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Livro Texto II

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TEORIA POLÍTICA CONTEMPORÂNEA
Unidade II
Estudamos os conceitos de Estado e demais correlatos partindo da perspectiva de diversos autores. 
Agora, voltando o nosso olhar para o entendimento de outros conceitos, os quais nos permitem 
compreender a dinâmica da realidade contemporânea, sobretudo no que diz respeito à participação 
social e ao poder das redes, também veremos aspectos afetos ao desenvolvimento capitalista e acerca 
da atual configuração do Estado de influência neoliberal.
Isso porque olhar para o Estado hoje requer essencialmente voltar‑se para a totalidade de fenômenos 
que condicionam a vida em sociedade, assim como trazem influências para a própria organização estatal 
da atualidade. Dito isto, convidamos você para conhecer a perspectiva de Boaventura Santos acerca 
da participação social e também a de Manuel Castells a respeito do poder das redes. Na sequência, 
apresentaremos a você informações gerais acerca do atual estágio de desenvolvimento capitalista que 
vem assentado na globalização e na tecnologia e encerraremos com a discussão sobre o Neoliberalismo.
Iniciamos com a compreensão de Boaventura Santos sobre a participação popular. 
5 A PERSPECTIVA DE BOAVENTURA SANTOS SOBRE A PARTICIPAÇÃO SOCIAL 
E O CONTEXTO HISTÓRICO DO BRASIL
5.1 A democracia e a participação popular de Boaventura Santos
Boaventura Santos é professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e graduado 
em Direito. Fez sua tese por meio da observação da vida cotidiana em favelas do Rio de Janeiro, e toda 
a sua produção teórica, antes do doutorado, sempre esteve voltada para a análise crítica da sociedade. 
Atualmente, além de advogado, Boaventura é sociólogo, e suas produções têm sido orientadas para 
discutir a globalização, os direitos humanos e as questões afetas à democracia. Voltaremos o nosso olhar 
para o entendimento de Boaventura Santos acerca da participação social. 
 Saiba mais
Para conhecer um pouco mais da obra desse autor, propomos a leitura 
do texto: 
PEREIRA, M. A.; CARVALHO, E. Boaventura de Sousa Santos: por uma 
nova gramática do político e do social. Lua Nova, São Paulo, n. 73, 2008. 
Disponível em: <http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=67311189002>. 
Acesso em: 19 ago. 2016.
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Unidade II
Iniciamos afirmando que para o autor o conceito de participação social vem diretamente influenciado 
pelo conceito de democracia e a este relacionado. Assim, entender a participação popular demanda 
entender a democracia. A participação popular só é possível em um regime, de fato, democrático.
Podemos então nos perguntar: o que é democracia? Poderíamos rapidamente responder: é o 
governo de todos para todos. Correto? Não. Segundo Santos, em Renovar a Teoria Crítica e Reinventar 
a Emancipação Social (2007), democracia não é apenas o governo de todos e para todos, mas o governo 
em que todos tenham voz e todos tenham visibilidade. 
No governo democrático, de acordo com o autor, temos a discussão pública, o debate de diversos 
atores sociais, motivo pelo qual a democracia não pode estar restrita ao sistema de representação, mas 
deve ser entendida como os múltiplos espaços que passam a ser construídos visando à participação 
de toda a sociedade, a fim de discutir assuntos de interesse coletivo. Assim, a democracia, para ser 
efetivada, demanda que as pessoas de uma determinada sociedade exponham suas necessidades e 
construam uma nova forma de diálogo entre Estado e Sociedade Civil. A figura a seguir nos chama a 
refletir sobre os processos de decisão. 
Figura 9 – Participação democrática 
A figura demonstra a organização do MST, que em setembro de 2016 invadiu o prédio do Ministério 
do Planejamento exigindo direitos relacionados à Reforma Agrária. Nessa forma de organização temos 
um modelo de participação social e, por conseguinte, de democracia. 
De tal maneira, Santos nos diz que ainda não temos uma sociedade democrática. Aliás, o autor 
chama a nossa atenção para o fato de que hoje a sociedade capitalista se diz democrática. Há uma 
grande quantidade de Estados que diz possuir uma gestão democrática, mas, de verdade, não a têm. 
Esses Estados acabam reduzindo a democracia ao voto, que nem sempre é obrigatório, e não instituem 
outros espaços de participação popular. No sentido posto, o autor nos coloca que o que temos é uma 
democracia liberal. Sabe o que é isso? 
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Santos (2007) entende que a democracia liberal seria a democracia condicionada à liberdade viabilizada 
pelo mercado, ou seja, há muitas escolhas que só estão acessíveis aos segmentos que possuem certa 
situação financeira, o que os permite escolher. Assim, a democracia liberal não seria uma democracia que 
chegaria e envolveria a todos, a toda população, mas somente àqueles que possuíssem poder aquisitivo 
para escolha. O autor chama a nossa atenção para o fato de que essa forma de democracia luta para se 
manter. Eventualmente, faz concessões no sentido de partilhar o poder, buscando assim evitar embates 
da população excluída dos processos decisórios, assim, partilha algumas instâncias de poder com a 
população geral, mas mantém seu controle e predomínio dos espaços mais relevantes de poder.
É bastante singular e relevante o termo usado por Santos (2007) em suas obras em que o autor nos 
diz que precisamos democratizar a democracia, ou seja, nos fala que precisamos de outros espaços que 
nos permitam efetivar, de fato, a participação democrática, que ainda não está plenamente constituída 
em todo o mundo. Aliás, é preciso aqui destacar que Santos entendia que as análises sobre os espaços 
democráticos, sobre a democracia e sobre o Estado até então estavam sustentadas em estudos realizados 
na Europa, e, para ele, essas análises não seriam suficientes para explicar as singularidades presentes 
na realidade latino‑americana, dadas as especificidades observadas nesse contexto. É necessário ainda 
ressalvar que o autor em pauta realizou inúmeras viagens pelo mundo a fim de apreender a realidade e 
a cultura de outros povos. 
De tal maneira, é necessário, no entanto, apontar que a luta pela ampliação dos espaços 
democráticos é inerente ao gênero humano e encontra várias expressões pelo mundo. Assim, se por 
um lado ainda temos em grande medida a democracia liberal instituída, também temos, por outro 
lado, conforme Santos (2007), movimentos sociais de luta e embate pela mudança das relações de 
poder estabelecidas socialmente.
 A luta pela democracia se desenvolve ao longo da história, e essa luta não tem uma forma 
hegemônica, mas vem das condições experimentadas por cada uma das realidades dos países. 
Aqui, um contraponto: Santos (2007) entendia que não há como traçar uma referência única dos 
movimentos de reivindicação democrática. Apenas nos diz que os movimentos sociais, em diversas 
partes do globo, são preponderantes nesse aspecto, posto que questionam determinadas situações 
já instituídas e viabilizam a exposição dos pontos de vista da população. Mas os movimentos pela 
ampliação da democracia, assim como os movimentos sociais de reivindicação dos direitos sociais e 
de demais aspectos afetos à vida humana, também são condicionados pela realidade circunscrita em 
uma determinada região ou país.
O que vemos nos trabalhos de Boaventura Santos, a nosso ver, é que o autor busca fugir de 
explicações genéricas e pretende evidenciar a necessidade de encontrarmos “explicações” focais sobre 
fenômenos contemporâneos que
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