Contos de imaginacao e misterio Edgar Allan Poe

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Contos de imaginação e mistério

 EDGAR ALLAN POE

CONTOS

 DE IMAGINAÇÃO

 E MISTÉRIO

ILUSTRAÇÕES DE Harry Clarke

TRADUÇÃO DE Cássio de Arantes Leite

PREFÁCIO DE Charles Baudelaire

 

 Contos de imaginação e mistério

Copyright da tradução dos contos e do prefácio © 2012 Tordesilhas

 

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada ou reproduzida –em qualquer meio ou forma, seja mecânico ou eletrônico –, nem apropriada ou estocada em sistema de banco de dados, sem a expressa autorização da editora.

 

O texto deste livro foi fixado conforme o acordo ortográfico vigente no Brasil desde 1o de janeiro de 2009.

 

TÍTULO ORIGINAL  Tales of mystery and imagination

TRADUÇÃO E NOTAS DO PREFÁCIO  Daniel Abrão

REVISÃO  Beatriz de Freitas Moreira e Carmen T. S. Costa

CONVERSÃO PARA EPUB  Obliq Press

 

Ilustrações digitalizadas cedidas pela editora Libros del Zorro Rojo, Barcelona-Madrid, Espanha.

 

1a edição, 2012 / 3a reimpressão

 

ISBN 978-85-64406-48-3

 

2013

 Tordesilhas é um selo da Alaúde Editorial Ltda.

Rua Hildebrando Thomaz de Carvalho, 60

04012-120 – São Paulo – SP

www.tordesilhaslivros.com.br

 Contos de imaginação e mistério

SUMÁRIO

Prefácio

William Wilson

O poço e o pêndulo

Manuscrito encontrado numa garrafa

O gato preto

Os fatos do caso do sr. Valdemar

O coração denunciador

Uma descida no Maelström

O barril de amontillado

A máscara da Morte Vermelha

O enterro prematuro

O encontro marcado

Morella

Berenice

Ligeia

A queda da Casa de Usher

O colóquio de Monos e Una

Silêncio — Uma fábula

O escaravelho de ouro

Os assassinatos da Rue Morgue

O mistério de Marie Roget

O Rei Peste

Leonizando

Notas

Sobre o tradutor e o prefaciador

Referências bibliográficas

 

 Contos de imaginação e mistério

Prefácio

Outras anotações sobre Edgar Poe 1

I

Literatura da decadência! – Palavras sem sentido que frequentemente ouvimos cair, com o som enfático de um bocejo, da boca daquelas esfinges sem segredo que velam às santas portas da Estética clássica. Toda vez que o oráculo irrefutável ressoa, pode-se afirmar que se trata de uma obra mais interessante que a Ilíada. É o caso, evidentemente, de um poema ou de um romance no qual todas as partes são dispostas habilmente em prol da surpresa, no qual o estilo é ornado magnificamente, no qual todos os recursos da linguagem e da prosódia são utilizados por uma mão impecável. Quando ouço ecoar o anátema – que, seja dito de passagem, geralmente cai sobre algum poeta célebre – sou sempre tomado pela vontade de responder: “Acaso vocês me tomam por alguém tão bárbaro quanto vocês, e creem que eu seja capaz de me divertir de forma tão sofrível?” Comparações grotescas então se põem em funcionamento no meu cérebro; parece que fui apresentado a duas mulheres: uma matrona grosseira, repugnante do ponto de vista da saúde e da moral, sem postura, em suma, sem dever nada, a não ser à pura natureza; a outra, uma daquelas belezas que dominam e oprimem a lembrança, unindo a eloquência de sua elegância ao seu charme profundo e original, senhora de si, consciente e rainha da própria pessoa – uma voz que soa como se um instrumento bem afinado estivesse falando, e olhares que não transmitem senão o que querem. Minha escolha não poderia ser mais simples; no entanto, há esfinges pedagógicas que me repreenderiam por faltar à honra clássica. Mas, para deixar as parábolas de lado, acredito que posso perguntar a esses homens sábios se eles entendem toda a vaidade, toda a inutilidade de sua sabedoria. Dizer literatura da decadência implica a existência de uma escala de literaturas, uma recém-nascida, outra pueril, uma adolescente, etc. Esse termo, quero dizer, pressupõe algo de fatal e de providencial, como um decreto inevitável; e é extremamente injusto nos criticarem por cumprir a lei misteriosa. Tudo o que consigo entender do discurso acadêmico é ser vergonhoso obedecer a essa lei de bom grado e sermos culpados por nos regozijarmos com nosso destino. Esse sol que, há poucas horas, dominava tudo com luz direta e branca, em breve irá encharcar o horizonte ocidental com várias cores. Nos jogos desse sol agonizante, certos espíritos poéticos encontrarão novos prazeres; eles descobrirão uma fileira de colunas deslumbrantes, cascatas de metal fundido, galerias de fogo, um esplendor triste, a volúpia da saudade, todos os encantos do sonho, todas as lembranças do ópio. E o pôr do sol lhes parecerá de fato como a maravilhosa alegoria de uma alma carregada de vida que vai para trás do horizonte com uma enorme provisão de pensamentos e sonhos.

Mas o que os professores não pensaram é que, no movimento da vida, tal complicação, tal combinação pode se apresentar completamente inesperada por sua sabedoria escolar. Então sua língua minguada se encontra em falta, como no caso – fenômeno que se multiplicará com prováveis variantes – no qual uma nação começa pela decadência e estreia onde as outras terminam.

Que entre as imensas colônias do presente século se façam novas literaturas produzirá, sem dúvida alguma, acidentes espirituais de uma natureza desconcertante para o espírito da escola. Jovem e velha ao mesmo tempo, a América fala pelos cotovelos e caduca com uma volubilidade espantosa. Quem seria capaz de contar seus poetas? São inumeráveis. Suas bluestockings2? Elas enchem os jornais. Seus críticos? Acredite, a América possui pedantes como os nossos para chamar o artista o tempo todo de volta à beleza antiga, para questionar um poeta ou romancista sobre a moralidade do seu objetivo e a qualidade das suas intenções. O que é comum aqui é ainda mais comum lá, literaturas que não sabem sequer a ortografia; uma atividade pueril inútil; um sem-número de compiladores; gente que se repete o tempo todo; plagiários de plágios e críticos de críticos. Nesse caldeirão de mediocridades, nesse mundo que adora aperfeiçoamentos materiais – escândalo de um gênero novo que permite compreender a grandeza dos povos preguiçosos –, nessa sociedade ávida por assombramento, apaixonada pela vida, mas, sobretudo, por uma vida cheia de excitações, um homem foi grande não apenas por sua sutileza metafísica, pela beleza sinistra ou encantadora do que concebeu, pelo rigor de suas análises, mas também foi grande como caricatura. É preciso que eu me explique com alguma inquietação, pois recentemente um crítico imprudente se servia, para denegrir Edgar Poe e contestar a sinceridade da minha admiração, da palavra malabarista, que eu mesmo havia empregado quase como um elogio ao nobre poeta.

Do seio de um mundo esfomeado por materialidades, Poe se jogou no sonho. Sufocado como estava pela atmosfera americana, escreveu na dedicatória de Eureka: “Ofereço este livro àqueles que puseram fé no sonho como única realidade!” Foi, portanto, um protesto admirável, que ele fez à sua maneira, in his own way. O autor que, n'O colóquio de Monos e Una, deixa abundante o desprezo e o desgosto pela democracia, pelo progresso e pela civilização é o mesmo autor que, para capturar a credulidade e satisfazer a curiosidade dos seus, reconheceu com mais vigor a soberania humana e fabricou com mais engenho os factoides mais lisonjeiros ao orgulho do homem moderno. Hoje, Poe me parece um hilota3 que pretende fazer seu mestre corar. Por fim, afirmando minhas ideias de modo ainda mais claro, Poe foi sempre grande, não apenas pelas concepções nobres, mas também pelas farsas.

II

Pois ele nunca foi ludibriado! Não acredito que o virginiano, que escreveu tranquilamente em plena explosão democrática “O povo não tem relação alguma com as leis, a não ser a obediência”, jamais tenha sido vítima da sabedoria moderna; e “O nariz da ralé é a imaginação; é pelo nariz que sempre se poderá guiá-la com facilidade” e tantas outras passagens nas