Revista Trasgo Edicao 04 Revista Trasgo

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 Arca dos Sonhos

 Arca dos Sonhos

 Fred Oliveira

 Além deste lugar de ira e prantos

 Surge apenas a sombra em seu Horror

 E ainda a ameaça dos anos

 Encontra, e há de encontrar-me, sem temor

 Não importa o quanto o portal seja restrito

 Que ao pergaminho punição não falta

 Eu sou o mestre de meu destino

 Eu sou o capitão de minha alma.

 William Ernest Henley – Invencível

 (Tradução do autor)

 O Capitão repousava sobre a Poltrona e, através dela, alcançava o espaço exterior, tocando o infinito. Ao seu redor, a Arca singrava as ondas gravitacionais de estrelas e buracos negros, cruzando nebulosas incandescentes e cinturões de asteroides gelados. Poeira estelar e meteoritos chocavam-se contra o casco da gigantesca espaçonave, e o Capitão sentia sua pele formigar com esse contato, como se o próprio universo acariciasse sua face. Com um pensamento, corrigiu a rota milímetros para a esquerda e para baixo, embora nem isso nem aquilo parecessem fazer sentido ali. Centenas de anos no futuro, os milímetros se transformariam em milhares de quilômetros. Milhares de anos no futuro, se tornariam anos-luz. E a Arca permaneceria em sua jornada até o Fluxo Escuro, nos limites da realidade observável, rumo ao desconhecido. Quando descoberto, os cientistas se dividiram; uns especularam que o Fluxo seria uma megaestrutura sobrevivente à Grande Explosão do início de tudo, um objeto de massa infinita e propósito incompreensível. Outros teorizaram que poderia ser a afluência de um outro universo, forçando sua entrada, sua existência, suas leis e caprichos em uma realidade espaço-temporal que não lhe pertencia. Os sacerdotes foram categóricos: aquele era o Palácio do Criador, lugar de origem, de onde fluía tudo o que era, que é e o que será. Gerações nasceram, viveram e pereceram durante a construção da Arca, o impossível tornado possível por mãos mortais. A espaçonave foi tripulada não apenas pelos mais capazes, mas por todos aqueles que sentiam que o Fluxo era tanto berço quanto mausoléu, alfa e ômega de suas existências, a resposta final para enigmas que sequer poderiam ser imaginados. E assim, eles embarcaram, às centenas de milhares, encerrados em um sono tão profundo quanto o abismo negro que ameaçava engolir a Arca. Todos, menos o Capitão.

 Era seu trabalho guardar a espaçonave e seus ocupantes, pelo tempo que lhe fosse proporcionado e exigido, até que nem mesmo a Poltrona pudesse mais estender a sua vida, muito depois de a morte haver se tornado não apenas uma companheira constante, mas uma amiga saudosa e uma amante desejada. O Capitão e a Arca eram um, sinapses disparando eletricidade entre si, despertando sistemas e subsistemas, o zumbir de máquinas acompanhando o ritmo de um coração cada vez mais vacilante. Mas o tempo ainda não havia chegado. Enquanto isso, a radiação de uma estrela azul gigante, maior do que muitos sistemas solares, banhava a fuselagem da Arca, aquecendo a pele encarquilhada do Comandante e fazendo-o semicerrar os olhos presbiópicos contra a claridade, polarizando as janelas cristalinas da espaçonave e tornando-as quase opacas. Mais à frente, um conjunto de pulsares rodopiava sobre si mesmo, seu brilho estroboscópico piscando em uma frequência semi-hipnótica. Perto dali, um buraco negro expelia vapor d’água, formando uma nuvem aquosa suspensa no espaço, cem mil vezes maior do que uma estrela anã vermelha. Ao atravessá-la, o Capitão sentiu as gotas se espalhando de proa à popa, um frescor tal como apenas em sua infância, incontáveis vidas atrás, havia experimentado, ao brincar sob a chuva de mãos dadas com seus irmãos e irmãs. A lembrança cálida quase o fez ignorar o perigo que se avizinhava. Os sensores de longo alcance lhe trouxeram formas e sons, intenções e atos. Milhares de quilômetros à frente, navegando o imensurável oceano vaporizado, uma nau capitânia propunha desafio.

 O Capitão suspirou, lançando uma onda de alerta que era como um arrepio correndo pela estrutura da espaçonave e acionando sistemas de defesa até então adormecidos. O último combate havia ocorrido talvez uma dezena de anos atrás, dentro de sua perspectiva; há centenas de anos para o resto do universo, velocidades relativísticas sobrepondo-se aos efeitos dos poços gravitacionais que pontuavam a jornada e garantiam o impulso perpétuo da Arca. Há muito a notícia do grande atrevimento humano havia se espalhado pelas redes quânticas de informação através das galáxias, imediatamente alcançando culturas tão diversas quanto suas reações àquela ideia nova e, portanto, perigosa. Uns haviam manifestado sua simpatia à causa, enquanto outros se mostraram cautelosos. O sentimento mais disseminado era um temor supersticioso, seguido de indignação histérica e ódio xenofóbico, um horror virulento pela Arca, seus ocupantes e tudo aquilo que eles representavam. E assim começaram os ataques. Raças avançadas e próximas caçaram o Capitão e sua embarcação pelo éter negro do espaço, uma agulha em um palheiro cósmico. Civilizações atrasadas e longínquas aguardaram a consumação de centúrias sobre centúrias, certos de que um dia a Arca passaria por sua vizinhança e que eles já teriam, então, alcançado um nível tecnológico suficiente para fazer frente à empreitada. Todas haviam falhado e as cicatrizes sobre a pele apergaminhada do Capitão eram um reflexo da couraça dilacerada que envolvia a Arca. Marcada, porém ainda íntegra, ela seguia rumo ao seu destino, encontrando mais um oponente em seu caminho.

 A nau inimiga se aproximava, uma silhueta cada vez mais nítida e volumosa, agigantando-se em um mar de ondas estáticas. O Capitão rangeu os dentes que lhe restavam e cerrou os punhos esquálidos, conclamando seus guerreiros para a luta, todas as centenas de milhares de mentes que hibernavam por toda a Arca. Cada um dos seus passageiros emprestava o seu intelecto para a defesa do seu lar e seu objetivo final, corpos em animação suspensa, enquanto seus inconscientes assumiam o controle individual das naves que se lançariam contra a ameaça alienígena. Os hangares se abriram, de bombordo a estibordo, liberando seus ocupantes em direção à batalha; encouraçados se destacavam da fuselagem da Arca, cada um deles monumental em tamanho e ainda assim pigmeus ao lado de sua nave mãe; fragatas corriam à frente, preparando uma barreira de fogo para receber os adversários que se aproximavam; torpedeiros e contratorpedeiros deslizavam lado a lado, como irmãos; enxames de caças formavam nuvens escuras, que ondulavam pela batalha, ora aqui, ora ali, ferroando os desafiantes maiores e perseguindo os menores. O campo de duelo era um caos silente, explosões mudas anunciando a queda dos combatentes enquanto a Arca e seu desafiante se aproximavam mais e mais. Canhões cognitivos buscavam alvos a todo o momento, formando uma barragem cinética que destroçava tudo aquilo que fosse tolo o suficiente para se aproximar demais, os olhos do Capitão movendo-se freneticamente nas órbitas, dirigindo cada disparo. E toda baixa era um novo golpe, como se um pedaço fosse arrancado do já frágil corpo. Uma nave abatida, uma consciência perdida para