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METODOLOGIA DA PESQUISA EM ESTUDOS LITERÁRIOS

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bem como do meio receptor; es-
tudo escrupuloso dos livros, dos jornais, das revistas; atenção 
constante à cronologia; na exposição das conclusões, prudente 
distinção entre influência e sucesso e entre os diferentes tipos 
de influência.
O comparatista, ou pesquisador em literatura comparada, é também con-
siderado por Coutinho e Carvalhal (2011, p. 108) como um “historiador 
das literaturas”, ou seja, um profundo conhecedor da cultura histórica para 
contextualizar os textos literários a que se propõe estudar. Ele também deve 
ser um “historiador das relações literárias”, fazer correspondências às litera-
turas de diversos países, perceber os pontos de contato e construir relações 
dialógicas de aprendizado, sobretudo o comparatista deve ser estudioso de 
línguas e se possibilitar à leitura e à pesquisa, numa postura crítica e orga-
nizada: 
O comparatista se encontra nas fronteiras, linguísticas ou 
nacionais, e acompanha as mudanças de temas, de ideias, de 
livros ou de sentimentos entre duas ou mais literaturas. Seu 
método de trabalho deve-se adaptar à diversidade de suas pes-
quisas. (COUTINHO; CARVALHAL, 2011, p. 108).
Entendemos que, conforme Carvalhal (2006, p. 8):
[...] a literatura comparada compara não pelo procedimento 
em si, mas porque, como recurso analítico e interpretativo, a 
comparação possibilita a esse tipo de estudo literário uma ex-
ploração adequada de seus campos de trabalho e o alcance dos 
objetivos a que se propõe. 
Conforme a obra Artigos científicos, organizada por Pereira (2011, p. 58), 
o método “[...] representa o caminho para se chegar a um fim [...] compre-
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ende o material e os procedimentos adotados na pesquisa de modo a poder 
responder à questão central da investigação”. O método de uma pesquisa 
caracteriza-se pelos procedimentos que os compõe. É o passo a passo, uma 
espécie de receita que orienta o pesquisador nos caminhos que ele deve per-
correr. 
Morin (2005), ao tratar de teoria e método em sua obra Ciência com cons-
ciência, explica que teoria e conhecimento não são sinônimos, mas que a 
primeira permite o segundo, atuando não como solução, e sim possiblidade 
de tratar um dado problema. Em outros termos, a teoria faz sentido numa 
pesquisa, se atrelada ao método. Esse último é gerado pela teoria e possui 
capacidade de reatualizá-la:
O método é a práxis fenomenal, subjetiva, concreta, que pre-
cisa da geratividade paradigmática/teórica, mas que, por sua 
vez, regenera esta geratividade. Assim, a teoria não é o fim do 
conhecimento, mas um meio-fim inscrito em permanente re-
corrência. [...] toda teoria dotada de alguma complexidade só 
pode conservar sua complexidade à custa de uma recriação 
intelectual permanente. (MORIN, 2005, p. 335-336). 
O método em sua dinamicidade reorganiza a teoria e a revitaliza. A teoria 
ganha mais força e consistência ao ser escolhida por um método eficiente. 
O método, assim, é esse conjunto complexo de pensar a teoria e de levá-la à 
práxis, à ação. É refletir com consciência sobre os seus modos de investiga-
ção e de aplicação, por meio de um leque de possibilidades, que resultarão 
em produção científica. 
Para uma pesquisa em literatura comparada, indicamos tais caminhos a 
serem seguidos: 1. leituras: história e teoria; 2. definição da linha de pesqui-
sa a ser estudada e relacionada ao trabalho; 3. seleção de conceitos funda-
mentais de literatura comparada que se relacionem à pesquisa e 4. método 
aplicável à pesquisa.
Coutinho e Carvalhal (2011, p. 113-114) apresentam três aspectos meto-
dológicos que os comparatistas devem utilizar em suas pesquisas: 1. definir 
o gênero [...]; 2. tirar a prova do empréstimo [...], e 3. apreciar a ação recí-
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proca do gênero e do autor. O primeiro solicita a definição do gênero a ser 
estudado, ou poesia ou prosa; o segundo indica que o empréstimo pode ser 
direto ou indireto e o terceiro permite que o pesquisador estude o destino de 
determinado gênero e de seu autor, ou seja, os motivos dos quais um autor 
definiu o gênero de sua obra e as relações que eles estabelecem entre si. 
Citamos a título de exemplificação, uma pesquisa que escolha como ob-
jeto literário a obra Fogo Morto, de Rego (2010), tendo-se o reconhecimento 
da necessidade de investigação ao longo da pesquisa dos seguintes aspec-
tos: 1) escolha do método comparativista literário, de natureza intertextual, 
transdisciplinar e cultural, pautando-se no âmbito dialógico interrelacional 
entre Literatura e História e Literatura Comparada e Teoria Literária; 2) es-
tudo da obra: Fogo Morto, enquanto objeto literário e obras históricas que 
contextualizam suas questões históricas, sociais, políticas e culturais; 3) te-
mática: a loucura, na Literatura Brasileira da obra Fogo Morto e na Literatura 
Espanhola d’O Engenhoso Dom Quixote de La Mancha (Volumes I e II), de 
Cervantes (2012; 2016) para tratar do tipo de loucura enfatizado, a loucura 
quixotesca; 4) movimentos: Brasil-Colônia – decadência do ciclo da cana de 
açúcar no nordeste, enquanto fato histórico e Fase Modernista (1930-45), 
enquanto fato literário, e 5) personagem: Vitorino Carneiro da Cunha, como 
personagem literária, e 6) gênero literário: Prosa - Romance Regionalista. 
4.3 Considerações finais
A literatura comparada permite-nos balizar diferentes épocas, persona-
gens, autores, obras, críticas, numa postura crítica e organizada, possibili-
tando-nos entrar em contato com a criação literária e levando-nos, dessa 
forma, ao reconhecimento e estudo do humano ali representado. Este es-
tudo sobre história, teoria e método da literatura comparada permitiu-nos 
obter a consciência da amplitude múltipla da pesquisa comparada, a qual 
permite o estudo sistemático e crítico de diversas pesquisas, que encontram 
em suas vertentes comparatistas escopo necessário e várias possibilidades. 
Conforme Soares (2015, p. 56), acreditamos que: 
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[...] as maiores contribuições do comparatismo são: primei-
ramente, a luta pela interdisciplinaridade, pelo estudo das 
relações entre a literatura e as outras artes e também entre a 
literatura e os outros saberes, considerando aqui a literatura 
simultaneamente como arte e como saber; e, além disso, a luta 
pela independência cultural. 
Constatamos, por meio das leituras realizadas, que a literatura compa-
rada há muito vem se transformando e abrigando novos argumentos que 
a levam a uma compreensão ilimitada e cambiante a respeito do que ela 
consiste ser:
Criadas em épocas diferentes, por motivos distintos, com 
objetivos diferenciados e a partir de contextos específicos, as 
teorias das literaturas comparadas dos diferentes países aca-
baram dialogando entre si: umas tutelando as outras, algumas 
questionando as outras, algumas avançando alguns aspectos 
de outras, umas procurando libertar-se das categorias das 
outras, buscando seu próprio discurso crítico, de modo que 
este fluir ziguezagueante de todas estas teorias faz da litera-
tura comparada um objeto escorregadio. Isso permitiu que, 
até agora, nunca envelhecesse a pergunta: O que é Literatura 
Comparada? A resposta a tal pergunta, certamente, continuará 
escapando a afirmações seguras e definitivas, modificando-se 
de acordo com o tempo, o espaço e a ordem vigente na relação 
entre os vários países do mundo, e, também, de acordo com a 
circulação das novas teorias literárias, mas demandará sempre, 
para a compreensão de sua configuração momentânea, que se 
revisite sua história, tanto no plano internacional, quanto no 
local. (NITRINI, 2015, p. 291). 
Morin (2005, p. 339-340) orienta que o pesquisador adote para si e o seu 
fazer científico uma maneira complexa de pensar, agir e ser. Desse modo, 
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entendemos que a literatura como campo de pesquisa científico não é pura, 
pois como produção científica e como arte, relaciona-se multidisciplinar-
mente às demais

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