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METODOLOGIA DA PESQUISA EM ESTUDOS LITERÁRIOS

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previamente estabelecido, uma vez que, ir além da comunicação, é da natu-
reza da performance, pois nela, se alcança a reflexão, e consequentemente a 
percepção (ou a fruição, nas palavras de Aguiar). Aquilo que se percebia de 
um modo passa a ser percebido de outro, muito mais profundo, a partir da 
intervenção do corpo em performance (ZUMTHOR, 2007, p. 32). Sem dúvi-
da, o questionamento das estruturas proposto por Aguiar (2009) no “Poema 
Estrutural” leva a esse tipo de percepção: de que é necessário refletir sobre o 
que nos aprisiona em conceitos pré-estabelecidos socialmente e impostos a 
nós ao longo das nossas vidas, sobre os quais pode ser que nunca reflitamos. 
Um modo de resistir a esses conceitos e aos mecanismos de controle so-
cial muito utilizado pelo poeta Aguiar, em análise aqui, é resistir não apenas 
pela performance encenada para uma plateia específica, mas também pela 
possibilidade de alcance desta em níveis não pensados antes da associação 
da poesia com os meios digitais. Assim, ao disponibilizar os vídeos de suas 
performances em seus blogues, o poeta faz fruir sua obra ao redor do mundo 
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e a qualquer tempo. Esse é, portanto, um modo de resistir aos mecanismos 
do poder e às estruturas que ele questiona em seus poemas-performance, 
como o que vimos neste texto, pois seu corpo se faz presente em qualquer 
tempo/espaço por meio da Internet. 
16.5 Considerações finais 
Para encerrar essa breve reflexão sobre performance, fruição, ressignifi-
cação e resistência que busquei fazer aqui, dou voz a Ernesto de Sousa, que 
no texto “Oralidade, futuro da arte?”, buscando construir um entendimento 
sobre o modo como o espectador sai da condição de mero receptor passivo 
da arte para a de fruidor desta, afirma que já se deu por findada a dicotomia 
criador-ativo-isolado / espectador-passivo-anônimo. Ele diz que há clara-
mente uma integração do espectador ao espetáculo e, nessa integração, o 
espectador-ativo retoma por sua conta o gesto encenado e o confunde com 
a sua própria estrutura de mundo (SOUSA, 2011, p. 33).
É nessa tomada de consciência sobre o que arte pretende transmitir e 
ainda na integração que é possível fazer com ela, agora dessacralizada, que o 
leitor/espectador/fruidor ressignifica a mensagem recebida e resiste aos me-
canismos de controle. Um modo hoje muito eficaz de tornar isso possível é 
a utilização dos meios digitais, para fazer essa poesia fluir pelo mundo todo, 
estratégia que tem sido adotada pelo experimentalista português Fernando 
Aguiar, sobre quem falei brevemente aqui. Aguiar mantém blogues na In-
ternet para o registro e divulgação da sua atividade poética e, assim, torna 
possível que sua arte alcance pessoas no mundo inteiro, de modo que a cada 
nova visualização, surge uma nova fruição do poema, uma nova tomada de 
consciência. Aguiar e os que como ele fazem a poesia circular pelo mundo, 
alcançam, portanto, a integração a que se refere Sousa, tão necessária à frui-
ção e à resistência aos mecanismos de controle que reprimem a todos nós 
cotidianamente.
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Referências 
AGUIAR, Fernando. A essência dos sentidos. Lisboa: Associação Poesia Viva, 2001. 
______. Poesia: ou a interação dos sentidos. Lisboa, Portugal, 25 jan. 2010. Disponível em: 
<http://textoavoltadaperformance.blogspot.com/2010/01/fernando-aguiar-poesia-ou-in-
teraccao.html>. Acesso em: 17 jul. 2017.
______. Tudo por tudo. São Paulo: Escrituras, 2009. (Coleção Ponte Velha).
ARTESÉRIES. Produção de Fernando Aguiar. Faro, Portugal, 9 maio 2009. 1 vídeo [recur-
so eletrônico], son., color. Disponível em: <http://fernando-aguiar.blogspot.com/2009/>. 
Acesso em: 18 jul. 2017..
CASTRO, Ernesto Manuel de Melo. Poética do Ciborgue: antologia de textos sobre tecno-
poiesis. Rio de Janeiro: Confraria do Vento, 2014.
______; Hatherly, Ana. Po-Ex: textos teóricos e documentos da poesia experimental por-
tuguesa. Lisboa: Moraes Editores, 1981. (Coleção Margens do Texto).
SOUSA, Ernesto de. Oralidade, futuro da arte?: e outros textos, 1953-87. São Paulo: Escri-
turas, 2011. (Coleção Ponte Velha). 
TORRES, Rui. Breve apresentação da Poesia Experimental Portuguesa . [S.l.]: PO.EX.NET, 
17 maio 2006. Disponível em: <https://po-ex.net/taxonomia/transtextualidades/metatex-
tualidades-alografas/rui-torres-breve-apresentacao-da-poesia-experimental-portugue-
sa/>. Acesso em: 17 jul. 2017.
ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura. Tradução de Jerusa Pires e Suely Feneri-
ch. 2. ed. São Paulo: Cosac Naify, 2007. 
* Obra reunida do autor Fernando Aguiar nos seguintes blogues: <http://ocontrariodo-
tempo.blogspot.com/> e <http://fernando-aguiar.blogspot.com.br/>. Acesso em: 10 maio 
de 2017.
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CAMINHOS E SABERES PARA PESQUISA 
EM ENSINO DA LITERATURA
Rosa Maria Monteiro de Araújo
A Literatura é indispensável à formação do cidadão, ela age como instru-
mento de informação e transformação agregando valores à vida dos leitores. 
Por meio dela, podemos conhecer o passado, compreender o presente e nos 
posicionar como cidadãos do mundo, pois “[...] ler é um diálogo com o pas-
sado, que cria vínculos, estabelece laços entre o leitor e o mundo e os outros 
leitores.” (COSSON, 2014, p. 36). 
Podemos ver essa importância da literatura destacada nos Parâmetros 
Curriculares Nacionais da Língua Portuguesa, lançados nos anos 1990, aler-
tando para a necessidade de atividades com o texto literário nas aulas de 
língua portuguesa ao afirmar que: 
É importante que o trabalho com o texto literário esteja incor-
porado às práticas cotidianas da sala de aula, visto tratar-se de 
uma forma específica de conhecimento. Essa variável de cons-
tituição da experiência humana possui propriedades compo-
sitivas que devem ser mostradas, discutidas e consideradas 
quando se trata de ler as diferentes manifestações colocadas 
sob a rubrica geral de texto literário. (BRASIL, 1998, p. 29). 
Atualmente, a necessidade e a importância da literatura no currículo 
escolar têm ganhado mais espaço como verificamos, por exemplo, na re-
cém-criada Base Nacional Curricular Comum em 2016, que inseriu entre as 
competências e saberes que o educando deve dominar a educação literária 
compreendida como “[...] a formação para conhecer e apreciar textos literá-
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rios orais e escritos, de autores de língua portuguesa e de traduções de auto-
res de clássicos da literatura internacional” (BRASIL, 2016, p. 3), alertando 
que a educação literária não significa ensinar literatura mas sim “promover 
o contato com literatura para a formação do leitor literário, capaz de apreen-
der e apreciar o que há de singular em um texto cuja intencionalidade não 
é imediatamente prática, mas artística” (BRASIL, 2016, p. 3). Essas orienta-
ções estão em consonância com a proposta de letramento literário recomen-
dada por Cosson (2014), ao afirmar que o ensino da literatura deve priorizar 
o desenvolvimento das competências leitoras do aluno e que o professor 
de língua portuguesa deve preocupar-se não em ensinar literatura, mas em 
mediar leituras, promovendo dessa forma, o encontro do aluno com o texto 
literário. 
O ensino da literatura envolve seres humanos em um ambiente educa-
cional e, por isso, “[...] pesquisar em educação exige, além de uma formação 
acadêmica restrita (relativa ao que será desenvolvido), uma sólida e pro-
funda formação acadêmica geral.” (FAZENDA, 2012, p. 18). Neste sentido, 
Laville e Dionne (1999, p. 32) nos advertem que “[...] os fatos humanos são 
mais complexos que os fatos da natureza” e que “[...] submeter fatos huma-
nos à experimentação é ainda mais complicado”. 
Diante dessas afirmações, entendemos que o ensino da literatura é com-
plexo e como tal envolve a participação de múltiplos atores e por isso sempre 
haverá problemáticas sobre as quais o professor-pesquisador deve refletir, 
questionar e procurar respostas. Dentre

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