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METODOLOGIA DA PESQUISA EM ESTUDOS LITERÁRIOS

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o mundo. Assim entendemos o texto 
literário.
Para tanto, as vozes desses poetas ecoam outros sons, discursos que car-
regam uma ideologia e valores culturais herdados de geração a outra gera-
ção. Nesse sentido, para compreender essas características é preciso dire-
cionar a abordagem para os Estudos Culturais cujas pesquisas da chamada 
Escola de Birmingham, sob a coordenação de Richard Hoggart, em The Uses 
of Literacy, de 1977, no Centro de Estudos Culturais da Universidade de 
Birmingham, disponibilizam o suporte que precisamos para entender uma 
parte do pluriculturalismo presente na região amazônica cujas organizações 
populares e as elites intelectuais têm colocado em prática ao longo da histó-
ria desse local.
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Consoante Júnior Pontes (2014), em Os estudos culturais e a crítica lite-
rária no Brasil:
Historicamente falando, o campo dos Estudos Culturais iden-
tifica-se com a transformação no pensamento inglês do pós-
guerra, onde fora iniciado graças a preocupações que deman-
davam um tratamento distinto do que se podia com a herança 
oitocentista das ciências sociais. Raymond Williams, Richard 
Hoggart e E. P. Thompson, principalmente, trouxeram contri-
buições com que os pesquisadores da New Left Review, como 
Stuart Hall e Paul Gilroy, reformularam o legado marxista a 
partir do pensamento de Gramsci. (PONTES, 2014, p. 18).
Dessa forma, essa apreensão se faz necessária para avançar nos estudos 
de expressão amazônica, e, uma vez feita, podem ser realizadas as análises 
dos elementos da linguagem poética dos poetas Elson Farias e Octávio Sar-
mento, tais como as ênfases, repetições, omissões, metáforas, ambiguidades, 
personagens, incidentes, símbolos, enredo e tema e demais traços relevantes 
para compreensão do imagético nos textos.
Compreende-se, dessa maneira, que os Estudos Culturais na abordagem 
de expressão amazônica é uma investigação da produção contextual, mul-
tidimensional do conhecimento cultural, cujo objetivo é refletir acerca da 
natureza complexa dos objetos em análises. Em outras palavras, é entender 
o fenômeno da expressão cultural não como algo isolado, mas inserido em 
práticas culturais de uma sociedade em um determinado período da histó-
ria.
Uma característica de trilhar esse caminho adotado é ser estimulado à 
investigação interdisciplinar dos estudos voltado às classes trabalhadoras, 
juventude, mulheres, feminismo, sexo e gênero, raça, etnicidade, políticas 
culturais, entre outros. Enfim, é a análise dos marginalizados, aqueles que 
não possuem voz, ou são silenciados, ou ainda, não possuem o direito de 
voz.
Nesse ponto da abordagem é preciso realizar a delimitação do percurso, 
isto é, observar as linhas de pesquisas mais adotadas dentro dos Estudos 
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Culturais, para depois trilhar os caminhos dentro da abordagem de Expres-
são Amazônica, são elas: a) fenômenos de mercantilização cultural contem-
porânea, analisando as relações de poder e os mercados, articulando com as 
culturas populares, a partir de Bourdieu (1984) e Centeau (1984); b) noção 
de Estado nas sociedades capitalistas contemporâneas e relações de poder e 
micropoder, a partir de aparelhos ideológicos do Estado de Althusser (1980) 
e Foucault (2008); c) a luta de hegemonia e contra-hegemonia como pro-
dução de sentido nas diversas representações do Estado, em concordância 
com Gramsci (1978) e o abandono das meta-narrativas culturais, de Lyotard 
(1987); d) modos de construção política e social das identidades, abordando 
as questões de raça, nação, etnicidade, diásporas, colonialismo e pós-colo-
nialismo, sexo e gênero, entre outros; e) fenômenos culturais ligados à glo-
balização, tais como desterritorialização cultural, movimentos transacionais 
de pessoas, bens e imagens, sociedade em rede, terrorismo cultural, choques 
culturais civis, crise ambiental, e outros.
Realizadas as fundamentações para a compreensão da expressão cultu-
ral, enquanto uma construção de significados que são expressos em signifi-
cantes simbólicos, estabelecendo uma comunicação entre os homens, e por 
conseguinte, um efeito de sentido, o próximo passo é de percorrer as leituras 
dos objetos (obras dos poemas mencionados) a partir da exposição de Hall 
(2003). Este discorre sobre a produção de sentidos, ele entende esses como 
uma ligação entre o conhecimento tradicional e a mudança de mentalida-
de presente no indivíduo e no coletivo. Essas ligações são transmitidas de 
geração a geração, inserindo o homem em um ciclo do devir em constante 
processo de formação cultural.
Sendo assim, os Estudos de Expressão Amazônica estão inseridos nos Es-
tudos Culturais, sendo estes os passos adotados de um caminho de análises 
que compreendem ser a cultura uma reação física e mental que caracterizam 
posturas dentro de uma coletividade e/ou individualidade em relação ao 
ambiente natural inserido, isto é, uma troca de experiências, formadoras de 
identidades, dentro de um sistema de dominação e jugos estéticos, morais e 
sociais, conforme expõem Williams (1969) e Boas (2011).
Logo, essas abordagens possibilitam ao pesquisador o entendimento da 
atuação do campo da cultura, porque ele é um lugar importante para discutir 
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conflitos, contradições, papéis sociais, práticas culturais, costumes, modos 
de vivência, até mesmo a dinâmica econômica de determinadas sociedades, 
quer seja pela oralidade, memória e tradição, quer seja pelo patrimônio cul-
tural e capital material.
2.2 A metodologia do estudos de Expressão Amazonense
No intuito de colocar em prática as informações oriundas da linha de 
pesquisa dos Estudos Culturais, que se referem aos modos de produção de 
sentidos, e estes situados no alcance semântico que os poetas Farias (1990) e 
Sarmento (2007) podem atingir para realizar a expressão amazônica, como 
uma voz que realiza a representação da realidade amazônica, foi traçado um 
roteiro de leituras que visam compreender quais são as imagens existentes 
da região e os sentidos atribuídos a elas.
O Amazonas da época de Octávio era o destino da chegada de estran-
geiros, nordestinos, por estarem inseridos em políticas governamentais que 
visavam, através da produção agrária, o desenvolvimento do país. Um exem-
plo disso ocorre em julho de 1878, quando, do porto de Fortaleza, o navio de 
guerra Purus levou um grande número de cearenses pobres que fugiam da 
profunda miséria a que se viram reduzidos. Muitas vezes eles partiam sem 
saber ao certo o que iriam encontrar pela frente. Eram trabalhadores con-
tratados para as obras de construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. 
Por sua vez, o ribeirinho presente da obra Romanceiro, de Farias (1990), em 
análise, é o contemporâneo a de Sarmento (2007).
Por conta disso, a leitura de Meggers (1967), em Amazônia, a ilusão de 
um paraíso, é a etapa da pesquisa que oferece ao pesquisador da área de 
expressão amazonense o entendimento da região como um laboratório de 
estudo cujo palco tem sido o espetáculo da seleção natural trazido por ho-
mens que a povoaram, antes da era cristã, depois, por exploradores que in-
troduziram novas lógicas sociais.
Nisso, o Estudo Cultural de Expressão Amazônica é aquele pavimento 
posto no caminho que não se permite fazer apenas análise de cultura etno-
gráfica, curiosa apenas aos especialistas em folclore amazônico, conforme 
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expõe Souza (2003), mas é o passo do caminho feito por Raul Bopp, em 
Cobra Norato, Mário de Andrade, em Macunaíma, Nunes Pereira, em Mo-
ronguetá, um decameron indígena, Sarmento (2007) e sua Uiara, e em Farias 
(1990), no Romanceiro, estes últimos objetos de nossa análise. 
No percorrer do trajeto, é preciso entender que a Expressão Amazônica, 
na literatura, é marcada desde os tempos coloniais pelo palco de importa-
ções culturais desenfreadas, motivadas por práticas de trocas aqui nascente, 
fruto do mercantilismo português, sendo

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