A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
17 pág.
Resenha critica do livro O caso dos exploradores de caverna

Pré-visualização | Página 2 de 5

ação. Há um princípio constitucional que veta o recurso para causas de competência exclusiva do Tribunal do Júri. É o princípio da Soberania dos Veredictos, que impede que as decisões dos jurados sejam substituídas pelas dos juízes togados.
	Por último, e não menos importante, foi enviada uma petição ao chefe do Executivo, requerendo clemência aos acusados. No Brasil, esse ato denomina-se graça e, no caso da comutação da pena de enforcamento em prisão de seis meses, graça parcial, já que a punibilidade não foi completamente extinta. Segundo o art. 188 da lei 7210/84, “O indulto individual poderá ser provocado por petição do condenado, por iniciativa do Ministério Público, do Conselho Penitenciário, ou da autoridade administrativa.” No livro em estudo, as solicitações são enviadas pelos jurados e pelo próprio juiz.
	O presidente Truepenny pode ser considerado um “positivista moderado”, pois segue o que a lei do país ordena: “Quem quer que intencionalmente prive a outrem da vida será punido com a morte”. No entanto, admite sua natural inclinação em considerar a trágica situação a que esses homens estavam impostos, além de torcer para que o Executivo conceda clemência aos acusados. O presente magistrado, portanto, sente-se impelido a cumprir a lei, mas o faz com certa reserva, levando-se pelas implicações suscitadas pelo caso. O magistrado age, de certa forma, covardemente, concedendo o poder de decidir o caso ao presidente do país, caracterizando uma total “cessão de atribuições”. Truepenny in Fuller (2011, p.10) afirma “penso que podemos presumir que alguma forma de clemência será concedida aos acusados. Se isto for feito, será realizada a justiça sem debilitar a letra da lei e sem propiciar qualquer encorajamento à sua transgressão.”
1.2 Juiz Foster
	O presente juiz apresenta uma inclinação para o jusnaturalismo, corrente que, basicamente, defende a justiça, mesmo indo de encontro à norma positivada. Foster manifesta-se, abertamente, a favor da absolvição dos acusados. O direito natural passou por diferentes momentos no decorrer da história: algo eterno e imutável; preceitos baseados em leis divinas; doutrinado através da razão e, por fim, acompanhando as mudanças sociais. Contudo, a ideia de equidade manteve-se.
	Foster inicia o seu argumento criticando a ação do juiz anterior, considerando-a sórdida e simplista, e acusando a lei do país de “não pretender realizar justiça”. Fundando-se, inteiramente, na premissa do direito natural, Foster exclui a possibilidade de aplicabilidade da lei ao julgamento, levando em consideração a complexidade do caso, no qual o ordenamento jurídico do país não é capaz de programar, tornando-se ineficaz. Essa postura é verificada na doutrina como livre estimação, em que os juízes têm ampla liberdade de aplicação do direito. Essa proposta foi abordada no realismo jurídico, no Direito Livre e no Direito Alternativo, tendo em comum o reconhecimento do Judiciário em aplicar princípios de equidade nos julgamentos, sempre buscando a justiça social.
	Fundamenta suas conclusões em duas premissas diferentes. A primeira afirma que o direito positivo é inaplicável ao caso, já que eles se encontravam em “estado de natureza”. Sintetiza esse pensamento afirmando que, quando a razão da lei cessa, a própria lei sofre do mesmo desaparecimento. Jean Jacques Rousseau (1712 – 1778) foi um dos primeiros a tratar do homem em seu estado natural, segundo ele, os desejos do homem nesse estado são os desejos do seu corpo. Afirmava que “os únicos bens que o homem conhece no universo são a alimentação, uma fêmea e o repouso”. Salientava, ainda, que no estado de natureza o ser humano é incapaz de usar a razão e é anti-social. Outro teórico iluminista, Thomas Hobbes (1588 – 1679), sustentava que essa situação não passava de um estado de guerra, onde todos estão contra todos. Esse pensamento é sintetizado na sua frase mais famosa, “o homem é o lobo do homem”. Em contrapartida, Nader (2005, p.24) assegura que “o pretenso ‘estado de natureza’, em que os homens teriam vivido em solidão, originalmente, isolados uns dos outros, é mera hipótese, sem apoio na experiência e sem dignidade científica”. Logo, para Foster, os exploradores estavam submetidos, inteiramente, à lei da natureza. Analisando sob o ponto de vista de Hobbes, o estado vivido pelos exploradores não pode ser considerado “de natureza”, já que, anteriormente, eles já vivenciaram um estado de sociedade civil. Sob uma perspectiva baseada em Locke, o estado de natureza independe do momento histórico, o que caracteriza essa situação no caso em estudo.
	Foster, posteriormente, para justificar por vias legais o argumento anterior, afirma a questão da distância, em relação ao território do país, da caverna onde os trabalhadores estavam. Ademais, seguindo a teoria contratualista, o presente magistrado destaca o acordo firmado entre os acusados, caracterizando-se como uma norma própria, a “constituição” do grupo. Esse contrato, no entanto, não é o contrato social proposto pelos filósofos iluministas, já que não pretende garantir o direito de todos os cidadãos, mas, sim, um contrato entre particulares, próprio do direito privado.
	A segunda premissa defendida por Foster baseia-se em princípios hermenêuticos. Para ele, pode-se infringir a letra da lei sem violar a própria lei, pois toda proposição de direito positivo deve ser interpretada de modo racional. Reale (2001, p.288) ressalta:
No Direito, ao contrário, o intérprete pode avançar mais, dando à lei uma significação imprevista, completamente diversa da esperada ou querida pelo legislador, em virtude de sua correlação com outros dispositivos, ou então pela sua compreensão à luz de novas valorações emergentes no processo histórico.
	Ainda em relação à interpretação do texto legal, o magistrado salienta o caso de legítima defesa que, mesmo não contido na letra da lei, figura como um ato escusável, baseando-se na jurisprudência. Esse ponto de vista é, sem sombra de dúvidas, o elemento teleológico, que busca a finalidade da lei, ou seja, o seu propósito. O Código Penal Brasileiro, em seu art. 23, do crime, considera a legítima defesa excludente de ilicitude. No art. 25, do mesmo ordenamento jurídico, há que “entende-se por legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injustiça ou agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem.” No entanto, ainda no mesmo artigo, há o “estado de necessidade” como exclusão de ilicitude, o que, provavelmente, se aplica ao caso dos exploradores de caverna. Segundo a doutrina brasileira, para figurar essa situação, é necessário: atualidade e inevitabilidade do perigo; que o perigo não tenha sido provocado por um dos sujeitos; razoabilidade da conduta do agente. No entanto, se ocorresse julgamento semelhante no Brasil, a acusação poderia alegar que a morte foi um excesso (podia ter-se sacrificando alguns dos membros de todos eles, preservando o bem maior: a vida) e que o perigo não era atual (o quadro de inanição consiste em debilidade profunda, impedindo, sequer, que houvesse força para matar o colega).
	A proposta apresentada por Foster de interpretar a lei é louvável. O direito positivo, inevitavelmente, apresentará não só lacunas, mas também generalizações e limitações. Cabe ao juiz ler nas entrelinhas, o que não significa que ele está legislando, mas aplicando a lei ao caso concreto. Como diria Daniel Coelho (1988, p.288), a interpretação é matéria pela qual se procura conhecer a lei na sua mais extensa e recôndita significação, de modo a extrair dela a sua capacidade normativa explícita e implícita, traçando o campo da liberdade de decisão de quem a aplica.
1.3 Juiz Tatting
	Inicialmente, assume que, mesmo tentando julgar o acontecido intelectualmente, com base na lei do país, foi influenciado por aspectos emocionais. Esse paradoxo culmina na abstenção de Tatting. O seu discurso, portanto, limita-se a criticar o juiz anterior, filiando-se, parcialmente, ao realismo. 
	O magistrado condena o “estado