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METODOLOGIA DA PESQUISA EM ESTUDOS LITERÁRIOS

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no Fantástico;
Funções do Fantástico.
5.3.1 Definindo o fantástico
Todorov, como vimos, foi o primeiro autor a sistematizar uma estrutura 
que pudesse definir e diferenciar essa literatura como um gênero específico 
de todas as outras. Em sua obra Introdução à Literatura Fantástica, o fantás-
tico é definido pela dúvida, ou seja, “[...] o fantástico é a hesitação experi-
mentada por um ser que só conhece as leis naturais, face a um acontecimen-
to aparentemente sobrenatural” (TODOROV, 2012, p. 31, grifo nosso), o 
fantástico vive dessa incerteza.
Em Literatura fantástica: caminhos teóricos, Camarani (2014, p. 15) afir-
ma que: 
[...] o fantástico deve aparecer ligado à representação do real, 
pois é justamente o desequilíbrio ou a perturbação das leis re-
conhecidas que determina essa modalidade literária. Daí o real 
ser imprescindível para a compreensão do fantástico. 
E ainda:
A narrativa fantástica caracteriza-se ao mesmo tempo pela 
aliança e pela oposição que estabelece entre as ordens do real 
e do sobrenatural, promovendo a ambiguidade, a incerteza no 
que se refere à manifestação dos fenômenos estranhos, insóli-
tos, mágicos, sobrenaturais. (CAMARANI, 2014, p. 7).
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Observamos que o conceito de fantástico se define, pois, com relação ao 
de real. Mas o que seria o real?
Ainda na definição do que é o fantástico de Todorov (2012, p. 30, grifo 
nosso), podemos descobrir; “Num mundo que é exatamente o nosso, aquele 
que conhecemos, sem diabos, sílfides nem vampiros, produz-se um aconteci-
mento que não pode ser explicado pelas leis deste mesmo mundo familiar”.
Fica claro, ao observar os fragmentos que destacamos, que o próprio te-
órico define o que seria em seu entendimento a definição do que é “real”. O 
“mundo que é exatamente o nosso”, “aquele que conhecemos”, ou seja, nosso 
lugar natural, científico, sem seres sobrenaturais, com leis da natureza. É 
partindo desse entendimento de real que podemos verificar o que é o fan-
tástico.
Como já foi colocado anteriormente, o fantástico é a hesitação, a dúvida, 
a perplexidade saboreada por um ser que só conhece as leis do nosso mundo 
familiar, em choque com um acontecimento aparentemente sobrenatural. 
E esse sobrenatural é entendido como um acontecimento que rompe com 
o mundo real, é aquele que não pode ser explicado pelas leis deste mundo. 
Dessa forma, a literatura fantástica é definida por esse atributo de violação 
ao real. Se o sobrenatural não entrar em choque com o contexto, com o am-
biente da narrativa, não estamos no fantástico.
Temos assim:
 Figura 1 - Definindo o Fantástico
 
 Fonte: As autoras (2017).
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 Na Figura 1, temos o acontecimento aparentemente sobrenatural que 
se choca com o mundo real, natural, científico, e desse abalo surge o 
questionamento: seria essa ocorrência natural ou sobrenatural?
5.3.2 Fantástico puro
Diante de uma narração com elementos sobrenaturais, Todorov (2012) 
diz que o fantástico nasce da inquietação do leitor perante acontecimentos 
inexplicáveis pelas leis reais da natureza. Ele afirma em Introdução à litera-
tura fantástica que “Há um fenômeno estranho que se pode explicar de duas 
maneiras, por meio de causas de tipo natural e sobrenatural. A possibilidade 
de se hesitar entre os dois criou o efeito fantástico.” (TODOROV, 2012, p. 
31).
O autor ainda completa:
Num mundo que é exatamente o nosso, aquele que conhece-
mos, sem diabos, sílfides nem vampiros, produz-se um acon-
tecimento que não pode ser explicado pelas leis deste mundo 
familiar. Aquele que o percebe deve optar por uma das duas 
soluções possíveis; ou se trata de uma ilusão dos sentidos, de 
um produto da imaginação e nesse caso as leis do mundo con-
tinuam a ser o que são; ou então o acontecimento realmente 
ocorreu, é parte integrante da realidade, mas nesse caso esta 
realidade é regida por leis desconhecidas para nós. Ou o diabo 
é uma ilusão, um ser imaginário; ou então existe realmente, 
exatamente como os outros seres vivos: com a ressalva de que 
raramente o encontramos. (TODOROV, 2012, p. 30).
Essa dúvida do leitor deve ir até o fim da narração, se de fato aquilo que 
lê é ou não o que aparenta ser: “O fantástico corre na incerteza; ao escolher 
uma ou outra resposta, deixa-se o fantástico entrar num gênero vizinho, o 
estranho e o maravilhoso.” (TODOROV, 2012, p. 31). Se de fato a história 
terminar sem nenhuma explicação, nos mantemos no fantástico, mas se no 
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final da narração ela nos conceder uma explicação, caímos em um dos gê-
neros muito próximos ao fantástico: o estranho ou o maravilhoso. Observa-
mos:
 Figura 2 - Gêneros próximos ao Fantástico
 Fonte: As autoras (2017).
O fantástico que se inicia no puro, como observamos na Figura 2. O fan-
tástico nasce na dúvida e qualquer explicação pode levá-lo a desvanecer. 
Para Todorov (2012, p. 36), a fórmula que resume o fantástico é: “Cheguei 
quase a acreditar [...] A fé absoluta como a incredulidade total nos levam 
para fora do fantástico; é a hesitação que lhe dá vida”. No momento exato em 
que essa dúvida é resolvida, não temos mais o fantástico, acabamos passan-
do para outros arredores.
Para entender didaticamente, criamos uma estória que resume o cami-
nho do fantástico:
Era mais um dia quente em Manaus, e apesar de estar doente e 
ter tomado muitos remédios para alergia, eu precisava chegar 
à universidade para mais uma apresentação.
Logo que desci do ônibus e percorri as passagens, percebi algo 
muito estranho; as salas de aula estavam vazias, muitas luzes 
estavam apagadas e não havia ninguém andando nos corre-
dores. Intrigada, comecei a andar devagar e foi quando pensei 
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estar escutando vozes, sussurros vindos de todas as direções. 
Assustada, corri o mais rápido que pude até a minha sala que 
estava vazia como todas as outras. Será que hoje não teria aula 
e ninguém me avisou? Foi quando os murmúrios ficaram mais 
altos e percebi que as árvores estavam falando! Será que eu 
estava ficando louca?! Aterrorizada, corri de volta e entrei no 
primeiro ônibus. Só voltei uma semana depois sem saber se 
estava delirando com a ajuda dos remédios ou não. Tudo pa-
recia tão real!
Nada parecido me aconteceu de novo! (AS AUTORAS, 2017)2.
O primeiro ponto a ser observado na estória é o ambiente em que tudo 
ocorre: “mais um dia quente em Manaus”, “universidade”, “salas de aula”. Ne-
nhum desses lugares é difícil imaginar. Todos eles pertencem ao mundo co-
mum em que vivemos. O ambiente da narrativa precisa ser semelhante com 
aquele em que vive o leitor, para que ele se identifique prontamente.
É nesse lugar comum que algo estranho começa a acontecer: “salas de 
aula estavam vazias”, “ninguém andando nos corredores”, “luzes estavam 
apagadas”, porém, ainda no possível do mundo real. O segundo ponto a ser 
analisado aqui é a infiltração do aparente acontecimento sobrenatural na 
narrativa da personagem comum: “foi quando pensei estar escutando vozes, 
sussurros vindos de todas as direções”. É nesse lugar conhecido pelo leitor 
que aparece o sobrenatural, causando um choque, fazendo com que o leitor 
duvide da realidade.
A terceira circunstância a ser verificada é a uma das mais importantes 
para causar o efeito fantástico: a hesitação da personagem.
Desde o começo da narração, observamos a protagonista dar vestígios de 
uma provável falta de crença nos acontecimentos e mostrar esses leves sinais 
para o leitor. Ela diz no início da trama “apesar de estar doente e ter tomado 
muitos remédios para alergia”, o início da dúvida que logo se transforma 
em “pensei estar escutando vozes, sussurros vindos de todas as direções”, o 
2 Texto elaborado pelas autoras para exemplificação, em 2017.
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fato da personagem não afirmar se existe ou não tais vozes, nos causa mais 
inquietação ainda e nos

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