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Questão social e seus reflexos sobre a juventude : trabalho educação e violência SILVEIRA

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QUESTÃO SOCIAL E SEUS REFLEXOS SOBRE A JUVENTUDE: TRABALHO, 
EDUCAÇÃO E VIOLÊNCIA. 
 
 
Manuela Soares Silveira
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RESUMO 
 
Enquanto fator intrínseco à legitimação do projeto político do neoliberalismo, temos o 
fenômeno que Loïc Wacquant chama de “criminalização da pobreza”, o qual está presente em 
nossa sociedade brasileira, em especial no contexto de crise do capital, em que são 
engendrados processos para garantir sua manutenção e reprodução. Entre esses, a 
reestruturação produtiva e o advento do neoliberalismo, que trouxeram amplas 
transformações econômicas, políticas e sociais globais. Dentro desses aspectos, são os jovens 
entre 15 e 29 anos os mais atingidos, os quais têm em suas vidas os reflexos da questão social 
concretamente sentidos, em especial a educação precária e dual, o trabalho precário e precoce, 
e a violência. Esse quadro se reflete nas juventudes do Brasil, principalmente nos jovens 
pobres, negros, da periferia. É pelo foco da vulnerabilidade que entendemos que a violência 
embora associada à pobreza, não é sua consequência direta, mas sim da forma como as 
desigualdades sociais e a negação do direito ao acesso a bens e equipamentos de trabalho, 
educação, lazer, esporte e cultura, se refletem nas especificidades de cada grupo social, 
desencadeando comportamentos violentos. Nesse estudo nos utilizaremos da categoria 
questão social, entendida na perspectiva do Serviço Social, que ao assumir uma postura 
marxiana, permite compreender as desigualdades e seus reflexos nos homens enquanto parte 
de um processo estrutural, resultados da forma de produção e apropriação do produto social, 
em detrimento de análises responsabilizadoras e incapacitativas do indivíduo por suas 
condições sociais, se constituindo enquanto uma categoria explicativa da totalidade social 
(MACHADO, 1999). A autora mostra que a apropriação privada da produção social traz 
diferentes consequências, entre elas o analfabetismo, a violência, o desemprego, a 
favelização, a fome, o analfabetismo político, entre outros, que são expressões da questão 
social que se materializam na vida dos jovens pobres, desempregados e sem estudo. Dessa 
 
1 Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU/FACIP) 
Aprovada no mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de 
Uberlândia, turma de 2016. Assistente Social da Secretaria Municipal de Assistência Social do município de 
Capinópolis-MG. 
 
 
 
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forma, esses fenômenos são objetivações, materializações da questão social, a qual não se 
torna visível, a não ser por suas expressões. Assim, buscaremos compreender de que forma o 
contexto macrossocietário de neoliberalismo e reestruturação produtiva, traz seus reflexos 
para as juventudes, principalmente aquelas da classe trabalhadora, das periferias das grandes 
cidades, buscando construir um panorama dos jovens no Brasil, enfocando principalmente os 
aspectos da educação precária e dual, do trabalho precoce e precário, e da violência, como 
expressões da questão social. 
 
Palavras-chave: Juventude; Criminalização da Pobreza; Questão Social; Trabalho; 
Educação; Violência. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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I. INTRODUÇÃO 
O estudo que aqui pretendemos fazer, traz uma abordagem mais detalhada acerca do 
Estado nas quatro últimas décadas, por entender que não é possível analisar o momento atual 
que é de reestruturação produtiva, de profundas mudanças nas configurações políticas, 
econômicas e sociais do Estado e o seu consequente enxugamento, da flexibilização dos 
direitos sociais e desmonte de políticas públicas sem buscar suas determinações, e nem alijado 
de suas raízes históricas, todos esses fenômenos são históricos, e por isso devem ser 
analisados a partir desse viés, ou seja, devem ser localizados no tempo e no espaço. Mas 
principalmente por esse contexto trazer seus reflexos para as juventudes
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, principalmente 
aquelas da classe trabalhadora, das periferias das grandes cidades, configurando as diversas 
demandas e questões que permeiam a vida desses sujeitos. 
As últimas décadas do século XX foram marcadas por mudanças sociais, econômicas, 
políticas e culturais profundas em todo o mundo. Sem desconsiderar as especificidades e 
particularidades de cada realidade social, é possível entrever transformações no modo de atuar 
dos Estados, máximo em defesa dos interesses do capital e dos mercados, e mínimo para o 
social. Dessa feita os mais atingidos são os sujeitos da classe trabalhadora, que apesar de suas 
conquistas no âmbito dos direitos sociais, políticos e econômicos, tiveram esses 
desregulamentados e fragmentados, em detrimento das transformações ocorridas no mundo 
do trabalho, as quais tiveram por objetivo flexibilizar, precarizar e desmobilizar cada vez mais 
esses segmentos. 
 
II. APARATO CRÍTICO 
Por volta dos anos de 1970, quando as taxas de crescimento do Estado de Bem-estar 
começam a cair, e o Estado começa a perder a capacidade de “exercer suas funções 
mediadoras civilizadoras”, a reestruturação produtiva e as novas tecnologias “poupadoras de 
mão-de-obra” começam a restringir a entrada das novas gerações no mercado de trabalho, 
contrariando a máxima do pleno emprego, e as dívidas públicas e privadas crescem 
rapidamente, recaindo na primeira grande recessão nos anos 1973 e 1974 (BEHRING; 
BOSCHETTI, 2011, p. 103). 
Dessa forma, a crise capitalista propicia que os ideais neoliberais comecem a se 
firmar, recomendando medidas que se propunham a garantir a estabilidade monetária e uma 
solução para a crise, para a recessão e para o baixo crescimento econômico. Mas essas 
medidas não foram efetivas nos seus objetivos, trazendo no lugar reflexos destrutivos para a 
classe trabalhadora, com o aumento do desemprego, a destruição dos postos de trabalho não 
 
 
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qualificados, a redução dos salários e dos gastos com as políticas sociais (BEHRING; 
BOSCHETTI, 2011). 
Então, diante deste cenário o capital busca formas de garantir sua manutenção e 
reprodução, o que se dá através da chamada reestruturação produtiva, juntamente com o 
advento do neoliberalismo, da privatização e desmonte das funções produtivas do Estado, e da 
desregulamentação dos direitos do trabalho (ANTUNES, 2009). Essas transformações 
trouxeram diversas consequências, como o aumento das taxas de desemprego estrutural, os 
processos de terceirização e flexibilização da força de trabalho, e o aprofundamento da 
precarização das condições de vida e trabalho de amplos segmentos da classe trabalhadora. 
(ibid). 
Contudo, não é possível simplesmente “transpor” o modelo dos países do Norte 
Global de neoliberalismo para a “periferia do capital”, como denominam Behring e Boschetti 
(2011), onde se encontra o Brasil, pois essas sociedades têm suas particularidades históricas e 
especificidades sociais, econômicas, políticas e culturais. 
Assim, nos anos 1970, enquanto nos países centrais o projeto neoliberal era 
implementado em suas diferentes formas, no Brasil o período era de Ditadura Militar, quando 
houve uma ampliação do mercado interno, sem, no entanto, fazer a redistribuição efetiva dos 
ganhos do desenvolvimento econômico promovido pela ditadura, através de uma intensa 
internacionalização da economia brasileira (ibid). 
No ano de 1974, esse projeto de modernização conservadora do período ditatorial 
começa a se mostrar inviável e a transparecer seus primeiros sinais de esgotamento, como 
consequência dos impactos da conjuntura