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Fichamento

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no governo de Kubitschek (1956).
	Como instrumento do Estado, o CNER será conduzido pela classe dominante para favorecer o capitalismo e o consolidar através do campo, incorporando as políticas desenvolvimentistas e escondendo a questão rural, sem enfrenta-la em sua raiz que é a ”exploração da força de trabalho”.
	A ONU recomenda e a CNER se utiliza dos centros sociais locais para promover os objetivos desenvolvimentistas. A sua importância faz com que a ONU organize “uma comissão para estudar os objetivos, métodos e êxitos obtidos pelos mesmos, tanto em países” desenvolvidos como subdesenvolvidos (p.70). O problema foi que os países subdesenvolvidos se utilizaram dos mesmos modelos dos países desenvolvidos, isto se tornou em um grande problema. Era como se o centro social tivesse o poder de desfazer as diferenças de uma localidade, servindo a todos sem levar em conta credos, raças ou classes.
Desde a década de 1940 inúmeros centros proliferaram no Brasil principalmente sob a orientação da Igreja Católica e do Serviço Social, mas sua institucionalização e respaldo oficial se deveram à CNER. Segundo os planos daquele órgão, o trabalho das missões rurais se consolidaria através de criação de centros sociais que objetivariam a “centrifugação das energias da comunidade” (p.71).
	As missões rurais surgem num momento de entusiasmo com relação à educação, pois acreditavam que ela era a solução para os problemas socioculturais do contexto rural. A população do campo era considerada “disfuncional” para o desenvolvimento, por isso, precisava ser preparada para colaborar com o sucesso de toda a sociedade. As missões permaneciam na área de atuação até as comunidades se mostrarem autossuficientes. Os técnicos eram formados pela CNER ou nos Estados Unidos em educação de base com princípios de democracia e humanização, “cujas técnicas de trabalho primordiais eram a educação dos grupos, a organização e o desenvolvimento de comunidades” (p.75).
	A autora analisa que nem a educação de base, nem os métodos usados no campo como organização de desenvolvimento de comunidade foram suficientes para transformar desnivelamentos nas estruturas da sociedade; é nítido que essas ações isoladas não resolveram o problema da questão social, mas que seria necessário uma transformação radical nas estruturas e no modo de produção da nação.
	Ammann encerra dizendo que mesmo querendo fazer o melhor pelas classes subalternas, eles (os intelectuais) falharam na “unidade orgânica postulada por Gramsci” (p.77). Suas palavras são:
Ao contrário, reproduzimos a ideologia das classes dirigentes interessadas em remover os obstáculos à expansão do modo de produção capitalista e em engordar a exploração da força de trabalho agrícola, pelo aumento de sua produtividade, pela modernização de suas técnicas, e pelo acirramento da denominação por parte dos detentores dos meios de produção (p. 77).
	
	Ela tem consciência de que ao colocar a culpa dos problemas sobre os sujeitos, era-lhes negado perceber a origem de sua exploração que os transformava em mercadorias.
	Em sua conclusão a autora faz um apanhado de tudo que foi analisado: 
	1. O Desenvolvimento de Comunidade implantado no Brasil era uma ideologia dos grupos hegemônicos com interesses capitalistas. Sua introdução no campo removia os obstáculos e se utilizava dos recursos primários em causa própria. O PDC foi estratégico e eficiente ao ser usado pela classe dominante sob o apoio das classes subalternas. Qual foi o resultado: pobres mais pobres e ricos mais ricos (p. 241).
	2. O Desenvolvimento de Comunidade convocava a participação popular, mas não especificava como seria essa participação. Algumas correntes descrevem essa participação sendo micro e localista, sem a participação da sociedade como um todo. Outra determina que essa participação foi macro e provocou transformações nacionais, mesmo acobertando a dominação de classes. Uma terceira articula que essa participação foi uma adesão das sociedades civil e política para garantir a perfeita harmonia aos planos do governo. E uma quarta vê essa “participação num contexto macrossocietário regido por forças antagônicas e luta-se pelas mudanças estruturais a partir da estrutura de classes sociais e da atuação junto a frações e categorias dessas mesmas classes” (p.245).
	3. Quanto à participação dos intelectuais, ela é vista como uma contribuição aos propósitos do capital e seus associados. Aos se posicionarem como apolíticos reforçavam as intensões hegemônicas que eram contrárias à politização do proletariado, direcionando os interesses políticos da classe para outra direção. Assim, eles abafavam os conflitos de classes para preservar o domínio e a opressão. “Conscientes disso é que trabalhadores sociais vêm tentando construir um novo projeto profissional comprometido, desde suas nascentes, com os interesses e objetivos das classes trabalhadoras, pela inserção nos movimentos populares” (p.247).
	4. A autora diz “que o Desenvolvimento de Comunidade contribui para a exploração da força de trabalho, tanto se vinculando diretamente ao momento do processo produtivo, quanto indiretamente, ao âmbito da vida familiar” (p.247). 
	No campo o Desenvolvimento de Comunidade colaborou com a acumulação do capital e na exploração do trabalhador, aumentando sua produtividade ao introduzir novas técnicas e se apropriando do excedente, e responsabilizando o individuo por seus problemas. Nas cidades o Desenvolvimento de Comunidade “opera articuladamente com as políticas de industrialização e passa a colaborar com a qualificação do exército industrial de reserva, na forma, no compasso e na medida exigida pelas classes burguesas que comandam a expansão industrial capitalista” (p.248).
	A autora diz repartir com outros intelectuais do Desenvolvimento de comunidade o choque de perceber como foram cometidos erros, mas que podem agora percorrer um caminho diferente, ter um novo posicionamento ao lado das classes dominadas com uma reflexão critica e de vontade coletiva.
	Ao concluir este fichamento percebo que a autora descreve com pesar a implementação do Projeto Desenvolvimento de Comunidade no Brasil, e se pudesse voltar atrás, teria outra postura. Usando suas palavras “evocando sempre o benefício das classes populares”, entendemos que havia nesses intelectuais o desejando de que a população fosse atendida em suas necessidades básicas sem qualquer dano ou prejuízo. O seu espanto se consolida diante da descoberta de terem sido enganados através do adestramento para manipular o povo, e ironicamente, acontecendo o mesmo com eles; não que isso tenha ocorrido em plena consciência. É espantoso e até assustador, perceber como o capitalismo se comporta como se fosse um ser vivo com vida e vontade próprias, que ainda se alimenta da exploração e do dinheiro.
	Podemos afirmar que o Desenvolvimento de Comunidade foi uma estratégia que alcançou o seu objetivo: manipular, explorar e acumular, e de quebra impedir que o comunismo crescesse mais do que o capitalismo. Mas, como a própria autora acentua, esperamos que um novo caminho seja trilhado e que os erros do passado nos ensinem a tomar a direção da crítica e da reflexão. Como Florestan Fernandes disse no prefácio, e que concordo, é que se o Desenvolvimento de comunidade tivesse sido usado a serviço do povo teria, com certeza, transformado a vida de muita gente.