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Ética humanista

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AMATUZZI, M. M. Rogers: Ética humanista e psicoterapia. 2ª ed. Campinas: Alínea, 2012.
	Carl Rogers foi o fundador da Psicologia Humanista e da Terapia Centrada na Pessoa (TCP), que passou a se chamar Abordagem Centrada na Pessoa (ACP). Ele deu outro olhar à noção de ajuda em psicoterapia, adotando essa postura em atendimentos individuais, grupos e comunidades, de modo bastante radical. Postulou que o saber psicológico não tinha serventia e o psicodiagnóstico é uma forma de dominação que impede o crescimento do sujeito, explicou que na relação de ajuda com o cliente, o psicólogo deve abandonar as técnicas e procedimentos padronizados, bem como as estratégias já estabelecidas, que enquadram o sujeito num diagnóstico, que não é o psicólogo que determina quando o atendimento encerra, mas sim o cliente, pois somente ele pode chegar ao conhecimento de si mesmo, pois existe uma sabedoria que flui a partir do encontro aberto e transparente entre as pessoas.
	A função do psicólogo, para Rogers, é oferecer uma relação acolhedora, compreensiva e honesta. Não é uma nova técnica para atingir uma finalidade, é uma nova finalidade, uma interpretação do sujeito, que leva a atitudes e consequências distintas, portanto, os problemas são concebidos por outra perspectiva, numa nova relação ética.
	Não são propostas fáceis de execução, pois exige uma desconstrução do saber psicológico e dos sujeitos, não apenas do cliente, mas também do profissional. Há teóricos que dirão que esta proposta é ingênua, romântica, sentimental, acreditando fielmente na mudança interna das pessoas, porém, essa é uma compreensão decorre da não mudança de paradigma que Rogers propõe. Segundo Amatuzzi (2012), é necessário experenciar primeiro, para depois fazer algum juízo de valor, pois avaliar a priori será baseado em antigos paradigmas.
	A demais abordagens teóricas partem do pressuposto determinista e o caminho terapêutico seguido já é pré-estabelecido, com generalizações feitas em pesquisas acadêmicas. Já a psicologia humanista se baseia num pressuposto de autonomia. O sujeito tem o poder sobre as determinações que o afetam, sendo mais importante do que elas em si. O atendimento psicológico se fundamenta em permitir um ambiente dialógico para que a liberação desse poder se torne possível, a fim de que a autonomia e a relação inter-humana ganhem palco. Portanto, a autonomia é compreendida na capacidade que o ser humano tem de guiar sua própria vida para si e para o coletivo. Assim, o atendimento psicológico se baseia na tendência inata ao crescimento e não ao diagnóstico, além disso, o relacionamento é aberto e centrado na pessoa, não sendo uma intervenção direcionada, como em abordagens deterministas. 
	No encontro terapêutico, essa relação dialógica se baseia em três pilares, aceitação, compreensão e autenticidade: a primeira se refere a valorização do outro como pessoa, na positividade da sua essência; a segunda é a adoção do ponto de vista do outro para ver e sentir como ele sente, abrindo-se para seus significados; a terceira e última é estar presente por inteiro no atendimento, se colocando a serviço da totalidade do ser do outro.
	Para considerar um comportamento, na ACP, precisa-se pensar nas disposições, valores e atitudes que levaram a este comportamento, pois eles o antecedem, ou seja, “o que importa é o agir daquilo que a pessoa tem como valor” (AMATUZZI, 2012, p. 22), lembrando que uma mesma atitude não determina o mesmo comportamento, podendo variar, já que cada situação é única. Valores que são parte essencial na ACP são harmonia, amor e sabedoria. Outros adjacentes são o valor e a comunhão entre as pessoas e a honestidade em relação às diferenças, que não se camufle nem omita nada, para que a relação entre as pessoas seja construída evolutivamente.
	Em relação ao histórico da ACP, surgiu nos Estados Unidos como uma reação ao anti-humanismo, que tem bases de discussão desde a antiguidade clássica ocidental com a visão cosmocêntrica, em que era questionado qual a natureza humana. A partir do império romano, o teocentrismo ganhou força, onde homem e natureza vinham da criação de Deus. Já na modernidade, a visão tornou-se antropocêntrica, em que tudo vinha do homem, inclusive Deus e a natureza.
	Nesta última fase, Descartes, no século XVII, reconstrói o pensamento com base na subjetividade e na consciência do homem, sendo este livre porque pensa. Já no século XVIII, Kant filosofa numa visão antropocêntrica, colocando para o ser humano uma busca pela conquista da autonomia, independente da natureza, já que a domina, e de Deus, tendo que resolver seus conflitos consigo mesmo. 
	Na modernidade, o conhecimento sobre a subjetividade humana não foi possível a partir das ciências físico-matemáticas, pois o homem possui essências e valores não quantificáveis em laboratórios, sendo ele próprio um dos fenômenos que a outra ciência gostaria de adquirir. Isso trouxe algumas visões: na visão cosmológica, foi comparada à revolução de Copérnico. Pela biologia foi considerado pela teoria da evolução. A psicologia considerava a alma um epifenômeno, que reverbera a partir de fenômenos físicos. A sociologia considerava os seres humanos produtos das leis sociais e históricas que podem ser estudadas. E a filosofia estabeleceu o estruturalismo. Todas essas concepções, segundo Amatuzzi (2012), acabaram com a liberdade do homem, dando espaço ao positivismo, reduzindo os fenômenos a fatos estudados e pesquisados. Nietzsche matou Deus e Foucaut matou o homem, simbolicamente.
	Com esse anti-humanismo, a saída era o ceticismo para os valores e o emocionalismo para a praticidade do dia-a-dia. Em busca de uma verdade única para a razão humana, a fenomenologia mostrou uma forma de pensar o caminho sobre isso.

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