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METODOLOGIA DA PESQUISA EM ESTUDOS LITERÁRIOS

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mais tarde modificado para a cul-
tura da ostentação, em contexto do ciclo da borracha.
Dessa forma, é a ferramenta que o crítico possui para analisar o seu obje-
to de estudo, sendo assim:
[...] É importante destacar que as duas ideias são muito 
pertinentes quando se aborda a literatura produzida na ou a 
partir da Amazônia. Os valores regionais, hábitos, costumes, 
línguas, sempre estiveram em confronto com a busca de uma 
universalização da cultura. A aceitação das diferenças e da 
valorização dos diversos discursos que compõe as sociedades 
contemporâneas, as chamadas minorias: mulheres, etnias e os 
mais variados grupos e pessoas, vêm destacando-se a partir 
dos estudos culturais, iniciados nos anos sessenta. (BEZERRA, 
2011, p. 2).
Dessa maneira, para efeitos metodológicos, após o entendimento dos 
contextos, a seleção da linha de estudo dentro dos Estudos Culturais, a que 
se relaciona aos modos de construção política e social das identidades, foi 
a escolhida e adotada enquanto percurso metodológico, para o estudo tex-
tual do poema “Uiara”, da obra Uiara e outros poemas, de Sarmento (2007), 
e dos poemas do Romanceiro, de Farias (1990) com base em uma análise 
bibliográfica, por meio de fichamentos, após o entendimento dos poetas no 
contexto histórico da literatura produzida no Amazonas.
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2.2.1 Contexto
Iniciar um procedimento de análise desse quadro requer compreender a 
marca do silêncio, isto é, o artista amazonense ainda é visto como um corpo 
estranho, frente ao ornamento construído pela classe dominante, para ela, 
erroneamente persiste a ideia de ser a Literatura Amazonense, Literatura 
Brasileira de Expressão Amazônica, termos correlatos, uma produção de 
adorno, de ostentação.
Segundo Bezerra (2011, p. 4):
A leitura das obras da literatura de expressão amazônica ainda 
continua centrada, restrita a certos grupos, no ciclo acadêmi-
co, e nos grupos que exercem tal prática ainda com o objetivo 
de se afastarem da chamada cultura popular, e, principalmen-
te, das práticas culturas de massa, na relação de poder, na dis-
puta por uma hegemonia entre esses grupos.
Assim, o artista amazonense é o resultado dessas práticas que Bezerra 
(2011) expõe. Nesse sentido, traçou-se um roteiro de viagem no trajeto per-
corrido para não cair em achismos ou usar argumentações superficiais, logo, 
linhas de pesquisas em potencial foram observadas e traçadas a partir de 
períodos históricos da região, tais como: a) dos primeiros viajantes até os 
primeiros relatos dos cientistas da terra, b) ciclo da Borracha, c) depressão 
da borracha, d) Clube da Madrugada e, e) Pós-Clube da Madrugada.
Ainda segundo Bezerra (2011, p. 3), a respeito de uma literatura de ex-
pressão amazônica:
1) devemos entender que as produções culturais na região 
amazônica não estão apenas ligadas à ideia de uma cultu-
ra letrada, das belas letras, das belas artes, buscando sempre 
elementos universalizantes, mas que as culturas amazônicas 
e, portanto, a sua produção e recepção artística são híbridas. 
Além disso, 2) é necessário ampliar as ações para a formação 
de um público leitor desta literatura, por acreditar que temos 
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os elementos do sistema literário produção, produto e tradição 
com mais força do que a recepção.
Desse modo, o período de 1600 até 1860 corresponde à produção literá-
ria entendida como de retrato, de relato de aventuras e curiosidades acer-
ca da região amazônica. Ela é fruto da prática colonialista, principalmente 
portuguesa e de viajantes estrangeiros, decorrentes de relatos de Francisco 
Orellana, Gaspar de Carvajal e outros.
Comportam-se, nesse eixo, autores, cronistas e curiosos que produziram 
a imagem das impressões desses, com uma linguagem própria, metaforizada 
da região, fantasiosa, marcada pela violência contra o índio. No pensamento 
de Souza (2003), é o reflexo da cosmogonia católica da conquista, porque 
também se escrevia para falar da conquista.
No que tange ao momento da economia gomífera, do auge ao declínio 
que vai dos meados de 1860 até 1930, há marcas de uma literatura infernista 
e edenista, palco de uma produção do exótico, do adorno e da ostentação em 
que os valores sociais e políticos impuseram aos artistas. Agrega-se a esse 
contexto escritores que somente experimentavam a negatividade de uma 
maneira descompassada, ou seja, reproduziam escolas literárias importadas 
da Europa com a finalidade de fomentar a negatividade falsa, todas elas for-
malistas.
Nesse cenário, fala-se de uma cidade (Manaus ou Belém) decorativa, ce-
nográfica e palco de pompas, um teatro de costumes dos coronéis da borra-
cha que servia para a contemplação de uma urbe babilônica com um estilo 
frenético, ligeiro, fruto do delírio e do sonho, em um espaço microcósmico 
das doenças do espírito burguês. Era a época do “Vaudeville”. 
Por sua vez, o período marcado e chamado aqui como Depressão da bor-
racha estende-se de 1930 até 1954 com o início do Clube da Madrugada 
apresentando como principal característica o combate ao marasmo, tédio e 
falta de produções de relevo da parte dos que se chamavam intelectuais na 
época. Até o momento, o que se tem de registrado por outros críticos desse 
período são impróprios para o consumo da leitura. 
Esse tempo é marcado também pelo aumento do êxodo rural e o gra-
dativo processo de esvaziamento do interior do Amazonas para a capital 
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Manaus, por exemplo, e esta não possui a estrutura necessária para acolher 
tantas pessoas, provocando práticas de deslocamento dessa parte da popula-
ção para as periferias ou, em maioria, condicionados a viverem em palafitas, 
à margem de igarapés e do Rio Negro. Vivencia-se a “Cidade Flutuante”.
Somente a partir da Geração Madrugada, assim nomeada por Telles 
(2014), em “Clube da Madrugada, presença modernista no Amazonas”, que 
autores como Jorge Tufic, Luiz Bacellar, Thiago de Mello, Antísthenes Pinto, 
Astrid Cabral, Alencar e Silva, Farias de Carvalho, L. Ruas, Elson Farias, 
Alcides Werk, Ernesto Penafort, Max Carphentier, Guimarães de Paula, Ar-
thur Engrácio, Carlos Gomes, Erasmo Linhares irão realizar a ruptura com 
o passado e a mentalidade acadêmica ultrapassada, bem como a ideologia 
extrativista. 
Sendo assim, os estudos dessa abordagem trabalham com essa inquieta-
ção em que os autores citados estabeleceram, mediante as transformações 
sociais, políticas e culturais, incorporadas a um novo espírito crítico e olhar 
de renovação cultural em relação à região. Assim, escritores que reconhe-
ciam toda essa realidade, suas respectivas aparências, mas diferente de seus 
antecessores, sabiam penetrar nessas superficialidades e romper com a tra-
dição.
Por fim, como roteiro traçado, o período conhecido como o Pós-Clube 
da Madrugada, estende-se dos anos de 1970 até a contemporaneidade, agre-
ga autores variados e alguns já renomados, como Milton Haoutum, Aldisio 
Filgueiras, Efraim Amazonas, Doria Carvalho, Aníbal Beça, Adrino Aragão, 
Zemaria Pinto, João Bosco Botelho, Márcio Souza, Vera do Val, Simão Pes-
soa, Tenório Telles, Claudio Fonseca, Alisou Leão, entre outros, que reali-
zam produções de caráter experimental, crítica e lirismo de resistência, que 
abordam os mais variados temas.
Logo, registram-se as ações culturais da Editora e Livraria Valer, respon-
sável pela reedição de livros dessa plêiade, cuja dedicação ajudou a tornar 
conhecida a história da literatura produzida no Amazonas e de sua respec-
tiva historicidade, também em contexto acadêmico. Como um dos frutos 
oriundos desse trabalho, Manaus dos finais dos anos de 1990 presenciou 
algumas atividades literárias que ainda estão em processo de análises, des-
cobertas e estudos por parte da crítica. 
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Destaco a criação de espaços para debates na livraria mencionada, cha-
mado de “Quarta Literária” e de ciclos de discussões aos sábados da Aca-
demia Amazonense

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