RESUMO Pierre Bourdieu   Espírito de Estado, gênese e estrutura do campo burocrático
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RESUMO Pierre Bourdieu Espírito de Estado, gênese e estrutura do campo burocrático


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PIERRE BOURDIEU \u2013 RAZÕES PRÁTICAS: SOBRE A TEORIA DA AÇÃO 
CAPÍTULO IV: ESPÍRITOS DE ESTADO - GÊNESE E ESTRUTURA DO 
CAMPO BUROCRÁTICO 
 
Tentar pensar o Estado é expor-se a assumir um pensamento de 
Estado, a aplicar ao Estado categorias de pensamento produzidas 
e garantidas pelo Estado e, portanto, a não compreender a 
verdade mais fundamental do Estado. 
> Para apresentar uma primeira tradução mais intuitiva da 
análise e mostrar o perigo que se corre de ser pensados por um 
Estado que se acredita pensar, o autor cita uma passagem de 
Thomas Bernhard sobre a dominação estatal através da escola; 
> Quando se trata do Estado, nunca duvidamos demais, mas o 
exagero literário... 
 
A DÚVIDA RADICAL 
> É no domínio da produção simbólica que particularmente se faz 
sentir a influência do Estado: as administrações públicas e seus 
representantes são grandes produtores de problemas sociais que a 
ciência social frequentemente apenas ratifica, retomando-os por 
sua conta como problemas sociológicos. 
> Mas a melhor prova do fato de que o pensamento do pensador 
funcionário é atravessado pela representação oficial do oficial 
é a sedução exercida pelas representações do Estado que, como em 
Hegel, fazem da burocracia um grupo universal, dotado da 
intuição e vontade de interesse universal, ou como em Durkheim, 
muito prudente sobre o assunto, um órgão de reflexão e um 
instrumento racional encarregado de realizar o interesse geral. 
> A dificuldade específica da questão do Estado prende-se ao 
fato de que, sob a aparência de pensá-lo, a maior parte dos 
estudos consagrados a esse objeto, sobretudo em sua fase de 
construção e consolidação, participam de sua construção e de sua 
própria existência. É esse o caso de todos os estudos dos 
juristas dos séculos XVI e XVII, que só fazem sentido se sabemos 
ver neles programas de ação política que pretendem impor uma 
visão particular do Estado, de acordo com os interesses e 
valores associados à posição ocupada por aqueles que os produzem 
no universo burocrático em vias de constituição. 
> A própria ciência social é parte integrante desse esforço de 
construção da representação do Estado que faz parte da própria 
realidade do Estado. Todos os problemas colocados a respeito da 
burocracia, como a questão da neutralidade e desinteresse, 
colocam-se também a respeito da sociologia que os coloca; mas em 
grau de dificuldade superior já que, tratando deles, podemos 
colocar a questão de sua autonomia em relação ao Estado. 
> Eis porque é preciso pedir à história social das ciências 
sociais que torne claras todas as adesões inconscientes ao mundo 
social que as CS devem à história da qual elas são o resultado, 
problemáticas, teorias, métodos, conceitos, etc. Descobrimos, 
assim, que as CS não expressão direta das lutas sociais; ela é 
na verdade uma resposta aos problemas que esses movimentos e 
seus prolongamentos teóricos enunciam, e aqueles que eles fazem 
surgir pela sua existência: ela encontra seus primeiros 
defensores entre os filantropos e reformadores, espécie de 
vanguarda esclarecida dos dominantes, que espera da economia 
social (ciência auxiliar da ciência política) a solução dos 
problemas sociais, particularmente daqueles colocados pelos 
indivíduos e grupos problemáticos. 
> Um olhar comparativo sobre o desenvolvimento das CS permite 
postular que um modelo que visa dar conta das variações do 
estado dessas disciplinas conforme as nações e épocas, deveria 
levar em conta dois fatores fundamentais: por um lado, a forma 
que assume a demanda social de conhecimento do mundo social, 
sobretudo em virtude da filosofia dominante nas burocracias de 
Estado (particularmente liberalismo ou keynesianismo), uma forte 
demanda estatal podendo assegurar as condições favoráveis ao 
desenvolvimento de um CS relativamente independente das forças 
econômicas, mas fortemente submissa às problemáticas estatais; 
por outro lado, o grau de autonomia do sistema de ensino e do 
campo científico em relação às forças econômicas e políticas 
dominantes - autonomia que supõe um grande desenvolvimento dos 
movimentos sociais e da crítica social dos poderes e uma grande 
independência dos especialistas em relação a esses movimentos. 
> A história atesta que as CS não podem aumentar sua 
independência em relação às pressões da demanda social, condição 
principal de seu progresso em direção à cientificidade, sem 
apoio do Estado: assim fazendo, correm o risco de perder sua 
independência em relação a ele, a menos que estejam preparadas 
para usar contra o Estado a liberdade (relativa) que o Estado 
lhes garante. 
 
A CONCENTRAÇÃO DO CAPITAL 
> Antecipando os resultados da análise e modificando a fórmula 
de Max Weber (o Estado é uma comunidade humana que reivindica o 
monopólio do uso legítimo da violência física em um território 
determinado), o Estado é então um x (a ser determinado) que 
reivindica com sucesso o monopólio do uso legítimo da violência 
física e simbólica em um território determinado e sobre o 
conjunto da população correspondente. Se o Estado pode exercer 
violência simbólica é porque ele se encarna tanto na 
objetividade, sob forma de estruturas e mecanismos específicos, 
quanto na subjetividade, nas mentes, sob forma de estruturas 
mentais, de esquemas de percepção e pensamento. Dado que ela é 
resultado de um processo que a institui, ao mesmo tempo, nas 
estruturas sociais e nas estruturas mentais adaptadas a essas 
estruturas, a instituição instituída faz com que se esqueça que 
resulta de uma longa série de atos de instituição e apresenta-se 
com toda a aparência do natural. 
> Eis porque não há instrumento de ruptura mais poderoso do que 
a reconstrução da gênese: ao fazer com que ressurjam os 
conflitos e confrontos dos primeiros momentos e os possíveis 
excluídos, ela reatualiza a possibilidade de que houvesse sido 
(e que seja) de outro modo e, por meio dessa utopia prática, 
recoloca em questão o possível que se concretizou entre todos os 
outros. Rompendo com a tentação de análise da essência, mas sem 
renunciar à intenção de distinguir invariantes, propõe um modelo 
de emergência do Estado, visando dar conta, de modo sistemático, 
da lógica propriamente histórica dos processos ao termo dos 
quais se instituiu o Estado. 
> Cita Richard Bonney sobre a dificuldade do estudo histórico 
nas regiões de fronteiras. 
> O Estado é resultado de um processo de concentração de 
diferentes tipos de capital (capital de força física/coerção, 
econômico, cultural/de informação, simbólico, etc), concentração 
que constitui o Estado como detentor de uma espécie de 
metacapital, com poder sobre os outros tipos de capital e sobre 
seus detentores. A concentração de diferentes tipos de capital 
leva à emergência de um capital específico, propriamente 
estatal, que permite ao Estado exercer um poder sobre os 
diversos campos e sobre diferentes tipos específicos de capital, 
especialmente sobre as taxas de câmbio entre eles (e sobre as 
relações de força entre seus detentores). A construção do Estado 
está em pé de igualdade com a construção do campo do poder, 
entendido como o espaço de jogo no interior do qual os 
detentores de capital (de diferentes tipos) lutam 
particularmente pelo poder sobre o Estado, sobre o capital 
estatal que assegura o poder sobre os diferentes tipos de 
capital e sua reprodução (notadamente por meio da instituição 
escolar). 
> Ainda que as diferentes dimensões desse processo de 
concentração (forças armadas, fisco, direito etc.) sejam 
interdependentes, é preciso, pela exigência da exposição e 
análise, examiná-las uma a uma. 
> A força física foi privilegiada na maior parte dos modelos de 
gênese do Estado. Dizer que as forças de coerção se concentram é 
dizer que as instituições com mandato para garantir a ordem são 
progressivamente separadas do