A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
249 pág.
METODOLOGIA DA PESQUISA EM ESTUDOS LITERÁRIOS

Pré-visualização | Página 8 de 50

como parte dos mecanismos da literatura compa-
rada, mediante os pressupostos teóricos de Carvalhal (2006) em Literatu-
ra comparada, Coutinho e Carvalhal (2011) na obra Literatura comparada: 
textos fundadores, Nitrini (2015) em Literatura comparada: história, teoria 
e crítica, Silva (2011) em Teoria da Literatura e Koch, Bentes e Cavalcante 
(2012) na obra Intertextualidade: diálogos possíveis, com o intuito de analisar 
as contribuições que os estudos comparatistas e intertextuais trazem para a 
pesquisa científica literária, sobretudo como método de pesquisa. 
A Intertextualidade surge como uma resposta aos estudos comparativis-
tas de textos literários, com a teoria da intertextualidade desenvolvida por 
Julia Kristeva, que teve por base o dualismo de Bakhtin; o estudo intertextu-
al não se prende somente ao texto escrito ou produzido, ou na simples inter
-relação de um texto com outro(s) textos. Ao longo deste capítulo, intenta-
mos apresentar a intertextualidade como uma ponte textual, em que o leitor 
fará relações de textos com outros textos, e dessas relações, se produzirá 
sempre novas leituras, abordagens e possibilidades de pesquisa. 
3
42
3.2 Intertextualidade
Para tratarmos de intertextualidade, é necessário que conheçamos os 
conceitos de literatura, texto e literatura comparada. Ao pensarmos sobre 
o conceito de literatura, o autor português Silva (2011, p. 2), em sua obra 
Teoria da Literatura, menciona sobre o lexema complexo que significa “[...] 
saber relativo à arte de escrever e ler, gramática, instrução, erudição”. A par-
tir da segunda metade do século XVIII, a literatura adquiriu seus signifi-
cados fundamentais, como descritos por Silva (2011, p. 10, grifo do autor): 
“O lexema literatura adquiriu os significados fundamentais que ainda hoje 
apresenta: uma arte particular, uma específica categoria da criação artística 
e um conjunto de textos resultantes desta atividade criadora”.
O texto, conforme citado por Koch (2015, p. 29), usando os conceitos de 
Schimidt, é definido como todo componente verbalmente enunciado:
Schmidt (1973), que propõe uma teoria sociologicamente 
ampliada da comunicação linguística, define texto como todo 
componente verbalmente enunciado de um ato de comunica-
ção pertinente a um ‘jogo de atuação comunicativa’, caracteri-
zado por uma orientação temática e cumprindo uma função 
comunicativa identificável, isto é, realizando um potencial ilo-
cutório determinado.
Para Koch e Elias (2015), o texto adquire sentido quando da participação 
do leitor: “Assim, o texto é um exemplo de que o autor pressupõe a partici-
pação do leitor na construção do sentido, considerando a (re)orientação que 
lhe é dada.” (KOCH; ELIAS, 2015, p. 37). Para visualização dos teóricos que 
tratam a respeito de literatura geral, literatura comparada e intertextualida-
de, produzimos o que denominamos de “Funil teórico”, a título de definição 
da linha de análise, a partir dos estudos intertextuais:
43
Figura 1 - Funil teórico: literatura comparada e intertextualidade
Fonte: As autoras (2017).
A literatura comparada, para Nitrini (2015), surge com o próprio surgi-
mento da literatura, pois, ao existirem duas literaturas, começou-se a com-
paração entre as mesmas. A partir do século XIX, a visão intelectual propor-
cionou a ascensão da literatura comparada como disciplina acadêmica na 
Europa, conforme cita Nitrini (2015, p. 20):
Ao que tudo indica, a expressão ‘literatura comparada’ derivou 
de um processo metodológico aplicável às ciências, no qual 
compara ou contrastar servia como um meio para confirmar 
uma hipótese. Por outro lado, a visão cosmopolita do século 
XIX incentivou viagens e encontros entre grandes pensadores 
intelectuais da época, [...] entusiastas da necessidade de um 
contato frequente com as literaturas estrangeiras.
O ponto de partida da literatura comparada é o manual do comparatis-
ta francês Tieghem (1931), em La littérature comparée, citado por Nitrini 
(2015) que traz, pela primeira vez, a ideia de literatura comparada como 
disciplina e define-a como uma disciplina particular. 
44
Para Nitrini (2015, p. 24), o objeto de estudo da literatura comparada é o 
estudo das diversas literaturas:
E, como disciplina autônoma, a literatura comparada tem seu 
objeto e método próprios. O objeto é essencialmente o estudo 
das diversas literaturas nas suas relações entre si, isto é, em que 
medida umas estão ligadas às outras na inspiração, no conteú-
do, na forma, no estilo.
Nos textos fundadores organizados por Coutinho e Carvalhal (2011, p. 
71), Croce (1949) define que a literatura comparada acompanha o desenvol-
vimento de diferentes literaturas, pois: 
A literatura comparada busca as ideias ou temas literários ou 
acompanha os acontecimentos, as alterações, as agregações, os 
desenvolvimentos e as influências recíprocas entre as diferen-
tes literaturas.
Em relação aos conceitos da literatura comparada, sobressaem-se os de 
Cionarescu, citados por Nitrini (2015), de onde nascem as definições de in-
fluência, imitação e originalidade; tais conceitos foram a base para o estu-
do da intertextualidade: a) influência: Nitrini (2015, p. 127) define como a 
soma de relações de contato de qualquer espécie, ou resultado autônomo 
artístico, denunciando “[...] a presença de uma transmissão menos mate-
rial”; b) imitação: detalhes materiais, de traços de composição, episódios, 
acontecimentos dados por Mimesis, Retórica do Renascimento, Processo 
de Adaptação e Comparatismo ou Equivalência entre Imitação e Influência 
(NITRINI, 2015, p. 127); e c) originalidade: o autor é original quando ig-
noramos as transformações dos outros nele, ou seja, o grau de assimilação 
entre a substância dos outros é que define os limites da originalidade de uma 
obra (VALÉRY, 1974 apud NITRINI, 2015, p. 135). 
Sobre linguística textual e intertextualidade, Koch (2015, p. 11) inicia as 
considerações iniciais de sua obra “Introdução à Linguística Textual” afir-
mando que a primeira é “[...] o ramo da Linguística que toma o texto como 
45
objeto de estudo”. Como tal, há a expectativa do papel da linguística textual 
como uma “[...] ciência integrativa de várias outras ciências.” (KOCH, 2015, 
p. 11). A linguística textual iniciou em meados de 1960 a 1970; nessa primei-
ra fase, houve a preocupação de se criar gramáticas textuais, particularmente 
por parte dos linguistas gerativistas; o texto passa a ser tomado como a uni-
dade linguística mais alta. Vale ressaltar que um dos pioneiros da linguística 
textual, Teun van Dijk, também se dedicou a construir gramáticas textuais.
A partir da virada pragmática, os textos passam a ser considerados “[...] 
elementos constitutivos de uma atividade complexa, como instrumento de 
realização de intenções comunicativas e sociais do falante” (HEINEMANN, 
1982 apud KOCH, 2015, p. 27); a intenção é descobrir “para que” o texto foi 
estabelecido. A partir dos estudos do dualismo de Bakhtin, Kristeva (1974) 
concebeu a Teoria da Intertextualidade, na segunda metade do século XIX, 
que foi recebida “[...] como um instrumento eficaz para injetar sangue novo 
no estudo dos conceitos de ‘fonte’ e de ‘influência’. ” (NITRINI, 2015, p. 158). 
A intertextualidade vem sendo estudada ao longo do desenvolvimento da 
Literatura, como um campo fértil para pesquisas, novas abordagens, desco-
bertas e confirmações teóricas dos fenômenos intertextuais observados no 
espaço de tempo em que o homem produz literatura.
A literatura comparada, de onde nasce o conceito de intertextualidade, 
permite-nos visualizar que os textos não nascem de referências vazias: não 
existe um marco zero em que a obra literária é criada. Para Kristeva (1974, 
apud KOCH, 2012, p. 14), “[...] qualquer texto se constrói como um mosaico 
de citações e é a absorção e a transformação de um outro texto”. A teoria do

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.