papai e ele disse que ficaremos aqui pelo futuro previsível.
Mas o que é o futuro previsível exatamente?
Quer dizer daqui a semanas, disse Gretel .Talvez até mesmo três semanas.
Então não é tão mal, disse Bruno. Desde que seja apenas pelo futuro previsível e não chegue a completar um mês. Eu detesto aqui.
Sei o que quer dizer, disse ela. Aqui não é muito agradável, não é?
É horrível, disse Bruno.
De fato é, disse Gretel, reconhecendo a observação do irmão. Agora está horrível, mas depois que dermos um jeito na casa, provavelmente não será mais tão ruim. Eu ouvi o papai dizer que quem quer que tenha morado aqui em Haja-Vista, perdeu o emprego bem rápido e não teve tempo de ajeitar o lugar para nós.
Haja-Vista? Perguntou Bruno. O que é um Haja-Vista?
Não é um Haja-Vista, Bruno, disse Gretel num suspiro. É só Haja-Vista.
Bem, e o que é Haja-Vista,