O termo per vertio
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O termo per vertio


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Perversão 
UC INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE 
CRISTINA SANTOS 7474 
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O termo per vertio, derivado de per vertere, remete à noção de \u201cpôr de lado\u201d, ou 
\u201cpôr-se à parte\u201d. \u201cPerverter\u201d deriva do latim pervertere (perverter), que corresponde o ato 
ou efeito de perverter, tornar-se perverso, corromper, desmoralizar, depravar, alterar 
(Perversão, 2017). Então, o termo \u201cperversão\u201d inicialmente era empregado para designar 
as práticas sexuais consideradas como desvios em relação a uma norma social e sexual. 
Embora também fossem valorizadas, nomeadamente, por artistas, estas práticas eram 
vistas, predominantemente de forma pejorativa (Roudinesco & Plon, 1998). A 
sexualidade era vista somente como modo de reprodução, portanto, toda manifestação 
sexual que não tivesse o objetivo de reprodução, era vista como patológica (já que não 
teria como objectivo a procriação e a preservação da espécie) ou como aberrações que 
deveriam ser tratadas (Sequeira, 2009). Existem diversas teorias do séc.XIX que procuram 
entender a etiologia das perversões. Defendem a sua natureza congénita e degenerativa, 
restrições do meio ambiente que influenciam o comportamento ou o desenvolvimento do 
comportamento,\u2026 (Valas, 1990) No momento em que Freud elabora sua teoria da libido 
com base na anamnese psicanalítica de pacientes adultos, já existe bastante material 
empírico e conceitual que vai servir de base à teoria das perversões (Valas, 1990). O termo 
é incluído na teoria psicanalitica por Freud conservando a ideia de desvio sexual em 
relação a uma norma, mas desprovido de qualquer conotação pejorativa ou valorizadora 
e inscreve-se, juntamente com a psicose e a neurose, numa estrutura tripartida 
(Roudinesco & Plon, 1998). 
 Nos \u201cTrês Ensaios Sobre A Teoria Da Sexualidade\u201d (Freud, 1905b), defende a 
existência de vida sexual na infância e de instintos sexuais, cujas manifestações são frequentes 
e tão variadas, que a conceptualiza como polimorficamente perversa. O desenvolvimento 
sexual infantil é difásico, em duas fases: fase pré-genital, distingue-se pela natureza infantil dos 
alvos sexuais e é posta em suspenso pelo período de latência ou levada a uma regressão; fase 
genital que se inicia com a puberdade e determina a configuração definitiva da vida sexual 
(Freud, 1905b).Os estádios oral, anal e fálico, que constituem a fase pré-genital, são marcadas 
pela perversão, já que o objetivo final da procriação ainda falha à criança e os instintos ainda 
são parciais. A fase oral baseia-se no chuchar, garantia de sobrevivência, e como fonte de prazer 
(rubor nas faces do bebé após a amamentação) é uma actividade libidinal precoce, cujas zonas 
erógenas correspondentes são a boca, os lábios, língua, garganta, ligados à experiência dos 
prazeres sensuais da sucção, alimentação, fonação, ingestão e, mais tarde a morder e cuspir 
(Pajaczkowska, 2010). Este prazer na zona bocal é a primeira manifestação de sexualidade, em 
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que o seio materno é o primeiro objeto do instinto sexual. Como este nem sempre está 
disponível, o bebé substitui-o e chucha no dedo, sentido a satisfação com o seu próprio corpo 
\u2013 auto-erotismo (Haar, 1979). Como características da atividade sexual infantil destaca-se que 
esta: apoia-se numa função fisiológica essencial à necessidade; é auto-erótica - a criança não 
conhece objeto sexual e satisfaz-se com o próprio corpo; o objetivo é determinado pela 
atividade da zona erógena correspondente à pulsão parcial, na procura de uma satisfação que 
lhe seja apropriada e que repita um modo de satisfação já obtido anteriormente. O despertar das 
zonas erógenas para o prazer está ligado a múltiplas atividades, pelas quais se expressam as 
primeiras manifestações sexuais na criança: prazer de sugar, prazer de reter a matéria fecal, 
prazer obtido com a micção e a masturbação. A zona erógena, de onde provém a pulsão parcial, 
comporta-se como um aparelho sexual (Freud, 1905b; Valas, 1990). Assim, a disposição às 
derivações possíveis no desenvolvimento da sexualidade estaria inscrita no próprio núcleo do 
funcionamento das pulsões parciais, o que fará da perversão uma característica humana e 
universal. As pulsões sexuais formariam pares antagónicos, onde se exprimiriam tendências 
contrárias. Por exemplo: ver e mostrar nos voyeurs e exibicionistas; fazer sofrer do sadismo ou 
sofrer do masoquismo na pulsão agressiva. É a intensidade desta ou daquela pulsão, 
independente do grau de desenvolvimento das outras, que dá a forma às perversões passivas 
(psiconeuroses) ou ativas (perversões verdadeiras). Freud compara as crianças e estas 
manifestações ao comportamento das prostitutas que, em consequência de uma sedução, se 
tornam perverso-polimorfas e podem ser levadas a todo o tipo de transgressões. (Freud, 1905b; 
Valas, 1990). A atividade sexual infantil constitui a matriz original da sexualidade adulta e 
determina o rumo da vida sexual. é a partir dessa pré-história, constituída pela sexualidade 
infantil que cede ao recalcamento, que vai se edificar a sexualidade do adulto(Freud, 1905a) 
Segue-se o período de latência. A amnésia infantil apaga os seis ou oito primeiros anos de vida, 
a sexualidade infantil com disposição perverso-polimorfa cede ao recalcamento, devido a 
particularidades individuais e à educação, e erguem-se obstáculos ao instinto sexual, tais como 
a repulsa, a vergonha, a exigência de um ideal estético e moral. O fluxo das pulsões não é 
estancado, mas desviado (sublimado) na direção de outros objetivos que não sexuais. Assim, 
a sexualidade infantil não consegue obter plena satisfação sexual, e por isso a excitação repetida 
das zonas erógenas poderia, depois de algum tempo, produzir desprazer. Essas excitações 
sexuais fariam entrar em cena forças mentais contrárias (impulsos reativos), que para poderem 
reprimir eficazmente essas sensações desagradáveis, ergueriam os obstáculos mentais já 
mencionados (repulsa, a vergonha, e a moral). O período de latência é, pois, essa fase 
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necessária e preparatória para a expansão da sexualidade, cujo movimento vai ressurgir na 
puberdade(Freud, 1905b; Valas, 1990) 
Iniciam-se as transformações que deverão conduzir a vida sexual infantil à sua final 
constituição normal. Para além da maturação do corpo, surge um novo alvo para que todos os 
instintos se conjugam para alcançar, redescobre-se o objeto (protótipo da relação original com 
a mãe) e as zonas erógenas (e, consequentemente, a polaridade perversa) sujeitam-se à primazia 
da zona genital. Estas transformações de ordem fisiológica (maturação do corpo), às quais se 
conjugam as forças e inibições mentais que foram reforçadas no período de latência (repulsa, 
moral, vergonha), constituem o processo pelo qual toda a vida sexual entra a serviço da 
reprodução, e a satisfação dos instintos parciais só tem importância na medida em que prepara 
e favorece o verdadeiro ato sexual. Ainda que a evolução sexual seja divergente no homem e 
na mulher, um novo objetivo sexual, para além do fim de obter prazer, está a partir de então 
fixado no sentido da reprodução da espécie(Freud, 1905b; Valas, 1990) . 
O fator determinante dessa nova orientação está ligado à descoberta do objeto sexual e 
o caráter normal da vida sexual é assegurado pela conjunção, em direção ao objeto e ao fim 
sexuais, de duas correntes: a afetuosa (resulta do que restou do primeiro desabrochar da 
sexualidade infantil) e a sensual É no final desse ciclo evolutivo que a vida sexual do adulto 
encontrará a sua forma definitiva, que será marcada por traços que terão singularizado o curso 
dessa evolução. Comparando o prazer preliminar, ligado aos objetivos preliminares (os únicos 
aos quais as pulsões