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METODOLOGIA DA PESQUISA EM ESTUDOS LITERÁRIOS

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do teórico da orali-
dade Zumthor (2007), observo alguns pontos importantes de sua obra Per-
formance, percepção, leitura. Na obra em questão, o autor destaca que pensar 
em performance significa necessariamente pensar em corpo (ZUMTHOR, 
2007, p. 38). 
Afirma que corpo é uma noção absolutamente individual (ZUMTHOR, 
2007, p. 38). E corpo, nesse caso, é o do performer, com todas as suas parti-
cularidades, e também o de cada indivíduo que compõe a plateia da perfor-
mance, pois, para cada um deles, a percepção da performance se manifesta 
de um modo, ou seja, significa de um modo específico para cada corpo ali 
presente. É, portanto, dessa tensão estabelecida entre todos esses corpos que 
se encontram na performance que se extrai uma formidável energia que não 
pode ser chamada de outro modo que não seja “energia poética” (ZUM-
THOR, 2007, p. 39). 
Posso, então, associar a fala de Zumthor ao entendimento teórico Aguiar 
acerca da performance e, assim, chegar à noção de “poema total” e também 
de “poema vivo” propostas por Aguiar, pois é na totalidade do ato perfor-
mático que o poema acontece e é também nessa totalidade que se possibilita 
ao espectador atingir o nível da fruição e, consequentemente, da ressignifi-
cação de conceitos consolidados.
Mais especificamente sobre a noção de fruição que é tão discutida por 
Aguiar, é possível dizer que esta se aproxima da noção zumthoriana de per-
cepção. Zumthor (2007) busca estabelecer uma distinção entre a pura re-
cepção de um conjunto de informações da percepção de um conjunto de 
informações, na qual verdadeiramente acontece a fruição, pois a informação 
recebida é ressignificada a partir do próprio espectador. 
O autor afirma que a percepção é que produz a concretização (que seria 
a fruição, nos termos de Aguiar):
O que produz a concretização de um texto dotado de uma carga 
poética são, indissoluvelmente ligadas aos efeitos semânticos, as 
transformações do próprio leitor, transformações percebidas em 
geral como emoção pura, mas que manifestam uma vibração 
fisiológica. Realizando o não-dito do texto lido, o leitor empenha 
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sua própria palavra às energias vitais que a mantêm. O texto 
poético aparece, com efeito, a esses críticos, como um tecido 
perfurado de espaços brancos, interstícios a preencher [...] 
'passagens de indecisão' exigindo a intervenção de uma von-
tade externa, de uma sensibilidade particular, investimento de 
um dinamismo pessoal para serem, provisoriamente, fixadas 
ou preenchidas. O texto vibra; o leitor o estabiliza, integrando
-o àquilo que é ele próprio. Então é ele que vibra, de corpo e 
alma. Não há algo que a linguagem tenha criado nem estrutura 
nem sistema completamente fechados; e as lacunas e os bran-
cos que aí necessariamente subsistem constituem um espaço 
de liberdade: ilusório pelo fato de que só pode ser ocupado por 
um instante, por mim, por você, leitores nômades por vocação. 
(ZUMTHOR, 2007, p. 53, grifo nosso).
Desse modo, fica aqui, ainda que brevemente, esclarecida, nessa associa-
ção das falas de Aguiar e Zumthor, a questão da ressignificação que advém 
da fruição que a atitude performática desperta no espectador em cada ato 
poético performativo.
Passo agora a uma breve análise de um poema-performance, no intuito 
de demonstrar didaticamente de que modo se pode aplicar a compreensão 
teórica acima discutida na análise do objeto escolhido.
16.4 Breve análise do poema-performance “Poema Estrutural”, de 
Fernando Aguiar
De início, transcrevo o texto do “Poema Estrutural”, para que, a partir 
dele, seja possível encaminhar a análise. Uso como base da transcrição a ver-
são do poema publicada na obra impressa de Aguiar (2009, p. 24-25), Tudo 
por tudo, mesmo ano da performance aqui analisada, contudo, ressalto que, 
na performance, o autor faz pequenas modificações no texto (o que, aliás, é 
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uma das características da performance: sempre há alguma modificação do 
texto em cada performatização dele). 
A seguir, a transcrição de “Poema Estrutural”, com as modificações feitas 
por Aguiar (2009, p. 24-25)12 na performance realizada em 09 de maio de 
2009: 
Poema Estrutural 
Texto contexto 
texto pretexto 
texto conceito 
texto estrutural. 
Contexto textual 
pretexto conceitual 
bissexto desigual 
conceito bissexual. 
Percepto pretextual 
composto contextual 
estrutura integral 
preceito primordial. 
Contensão pragmático-passional 
contexto contrário-pontual 
propósito estruturo-essencial
percepto-confesso adicional. 
Concerto convexo-eventual 
pretenso percepto-negocial 
correto paradoxo sexual 
texto retexto universal. 
12 Disponível em: <http://fernando-aguiar.blogspot.com.br/>.
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Contextura-convulsiva composto individual 
estruturo-expressivo instintivo-objectual 
pretexturo-perceptivo pretexturo-fatual 
conexo confesso bissexto animal. 
Conceito intuitivo circunflexo-conventual 
estímulo-perceptivo incerto adverbial
sexto contexto contíguo espiritual 
retexto-reflexivo conspícuo bidimensional. 
Complexo analítico perceptivo-biológico artificial 
pretexto-anexo bizarro contraceptivo intelectual
pretenso paranoico percurso inferno-proporcional 
precepto-completo com texto terminal.
A ação se inicia com o poeta abrindo no centro do palco uma grande 
estrutura metálica, que, embora uma só, é toda subdividida em 12 quadra-
dos que são atravessados, cada um, por um “x”. No canto esquerdo, há uma 
mesa; no direito, um púlpito e um microfone em haste e, sobre o púlpito, 
uma pasta com as folhas onde o poema está escrito. Após abrir a estrutura, 
o poeta diz “aqui a estrutura já tá, agora o poema” e, seguida, ele se dirige 
ao púlpito onde estão as folhas com o poema, as pega e vai para o centro do 
palco, por trás da estrutura metálica. Atrás do poeta, há um telão que, embo-
ra não transmita nenhuma imagem, permanece ligado e, por isso, acaba por 
refletir e amplificar a sombra do poeta e da estrutura no palco, com a ajuda, 
claro, da iluminação apropriada. É sempre por trás da estrutura que o poeta 
desenrola a performance, que consiste nele lendo cada verso do poema nas 
folhas que estão em suas mãos (cada verso está escrito numa folha) e, após 
a leitura de cada folha, arremessando a folha lida pela estrutura metálica. 
Para falar na ressignificação presente em “Poema Estrutural”, destaco que 
ela acontece já na escolha da estrutura metálica como chave da cena perfor-
mática, estrutura a qual o poeta transpassa com a sua poesia, uma vez que 
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ele arremessa os versos de seu poema pela estrutura. A meu ver, esse é um 
modo de questionar e, consequentemente, ressignificar a estrutura presente 
nos poemas canônicos, uma vez que, no ato performativo, o poeta cria uma 
simbologia da ruptura com os padrões. 
O modo como a linguagem é posta no poema também é um modo de 
questionar os padrões literários. O poeta escolhe versos curtos, diretos, sem 
conectivos, como se cortasse, rompesse a estrutura da construção frasal em 
si, numa busca de levar o seu espectador à uma reflexão acerca do fazer lite-
rário sempre tão amarrado aos padrões estabelecidos. Esse questionamento 
que é provocado no espectador é o que o possibilita avançar à condição de 
fruidor, pois, ao se sentir tocado pelo questionamento suscitado pelo poema
-performance, ele se torna capaz de ressignificar o conceito de que a poesia é 
sempre amarrada à uma forma fixa e ao modo escrito ou declamado. Aguiar 
leva o seu fruidor à reflexão de que a poesia é, fundamentalmente, arte, e a 
arte é a reunião de muitos conceitos. Portanto, nela podem estar reunidos 
poesia, teatro, artes plásticas, música, dentre outras coisas. 
Voltando a discussão para a compreensão de corpo proposta por Zhum-
tor (2007) e especificamente falando acerca do corpo em performance, des-
taco que, para o autor, o corpo que performatiza modifica o conhecimento

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