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METODOLOGIA DA PESQUISA EM ESTUDOS LITERÁRIOS

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dialogismo de Bakhtin opõe-se ao imutável, e esse conceito de mudança, de 
movimento, abre as portas para que Kristeva elabore os preceitos que pro-
põem resolver o problema das relações entre textos: “Resolver os problemas 
das relações entre texto e processos semióticos que aí se articulam é explicar 
como se constitui o ‘sujeito’ ou a sua ausência.” (NITRINI, 2015, p. 158).
Logo na apresentação da obra Intertextualidade, Koch, Bentes e Caval-
cante (2012, p. 9) afirmam que a intertextualidade “[...] constitui um dos 
grandes temas a cujo estudo se tem dedicado [...], particularmente a Teoria 
Literária”. Conforme as autoras, tendo por base os postulados de Bakhtin e 
Kristeva, a intertextualidade ocorre quando “[...] em um texto, está inseri-
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do outro texto (intertexto) anteriormente produzido, que faz parte de uma 
memória social de uma coletividade.” (KOCH; ELIAS, 2015, p. 86). Para fins 
de tipos de intertextualidade, este capítulo terá por base os conceitos ela-
borados por Koch, Bentes e Cavalcante (2012). Há duas divisões ou grupos 
em que se pode classificar a intertextualidade; porém, como Koch, Bentes e 
Cavalcante (2012) assinalam, a intertextualidade não está restrita somente 
a esses grupos, visto que ela pode ser aprofundada ou estudada sob outras 
perspectivas: a) stricto sensu: ou apenas intertextualidade, quando em um 
texto, está inserido outro texto (intertexto) anteriormente produzido; esse 
texto anterior deve fazer parte da memória coletiva ou discursiva: “[...] é 
necessário que o texto remeta a outros textos ou fragmentos de textos efe-
tivamente produzidos, com os quais se estabelece alguma relação” (KOCH; 
BENTES; CAVALCANTE, 2012, p. 17), e b) lato sensu: ocorre em relações 
de gênero, e não somente com textos isolados, mas tomando uma aborda-
gem antropológica. Tal abordagem mais ampla não será aprofundada neste 
artigo, visto que o objeto de estudo reside em comparar obras literárias es-
pecíficas.
Dentro das definições de intertextualidade stricto sensu, ou somente in-
tertextualidade, Koch, Bentes e Cavalcante (2012, p. 18) destacam quatro 
tipos – intertextualidade temática, intertextualidade estilística, intertextua-
lidade explícita e intertextualidade implícita, porém não somente limitados 
a tais; há ainda a intratextualidade ou autotextualidade, a intertextualidade 
das semelhanças ou das diferenças, a intertextualidade genérica e intertex-
tualidade tipológica.
A intertextualidade temática trata de obras ou textos com o mesmo tema, 
como em textos científicos de uma mesma área, temas com conceitos pró-
prios, entre matérias de jornais, em textos produzidos dentro de certo perí-
odo de tempo, entre textos literários da mesma escola ou do mesmo gênero 
etc. Koch, Bentes e Cavalcante (2012) citam ainda que a intertextualidade 
temática pode também ser encontrada em vários tipos de produções tex-
tuais, dentre as quais, as histórias em quadrinhos de um mesmo autor e as 
várias encenações de uma peça teatral. 
A intertextualidade estilística é notada quando o texto copia o estilo ou 
variedades linguísticas de outro texto; esse tipo de intertextualidade é prin-
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cipalmente evidenciado em textos bíblicos, jargões profissionais, grupos so-
ciais, dialetos etc. Koch, Bentes e Cavalcante (2012, p. 19, grifo das autoras) 
esclarecem que a emolduração do texto não deve ser descartada, pois “[...] 
defendemos a posição de que toda forma necessariamente emoldura, enfor-
ma determinado conteúdo, de determinada maneira”.
A intertextualidade explícita: tem-se a menção direta à fonte do intertex-
to, isto é, quando fica claro que aquele texto foi produzido anteriormente por 
outro enunciador ou outros enunciadores; para citar mais completamente as 
diversas situações em que se pode usa a intertextualidade explícita, Koch, 
Bentes e Cavalcante (2012, p. 29) mostram-nos os casos em que essa ocorre:
 
É o caso das citações, referências, menções, resumos, resenhas 
e traduções; em textos argumentativos, quando se emprega o 
recurso à autoridade; e, em se tratando de situações de intera-
ção face a face, nas retomadas do texto do parceiro, para en-
cadear sobe ele ou contraditá-lo, ou mesmo para demonstrar 
atenção ou interesse na interação.
 
 A intertextualidade implícita: acontece quando o texto contém intertexto 
alheio, sem que este seja mencionado explicitamente. Quando da ocorrên-
cia da intertextualidade implícita, há introdução dos textos de relação, sem 
que estes sejam explicitamente citados – o autor não deixa claro que ele está 
utilizando texto de um autor anterior; Koch; Bentes; Cavalcante (2012, p. 
31, grifo nosso) explicam como essa modalidade intertextual será percebida:
Nos casos de intertextualidade implícita, o produtor do texto 
espera que o leitor/ouvinte seja capaz de reconhecer a presen-
ça do intertexto, pela ativação do texto-fonte em sua memória 
discursiva, visto que, se tal não ocorrer, estará prejudicada a 
construção do sentido, mais particularmente, é claro, no caso 
de subversão.
As fontes para os intertextos que evidenciam a intertextualidade implíci-
ta geralmente são de domínio público e se encontram na memória coletiva; 
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são elas: trechos de obras literárias, músicas populares, textos midiáticos, 
bordões, provérbios, ditos populares etc.
Em Intertextualidade, as autoras Koch, Bentes e Cavalcante (2012) tam-
bém apresentam outros conceitos de estudos intertextuais, como o Détour-
nement, a diferença entre Intertextualidade e Polifonia e as estratégias de 
manipulação de intertextualidade genérica e intertextualidade tipológica, 
utilizadas na intertextualidade lato sensu, a intertextualidade de Genet-
te (transtextualidade por intertextualidade restrita – citações, aspas, grifas 
etc.), paratextualidade, arquitextualidade, metatextualidade e hipertextua-
lidade.
Para exemplificar a aplicabilidade do método de comparação de obras 
literárias por Intertextualidade, escolhemos como objetos literários as obras 
homônimas a peça teatral A Tempestade, de Shakespeare (2016) e a His-
tória em Quadrinhos (doravante, H.Q.) A Tempestade, de Gaiman (1998), 
destacando-se os seguintes aspectos: 1) escolha do método de comparação 
literário, intertextualidade Stricto Sensu, com pauta na definição de Intertex-
tualidade Implícita; 2) estudo da obra: A Tempestade, de Shakespeare (2016), 
como texto-fonte e a obra literária em estilo de H.Q. A Tempestade, de Gai-
man (1998), na qual se destaca a Intertextualidade Implícita, por não haver 
citação direta do intertexto ou texto-fonte no texto criado, ficando a cargo 
ou identificação do leitor a referência por captação da obra de Shakespeare, 
provocada por Gaiman; 3) temática: ambas as obras trazem a mesma temá-
tica, que é a ganância, o desprezo pelas minorias, a ignorância científica, 
o mundo fantástico, a subjeção da figura feminina e a remissão da perso-
nagem principal; 4) movimentos: Monarquia europeia, viagens marítimas, 
contextualização da época em que Shakespeare morava na Inglaterra, coe-
xistência de três realidades físicas na obra de Gaiman: a época de Shakespe-
are, a época da obra de Shakespeare e a época indefinida de Sandman; 5) em 
A Tempestade, de Shakespeare (2016), temos Miranda e Próspero, Caliban e 
o Espírito prisioneiro, os marinheiros, a realeza traiçoeira. Na H.Q. A Tem-
pestade, de Gaiman (1998), temos Shakespeare e sua família, os habitantes 
do vilarejo, marinheiros, Sandman, as personagens de dentro da história de 
Shakespeare; e 6) gênero literário: A Tempestade, de Shakespeare, dramatur-
gia. A H.Q. A Tempestade, de Gaiman, história em quadrinhos mídia adulta. 
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Koch, Bentes e Cavalcante (2012, p. 146) chamam a atenção para o ponto 
conclusivo de que a construção de relações entre os textos provoca adesão 
ao discurso proferido, revelando as semelhanças e diferenças abordadas nos 
estudos de

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