A Queda de Atlantida, A Teia de trevas   Marion Zimmer Bradley

A Queda de Atlantida, A Teia de trevas Marion Zimmer Bradley


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a esta altura que sou o fim de todos os seus caminhos... deve saber disso agora, como eu sei há muito tempo. Irá comigo, Deoris?
 E ela se ouviu responder:
 Claro. Compreendeu no mesmo instante que a decisão já fora tomada há bastante tempo. Mas para onde vamos?
 Riveda contemplou-a em silêncio por um momento.
 À Cripta em que o Deus dorme.
 Deoris levou as mãos à garganta. Aquilo era um sacrilégio para uma Filha da Luz... ela sabia disso agora. E as conseqüências haviam sido terríveis na última vez em que acompanhara Riveda ao Templo Cinzento. Riveda, contudo ele assim dissera e Deoris acreditara não fora responsável pelo que acontecera então. Mas o que acontecera... ela fez um esforço para lembrar, porém estava tudo enevoado em sua mente. E balbuciou:
 Devo... ?
 Que todos os Deuses passados, presentes e futuros proíbam que eu a obrigue a qualquer coisa, Deoris.
 Se ele ordenasse, se suplicasse, se falasse alguma palavra de persuasão, Deoris teria fugido, mas diante de seu rosto silencioso e expectante ela não pôde deixar de sussurrar:
 Está bem.
 Pois então vamos.
 Riveda pôs a mão de leve em seu ombro e virou-se na direção da pirâmide.
 Esta noite eu a levei ao topo; agora, vou lhe mostrar as profundezas, que também constituem um Mistério. Ajeitou a mão sob o braço de Deoris, num contato quase impessoal. Tome cuidado com seus passos, pois o caminho é perigoso no escuro.
 Deoris foi andando ao seu lado, dócil; Riveda parou por um momento, virou-se para ela e deslocou o braço; ela, porém, tratou de recuar, em pânico.
 Então é assim? murmurou Riveda, a voz quase inaudível. Minha pergunta foi respondida antes mesmo de ser formulada.
 Como assim?
 Jura que não sabe? Riveda riu bruscamente, sem qualquer humor. Pois talvez descubra isso também, mas à sua escolha, sempre à sua escolha. Não se esqueça disso. O cume... e as profundezas. Você vai ver.
 E ele conduziu-a para o quadrado suspenso de escuridão.
 II
 Degraus incontáveis, intermináveis descendo e descendo pela escuridão. A tênue claridade filtrada não projetava sombras. Degraus de pedra, frios, tão cinzentos quanto a claridade; e os macios pés descalços de Deoris acompanhavam os ecos que ressoavam eternamente. Sua respiração soava como uma sibilância áspera e parecia se arrastar em seu encalço com os ecos. Ela forçou-se a continuar, uma das mãos estendidas para a parede... Havia a sensação de fuga, embora seus pés se recusassem a alterar o ritmo e os ecos tivessem uma insistência firme, como batimentos cardíacos.
 Outra volta; mais degraus. O cinzento os envolvia e Deoris estremeceu, com um calafrio que não vinha apenas do frio úmido. Deoris descia pela bruma cinzenta ao lado de Riveda, o medo de lugares fechados lhe apertando a garganta; o conhecimento do sacrilégio lhe afligia a mente.
 E continuou a descer, mais e mais, por eternidade de esforço angustiante.
 Os nervos clamavam para que Deoris corresse e corresse, mas a fria areia movediça a arrastava quase à imobilidade. Abruptamente, os degraus acabaram. Outra volta levou a uma câmara vasta, abobadada, com uma pálida iluminação cinzenta. Deoris foi avançando em passos tímidos pela catacumba e de repente estacou, paralisada.
 Ele não podia saber que o simulacro do Deus Adormecido se revelava a cada pessoa de uma maneira diferente. Sabia apenas de uma coisa: Há muito e muito tempo, além da curta memória da humanidade, a Luz triunfara e agora reinava suprema no Sol. Mas nos ciclos eternos do tempo e até os Sacerdotes da Luz o reconheciam o reinado do Sol devia terminar e a Luz emergiria de volta em Dyaus, o Deus Irrevelado, o Adormecido... e ele romperia os grilhões que o continham e reinaria numa vasta e caótica Noite.
 E foi com olhos tensos que Deoris contemplou, sentado sob o pássaro esculpido em pedra, a imagem do Homem com as Mãos Cruzadas...
 Ela sentiu vontade de gritar, mas os gritos lhe morreram na garganta. Avançou lentamente, as palavras de Riveda ressoando em sua mente; e diante da Imagem indefinida, ajoelhou-se em homenagem.
 III
 Deoris finalmente se levantou, gelada, com câimbras, para avistar Riveda parado perto, o capuz empurrado para trás da cabeça enorme, os cabelos prateados brilhando com uma auréola na tênue claridade. O rosto estava iluminado por um raro sorriso.
 Você tem coragem murmurou ele. Haverá outros testes, mas por enquanto é suficiente.
 Riveda foi se postar ao lado de Deoris, diante da grande Imagem, contemplando o que era para ele uma imagem erecta, sem rosto, formidável, implacável mas não terrível, um poder confinado, mas não manietado. Especulando como Deoris via o Avatar, ele pousou a mão de leve em seu pulso; num momento de Visão, teve um breve vislumbre em que o Deus parecia fluir, mudar, assumir por um instante o vulto de um homem tranqüilo, sentado com as mãos cruzadas sobre o peito. Riveda sacudiu a cabeça ligeiramente, num gesto de descartar. Apertando o pulso da jovem, conduziu-a por uma arcada para uma série de câmaras estranhamente decoradas, que iam desembocar na enorme Cripta.
 Aquele labirinto subterrâneo era um Mistério proibido para a maioria do pessoal do Templo. Até mesmo os membros da seita dos Túnicas Cinzentas, embora sua Ordem servisse e guardasse o Deus Irrevelado, só aparecia ali raramente.
 O próprio Riveda não conhecia a plena extensão daquelas cavernas. Nunca tentara explorar mais do que um pouco daquele incrível labirinto, que devia ter sido outrora um vasto templo subterrâneo, em uso cotidiano. Espalhava-se por baixo de toda a área do Templo da Luz; Riveda não podia imaginar quando ou por quem aquelas passagens e câmaras subterrâneas haviam sido construídas ou com que propósito.
 Havia o rumor de que a seita secreta dos Túnicas Negras usava aqueles recintos proibidos para suas práticas proibidas de bruxaria; embora Riveda muitas vezes desejasse procurá-los, capturá-los e julgá-los por seus crimes, não dispunha de tempo nem de recursos para explorar o labirinto mais do que apenas um pouco. Uma vez, na Noite do Nadir, quando alguém sem aprovação Túnicas Negras ou quaisquer outros tentava invocar os terríveis poderes de voz de trovão dos Lordes de Ahtarrath e dos Reinos do Mar, Riveda penetrara por aquelas cavernas; e ali, naquela noite fatídica, encontrara sete homens mortos, fulminados e murchos em suas túnicas negras, as mãos contraídas e enegrecidas pelo fogo, os rostos irreconhecíveis, os crânios carbonizados. Mas os mortos não podiam ser interrogados ou punidos; e quando tentara explorar ainda mais os labirintos do Templo subterrâneo, acabara se perdendo; levara horas a vaguear, exausto, para conseguir retornar àquele ponto. Não se atrevera a efetuar uma nova exploração. Não poderia fazê-lo sozinho e não havia ninguém em quem confiasse bastante para pedir ajuda. Talvez agora... mas ele interrompeu esse pensamento, recorrendo a anos de disciplina. O momento não chegara. E talvez jamais viesse.
 Ele levou Deoris para uma câmara próxima. Era parcamente decorada, num estilo inconcebivelmente antigo, iluminada por um dos lampiões que ardiam eternamente e cujo segredo ainda se esquivava aos Sacerdotes da Luz. Na claridade difusa e bruxuleante, móveis e paredes se apresentavam ornamentados por símbolos antigos e enigmáticos. Riveda sentiu-se grato porque a moça não podia lê-los. Ele próprio só descobrira o significado há pouco tempo, depois de muito empenho e estudo; e até mesmo sua compostura glacial fora abalada pela obscenidade do sentido.
 Sente-se aqui ao meu lado, Deoris.
 Ela obedeceu, como uma criança. Por trás deles o noviço surgiu como uma aparição e parou, os olhos vazios, sem ver. Riveda inclinou-se para a frente, pondo a cabeça nas mãos. Deoris fitou-o, um tanto curiosa, mas confiante.
 Deoris ele disse,