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CAP.5 – TEORIA GERAL DOS CONTRATOS

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TEORIA GERAL DOS CONTRATOS
Conceito de contrato.
O código civil de 2002, a exemplo do seu antecessor, não cuidou de definir o conceito de contrato.
De início, nota-se que o contrato é um ato jurídico bilateral, dependente de pelo menos duas declarações de vontade, cujo objetivo é a criação, a alteração ou até mesmo a extinção de direitos e deveres. São, em suma, todos os tipos de convenções ou estipulações que possam ser criadas pelo acordo de vontades e por outros fatores acessórios.
É um ato jurídico em sentido amplo, em que há o elemento norteador da vontade humana que pretende um objetivo de cunho patrimonial (ato jurígeno); constitui um negócio jurídico por excelência. 
Para existir o contrato, seu objeto ou conteúdo deve ser lícito, não podendo contrariar o ordenamento jurídico, a boa-fé, a sua função social e econômica e os bons costumes. 
Em suma, e em uma visão clássica ou moderna, o contrato pode ser conceituado como sendo um negócio jurídico bilateral ou plurilateral que visa à criação, modificação ou extinção de direitos e deveres com conteúdo patrimonial.
Buscando a feição interna contratual, Maria Helena Diniz aponta dois elementos essenciais para a formação do instituto: um estrutural, constituído pela alteridade; e outro funcional, formado pela composição de interesses contrapostos, mas harmonizáveis. A alteridade constitui-se pela presença de pelo menos duas pessoas quando da constituição do contrato. 
Justamente pela existência desses dois elementos é que seria vedada a autocontratação ou celebração de um contrato consigo mesmo. Mas dúvidas surgem quanto a essa possibilidade, diante do art. 117, CC:
Art. 117. Salvo se o permitir a lei ou o representado, é anulável o negócio jurídico que o representante, no seu interesse ou por conta de outrem, celebrar consigo mesmo. Parágrafo único. Para esse efeito, tem-se como celebrado pelo representante o negócio realizado por aquele em quem os poderes houverem sido substabelecidos.
 	É possível a outorga de poderes para que a pessoa que represente outrem celebre um contrato consigo mesmo, no caso, um mandato em causa própria. Não estando presente essa autorização ou havendo proibição legal, o mandato em causa própria é anulável, o que merece aplicação também nos casos de substabelecimento.
No tocante ao prazo para a ação anulatória, filiamo-nos ao entendimento pelo qual deve ser aplicado o art. 179 do CC, que traz um prazo geral de dois anos.
Não há uma autocontratação perfeita, sem alteridade, nesse caso, pois a presença de duas pessoas continua sendo essencial para a sua validade.
Ainda sobre o conceito clássico de contrato, exige-se um conteúdo patrimonial, ou a patrimonialidade.
Num conceito pós-moderno ou contemporâneo, o contrato constitui a relação jurídica subjetiva, nucleada na solidariedade constitucional, destinada à produção de efeitos jurídicos existenciais e patrimoniais, não só entre os titulares subjetivos da relação, como também perante terceiros.
Assim:
1º) o contrato está amparado em valores constitucionais, sobretudo na solidariedade social (art. 3º, I, CF/88). Os princípios contratuais, caso da boa-fé objetiva e da função social do contrato, amparam-se em princípios constitucionais.
2º) o contrato pode envolver um conteúdo existencial, relativo a direitos da personalidade. Ex: exploração patrimonial da imagem de um atleta profissional.
A proteção dos direitos da personalidade e da dignidade humana no contrato tem relação direta com a função social do contrato. Nesse sentido, enunciado 23: “a função social do contrato, prevista no art. 421 do novo CC, não elimina o princípio da autonomia contratual, mas atenua ou reduz o alcance desse princípio quando presentes interesses metaindividuais ou interesse individual relativo à dignidade da pessoa humana”.
3º) o contrato pode gerar efeitos perante terceiros, sendo essa a feição da eficácia externa da função social dos contratos.
Classificações contratuais
1. Quanto aos direitos e deveres das partes envolvidas
O negócio jurídico pode ser unilateral, bilateral ou plurilateral. O contrato é sempre negócio jurídico bilateral ou plurilateral, eis que envolve pelo menos duas pessoas (alteridade).
No entanto, o contrato também pode ser classificado como:
a) contrato unilateral – apenas um dos contratantes assume deveres em face do outro. Ex: doação pura e simples: há duas vontades, mas do concurso de vontades surgem deveres apenas para o doador. Ex2: mútuo e o comodato.
Apesar de duas vontades, apenas uma delas será devedora, não havendo contraprestação.
b) contrato bilateral – os contratantes são simultaneamente e reciprocamente credores e devedores uns dos outros, produzindo o negócio direitos e deveres para ambos os envolvidos, de forma proporcional. É também denominado contrato sinalagmático, pela presença do sinalagma, que é a proporcionalidade das prestações.
c) contrato plurilateral – envolve varias pessoas, trazendo direitos e deveres para todos os envolvidos, na mesma proporção. Ex: seguro de vida e consórcio.
2. Quanto ao sacrifício patrimonial das partes
a) contrato oneroso – traz vantagem para ambos os contratantes, pois estes sofrer o mencionado sacrifício patrimonial. Ambas as partes assumem deveres obrigacionais, havendo um direito subjetivo de exigi-lo. Há uma prestação e uma contraprestação. Ex: compra e venda.
b) contrato gratuito ou benéfico – onera somente uma das partes, proporcionando à outra uma vantagem sem qualquer contraprestação. Ex: doação pura ou simples.
Observação: em regra, o contrato oneroso é bilateral, e o gratuito é unilateral. Mas pode haver exceção, como é o caso do contrato de mútuo de dinheiro sujeito a jurus (mútuo feneratício) pelo qual além da obrigação de restituir a quantia emprestada (contrato unilateral), devem ser pagos juros (contrato oneroso).
3. Quanto ao momento do aperfeiçoamento do contrato
a) contrato consensual – tem aperfeiçoamento pela simples manifestação de vontade das partes envolvidas. Ex: compra e venda, doação, locação, entre outros.
b) contrato real – se aperfeiçoa com a entrega da coisa, de um contratante para o outro. Antes da entrega da coisa tem-se apenas uma promessa de contratar e não um contrato perfeito e acabado. Ex: comodato, mutuo, contrato estimatório e depósito.
Observação: não se pode confundir o aperfeiçoamento do contrato (plano de validade) com o seu cumprimento (plano de eficácia). No caso dos contratos reais, a entrega da coisa está no plano de validade.
4. Quanto aos riscos que envolvem a prestação 
a) contrato comutativo – as partes já sabem quais são as prestações, ou seja, essas são conhecidas ou pré-estimadas.
b) contrato aleatório – a prestação de uma das partes não é conhecida com exatidão no momento da celebração do negócio jurídico pelo fato de depender da sorte, da álea, que é um fator desconhecido. Alguns negócios são aleatórios devido a sua própria natureza, em outros casos, em virtude da existência de um elemento acidental, que torna a coisa ou o objeto incerto quanto à sua existência ou quantidade. O CC consagra duas formas básicas de contratos aleatórios:
 - Contrato aleatório emptio spei – um dos contratantes toma para si o risco relativo à própria existência da coisa, sendo ajustado um determinado preço, que será devido integralmente, mesmo que a coisa não exista no futuro, desde que não haja dolo ou culpa da outra parte. Ex: venda da esperança.
 - Contrato aleatório emptio rei speratae – se o risco versar somente em relação à quantidade da coisa comprada, pois foi fixado pelas partes um mínimo como objeto do negócio. A parte terá direito a todo o preço, desde que da sua parte não tenha concorrido com culpa, ainda que a coisa venha a existir em quantidade inferior à esperada. Mas, se a coisa não vier a existir, alienação não haverá, e o alienante deverá devolver o preço recebido. Ex: venda da esperança com coisa esperada.
5. Quanto à previsão legal
a) contrato típico – tem previsão legal mínima, ou seja, um estatuto legal suficiente.

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