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A Pedagogia dos Caracóis Rubem Alves

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Em uma das crônicas deste livro, Rubem Alves nos conta sobre um
educador que, ao ver um caracol, tem uma inspiração pedagógica e
passa a buscar a virtude da vagareza. Afinal, ele conclui, talvez chegar na
frente não seja tão importante. Talvez o ir seja mais educativo que o
chegar. É essa pedagogia dos caracóis que permeia os textos reunidos
nesta coletânea.
Com a sensibilidade e a perspicácia que lhe são características, Rubem
Alves faz aqui um apelo pela leveza na educação e pelo respeito ao olhar
infantil. Dessa forma, quem sabe possamos transformar os espaços
escolares em lugares queridos, onde às crianças seja permitido exercitar
o olhar de assombro que têm diante do mundo. Assim, talvez também
nós, adultos, possamos recuperar a criança que um dia fomos. Na visão
sempre surpreendente de Rubem Alves, o professor, antes de ensinar
saberes, tem de provocar o amor, e a escola deve ser um espaço feito de
sonhos, onde os alunos aprendam o prazer de ler, escrever e contemplar
a natureza. Mas, antes de tudo, é preciso ter coragem para concretizar
essa missão de educar.
Em A pedagogia dos caracóis, Rubem Alves nos mostra mais uma vez
que é, acima de tudo, um apaixonado pelas crianças e pela educação.

P
A	CEBOLA

egue	uma	cebola	e	corte-a	ao	meio.	Olhe	bem	para	ela,	com	olhos	de
criança.	Se	você	não	sabe	o	que	é	o	olhar	de	uma	criança,	leia	o	poeta

Alberto	Caeiro	para	aprender.	Uma	paciente	minha,	dos	tempos	em	que	eu
exercia	a	psicanálise,	olhou	para	uma	cebola	cortada	ao	meio	com	olhos	de
criança	e	ficou	tão	espantada	com	o	que	viu	que	pensou	que	estava	ficando
louca.	 Uma	 cebola	 cortada	 é	 um	 espanto.	 Todos	 aqueles	 anéis,	 perfeitos,
agarradinhos	 uns	 nos	 outros,	 sem	 folgas	 intermediárias.	 A	 natureza	 tem
alma	 de	 artista.	 Agora,	 figure	 que	 uma	 cebola	 cortada	 é	 um	 modelo	 do
mundo!	 Bem	 no	 centro,	 lá	 onde	 o	 primeiro	 anel	 é	 tão	 pequeno	 que	 não
chega	a	ser	anel,	ponha	uma	criança.	Imagine	que	os	anéis	são	os	mundos
que	ela	precisa	conhecer	para	viver.	Ela	só	pode	conhecer	o	anel	que	a	está
envolvendo	naquele	momento.	Conhecer	é	ir	comendo	o	mundo.	Quando	se

come	o	mundo,	ele	passa	a	ser	parte	do	corpo	da	gente.	Mas	não	é	possível
comer	o	que	está	 longe.	Só	se	pode	comer	o	que	se	pode	morder.	E	só	se
pode	morder	 o	 que	 está	 próximo.	Não	 é	 possível	 pular	 anéis.	 Só	 se	 pode
comer	o	quarto	anel	depois	que	o	corpo	comeu	o	primeiro,	o	segundo	e	o
terceiro.

A	 cebola	 cortada	me	sugeriu	a	 forma	como	o	 currículo	escolar	deveria
ser	 organizado	 –	 como	 os	 anéis	 de	 uma	 cebola,	 na	 ordem	 certa.	 O	 que
estaria	 contido	 no	 primeiro	 anel?	 A	 resposta	 é	 fácil:	 o	 primeiro	 anel	 que
abraça	a	criança	é	a	sua	casa.

Lembrei-me	então	da	resposta	do	Amyr	Klink,	ao	ser	perguntado	sobre	o
que	 seria	 a	 escola	 ideal	 para	 os	 seus	 filhos.	 Ele	 respondeu	 que	 era	 uma
escola	 que	 havia	 encontrado	 numa	 ilha,	 se	 não	 me	 engano	 na	 costa	 da
Noruega.	 Lá	 as	 crianças	 aprendiam	 tudo	 que	 precisavam	 aprender
construindo	uma	casa	viking!	Construir!	Pensar	e	fazer!	Poucas	pessoas	se
dão	conta	do	poder	que	as	mãos	têm	para	ajudar	a	inteligência	a	aprender.

Não	 fui	 ousado	 a	 ponto	 de	 imaginar	 a	 construção	 de	 uma	 casa.	 Mas
pensei	que	a	casa	onde	a	criança	mora,	o	primeiro	anel	da	sua	cebola,	é	um
universo	imenso,	cheio	de	provocações	ao	conhecimento.

Primeiro,	a	casa	como	objeto	matemático,	com	seus	ângulos,	triângulos,
linhas	 horizontais,	 verticais,	 paralelas,	 proporções	 e	 simetrias.	 Depois,	 a
casa	 como	 objeto	 da	 física,	 a	 composição	 de	 forças	 no	 travamento	 do
telhado,	 o	 prumo,	 o	 nível,	 os	 vasos	 comunicantes	 (todo	 pedreiro	 faz	 uso
deles	sem	saber	o	nome),	a	caixa	de	 ferramentas	–	o	martelo,	o	serrote,	a
pua	–,	a	física	dos	materiais	–	a	madeira,	o	vidro,	a	cerâmica,	o	plástico	–,	a
eletricidade	que	esquenta,	a	eletricidade	que	esfria,	a	eletricidade	que	 faz
girar,	a	eletricidade	que	ilumina,	a	eletricidade	que	produz	música.	Aquele
laboratório	 de	 química	 chamado	 cozinha	 –	 o	 fogo,	 os	 alimentos,	 os
temperos.	O	mundo	das	coisas	vivas	–	as	baratas,	as	traças,	os	tatuzinhos,
os	 piolhos,	 os	 pássaros,	 as	 aranhas,	 os	 cachorros,	 os	 gatos,	 os	 peixes,	 os
pernilongos,	os	mosquitos	da	dengue,	os	caramujos.	O	mundo	das	doenças

e	da	saúde,	os	primeiros	socorros.	O	lixo,	as	privadas,	a	urina,	o	cocô	(para
onde	vão?),	o	meio	ambiente.	O	mundo	da	cultura	–	as	revistas,	os	livros,	a
televisão,	o	jardim,	os	quadros.

Fiquei	 encantado	 com	 a	 minha	 ideia	 porque	 eu	 mesmo	 gostaria	 de
seguir	um	currículo	desses.	Gostaria	de	conhecer	a	casa	em	que	moro.	Mas
não	 conheço.	 Aperto	 uma	 infinidade	 de	 botões	 que	 fazem	 as	 coisas
acontecer,	mas	não	 sei	por	que	elas	 acontecem,	 e	quando	não	acontecem
fico	perdido	e	tenho	de	chamar	o	técnico.	Pensei	que	as	crianças	gostariam
da	 ideia	 como	 eu	 gostei.	 Aprendendo	 sobre	 a	 casa,	 aprendemos	 sobre	 o
mundo	todo.	Pois	o	mundo	todo	é	a	grande	casa	em	que	moramos,	o	último
anel	da	cebola...

U
LIVRO	QUE	FAZ	CHORAR

ma	livreira	me	contou.	Um	pai	foi	à	livraria	e	comprou	O	patinho	que
não	aprendeu	a	voar	para	o	filho.	No	dia	seguinte	voltou	muito	bravo,

levando	o	 livro	de	 volta.	 “Meu	 filho	 chorou	 ao	 final	 do	 livro.	Ainda	 chora
quando	se	lembra	do	patinho	que	não	aprendeu	a	voar.	Isso	é	livro	para	se
dar	a	uma	criança?”

Eu	compreendo.	Ele	quer	que	o	filho	só	tenha	alegrias.	Quer	que	os	livros
que	o	 filho	 lê	sejam	engraçados	e	 façam	rir.	As	crianças	não	deveriam	 ler
livros	que	fazem	chorar.

Mas	tristeza	não	é	coisa	ruim.	A	poesia	brota	da	tristeza.	Alberto	Caeiro
escreveu,	em	“Eu	nunca	guardei	rebanhos”:

Mas	eu	fico	triste	como	um	pôr	de	sol

Para	a	nossa	imaginação,
Quando	esfria	no	fundo	da	planície
E	se	sente	a	noite	entrada
Como	uma	borboleta	pela	janela.

Mas	a	minha	tristeza	é	sossego
Porque	é	natural	e	justa
E	é	o	que	deve	estar	na	alma
[...].

Escrevi	muitas	estórias	alegres	e	que	fazem	rir.	Mas	as	que	mais	amo	são
aquelas	que	fazem	chorar.

Por	que	é	que	o	menininho	chorou	ao	 ler	a	estória	do	patinho	que	não
aprendeu	a	voar?	Porque	sentiu	aquilo	que	minha	neta	sentiu.	Ela	falou,	em
meio	 às	 lágrimas:	 “Vovô,	 eu	 não	 consigo	 ver	 uma	 pessoa	 sofrendo	 sem
sofrer.	 Quando	 vejo	 uma	 pessoa	 sofrendo,	 o	 meu	 coração	 fica	 junto	 do
coração	dela...”	Ela	 e	o	menininho	 sentiram	compaixão.	 Seu	 coração	 ficou
junto	 do	 coração	 de	 alguém	 ou	 de	 algum	 bichinho	 que	 estava	 sofrendo.
Sofreram	um	sofrimento	que	não	era	seu.

Tenho	 estado	 a	me	 perguntar:	 Como	 ensinar	 a	 compaixão?	 Porque	 de
que	 vale	 conhecimento	 sem	 compaixão?	 Somente	 o	 conhecimento	 com
compaixão	 cria	 a	 bondade.	 E	 uma	 sociedade	 em	 que	 não	 existe	 bondade
não	 é	 digna	 de	 que	 vivamos	 nela.	 Como	 a	 nossa,	 em	 que	 a	 bondade	 foi
espremida	nos	cantos	e	as	ruas	se	encheram	de	medo.

Gandhi	relata	que	a	experiência	que	mudou	seu	coração	foi	a	leitura	de
um	livro.	Ele	era	ainda	adolescente.	O	livro	o	comoveu	tanto	que	ele	queria
ser	como	o	herói,	nobre	e	generoso.	Esse	sentimento	o	acompanhou	pelo
resto	da	vida.	Seu	coração	ficou	junto	do	coração	do	herói.	E	não	importava
que	o	herói	nunca	tivesse	existido,	que	fosse	apenas	ficção	literária.	Pois	é
isso	que	a	literatura	faz	–	ela	se	desprega	da	vida	real	para	dar-lhe	sentido.

Livros	engraçados	são	bons.	O	riso	tem	a	importante	função	de	mostrar
que	o	rei	está	nu.	Mas	não	conheço	nenhum	caso	de	uma	pessoa	que	tenha

sido	transformada	por	um	livro	engraçado.	O	riso	provoca	crítica,	mas	não
compaixão.

Pensei	 então	 que	 esta	 poderia	 ser	 uma	 das	 maneiras	 de	 ensinar
compaixão	–	lendo	para	o	aluno	ouvir.	Mas,	para	que	as	estórias	façam	seus
milagres,	é	preciso	que	o	ouvinte	seja	possuído	pelas	palavras	e	levado	ao
sabor	da	voz	de	quem	lê.

Fiquei	então	pensando	que	seria	melhor