Que letra é essa. A história de Patrick
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Que letra é essa. A história de Patrick

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS
Faculdade de Medicina, Terapia Ocupacional e Psicologia
Curso de Psicologia
Psicologia em Ambientes Educativos

A história de Patrick e os desafios da educação segundo a Psicologia Histórico-Cultural

Thomaz Szechir Dias

Pelotas, 2018

 A história de Patrick é a história de muitas outras crianças; é também a história de Pedro, de Lucas, de Maria, de Luiza. O fracasso, as dificuldades de aprendizagem, os problemas cognitivos, fazem parte da vida de muitas crianças e adolescentes e também das famílias. Particularmente, o fracasso escolar é um tema de muita luta e reflexão por parte de profissionais ligados a área educacional, de forma a ser um assunto que remete a real efetividade do sistema de ensino (PINHEIRO, 2014). Isto posto, as histórias de fracasso, portanto, são atravessadas por queixas – ou advindas dos professores (as) ou das famílias, por realidades contextuais diversas e também pela constante culpabilização dos sujeitos implicados nessa temática. Dessa forma, a história de Patrick será o escopo utilizado neste trabalho para analisar a realidade atual e histórica dos processos de aprendizagem e de seus possíveis desdobramentos.
Segundo Meira (1997, p. 39) a análise desse tipo de fenômeno deve abarcar os fatos sociais concretos envolvidos e ainda serem entendidos como realidades históricas que podem ser transformadas. Este potencial transformador elucidado por Meira faz parte do aporte teórico baseado em Marx e em seus seguidores que trabalharam a questão pedagógica e psicológica no âmbito da aprendizagem, entre eles destaca-se Lev Vygotsky, que trouxe a ideia da intervenção através da interação social, desenvolvendo o caráter mediado e, portanto, histórico, da aprendizagem e dos processos anteriores a ela.
A história de fracasso e de dificuldades de Patrick, como tratado nos parágrafos acima, estão intrinsicamente ligadas às questões sociais e históricas. Ao tratar dos limites e das possibilidades da educação, teremos que observar também o contexto sócio histórico e a sua ampla implicação nas questões educacionais. De acordo com Patto (1990 apud Pinheiro, 2014) as dificuldades que as escolas possuem para desenvolver processos de aprendizagem efetivos são muitas vezes criados pela própria escola. Essa ideia possui conexão com as queixas trazidas pelas professoras a respeito de Patrick, que diziam que “as crianças não têm exemplo, não tem em quem se inspirar” ou “as famílias ajudam muito pouco” ou ainda “o problema está naqueles que regem (sic) a educação”. Essas falas reforçam a ideia da culpabilização existente em diversos lugares de fala quando o assunto tratado é o fracasso escolar: ora a culpa é da escola; ora é das famílias; ora é do sistema. A pergunta que fica diante dessa reflexão é: a culpa é de quem?
O momento educacional atual em nosso país denota claramente o descrédito na escola e nos professores: a estagnação nos índices de qualidade de educação (PNUD, 2017) e o corte de verbas pelo governo federal. No âmbito estadual, no estado do Rio Grande do Sul, os professores convivem com o atraso e com o parcelamento de seus vencimentos. Com isso, nos deparamos com uma realidade desfavorável para um bom rendimento e desenvolvimento da educação. O economista Marcelo Neri, em entrevista ao jornal O Globo (https://oglobo.globo.com/economia/idh-educacao-nao-avanca-brasil-fica-estagnado-no-ranking-de-bem-estar-da-onu 23067716), aponta que o cenário educacional negativo do Brasil é resultado da instabilidade econômica, e que esta, portanto, reflete no desenvolvimento social. Este fato histórico, corrobora com a ideia desenvolvida por Pinheiro (2014), que cita o sistema social neoliberal com um dos motivadores do fracasso econômico e social.
Voltando para a história de Patrick, é importante analisarmos os discursos e as posturas das duas professoras que participaram do documentário. Em uma observação geral das falas das professoras, é notável os constantes enunciados de culpabilização e também, de certa forma, de diagnósticos triviais. Os professores elegeram a culpa muitas vezes ao próprio Patrick, ressaltando os seus “maus comportamentos” como causas dos inúmeros fracassos. Porém, há ainda uma breve compaixão com a situação do menino, que “enfrentou problemas muitos sérios, [...] com até presídio no meio (sic)”. Sobrou até mesmo, como causa do fracasso, alguma doença causada por vermes. Por mais cômico que isso possa parecer, as falas retratam a realidade de professores muitas vezes perdidos e que, no entanto, têm que auxiliar no desenvolvimento educacional dos alunos em um ambiente muitas vezes “enfadonho, repetitivo, frustrante, sem sentido e significado” (LEAL; SOUZA, 2012 apud PINHEIRO, 2014, p. 174).
As falas dos pais de Patrick retratam características de superação, luta, fé e esperança. Ainda assim, em resposta à escola, que “não dá tema para os alunos fazerem” e que “cuida de uns alunos e largam os outros”, o pai de Patrick diz que a pobreza não deve ser desculpa e que os professores têm que se dedicar. Esses discursos, que embora originais e fruto das experiências dos pais de Patrick, são reducionistas e não são capazes de compreender o fracasso como produto de múltiplas determinações (MEIRA, 2017 apud PINHEIRO, 2014).
O sistema escolar, enquanto perspectiva macro, ou seja, aqueles que regem a educação – segundo a fala de uma das professoras, é um ambiente plural e multifacetado (LEAL; SOUZA, 2012). Dessa forma, as possibilidades de ação são muito numerosas e, ao mesmo tempo, atravessada por diversos desafios no tocante ao seu real papel e potencial de mudança. Patrick, em umas de suas falas, questiona os caminhos possíveis de sua vida: ter amigos ou estudar, ler e escrever? Pelo fato da escola, muitas vezes, se apresentar como um ambiente rígido e inserido em um contexto quase “anárquico” – segundo uma das professoras – a atração do meio escolar para as crianças torna-se inexistente. Nas pesquisas acadêmicas com o objetivo de desenvolver novos métodos que sejam efetivos quanto a proporcionar maior engajamento dos alunos na dinâmica educacional, é visto que a consideração do contexto social tanto dos alunos, das famílias e, também, dos professores, deve ser considerado (MOREIRA; CANDAU, 2003).
Diante da análise disposta até o presente momento, cabe ainda investigar o papel do psicólogo em realidades como a de Patrick e similares. Por muito tempo a psicologia limitou-se a pautar o seu agir na sociedade apenas recebendo encaminhamentos clínicos, não considerando as diversas diferenças sociais que são muito presentes na construção das queixas. O modelo biomédico torna as análises limitadas por avaliar somente aquilo que a criança sabe fazer, com vistas a coletar dados quantitativos e mensuráveis (BULHÕES; MEIRA, 2016). Com as contribuições de Vygotsky, a psicologia passou a tomar como base a concepção de que o fracasso é um problema social, adotando uma postura crítica diante dos problemas que se apresentam. Essa nova postura é dirigida pela psicologia histórico-cultural que foca na história e nas características da cultura da sociedade para entender os fenômenos (PINHEIRO, 2012).
Até o presente momento deste trabalho, busquei explorar algumas falas dos personagens do documentário proposto, problematizar o papel da escola, analisar o contexto educacional atual, propor reflexões acerca de discursos institucionais. Porém penso que, mais do que isso, é relevante questionarmos: como está Patrick hoje? Ele superou suas dificuldades? Desenvolveu suas capacidades outrora não descobertas? Conseguiu acesso à universidade por meio da política de cotas? Qual a sua posição crítica diante do mundo? Arrisco dizer que com a ajuda da esperança de seus pais, da sua, ainda que jovem, capacidade de questionar o seu papel na sociedade, Patrick conseguiu superar o fracasso através das possibilidades que mundo oferece, ainda que a escola seja fragmentada e por muitos momentos objeto de sucateamento. De acordo com Leal & Souza (2014), buscar