Debora Noal   O Humano do Mundo
189 pág.

Debora Noal O Humano do Mundo

Disciplina:Psicologia Ambiental e das Emergencias24 materiais29 seguidores
Pré-visualização50 páginas
Encontre mais livros como este no e-Livros

e-Livros.xyz

e-Livros.site

e-Livros.website

Aos meus pais, que me deram
olhos que veem.

A Antonio, que é capaz de enxergar
aquilo que eu não sei dizer.
À Chloe, meu pedacinho

no para sempre, que seus olhos
sempre queiram ver.

Toda dor pode ser suportada se sobre ela
puder ser contada uma história.

Hanna Arendt

Médicos Sem Fronteiras é uma organização humanitária internacional que leva cuidados de
saúde a pessoas afetadas por conflitos armados, desastres naturais, epidemias, desnutrição ou
sem nenhum acesso à assistência médica. A organização oferece ajuda exclusivamente com
base na necessidade das populações atendidas, sem discriminação de raça, religião, convicção
política e de forma independente de poderes políticos e econômicos. Também é missão de MSF
chamar a atenção para as dificuldades enfrentadas pelas pessoas atendidas em seus projetos.

SUMÁRIO
A porta do mundo
Minha primeira missão: Ciclone em Gonaïves, Haiti
Haiti mais uma vez
Missão Guiné
Missão na República Democrática do Congo (RDC)
Terremoto no Haiti
Desembarcando mais uma vez no coração da África
Primavera Árabe: Missão Líbia

A mulher das raízes aéreas

A primeira vez que me encontrei com Débora Noal, ela estava vindo — e já estava indo. Vindo
de um campo de refugiados na Líbia. Indo para trabalhar junto às prisões do Quirguistão. Era
2010 e uma tarde solar em Aracaju. E ela me recebia com chocolate num apartamento
colorido. Havia artesanato de diversas partes do mundo (do mundão mesmo, e não apenas da
Europa ou dos Estados Unidos) e o cuidado de pequenos detalhes em todos os cantos. Era uma
casa viva como a mulher de 30 anos então que me recebia com uns olhos verdes inquietos e
uma enorme capacidade de rir.

Sempre tento entrevistar as pessoas em suas casas, porque a casa conta muito de quem nela
vive, conta até o que as pessoas não conseguem ou não querem contar. Logo que entrei no
apartamento senti que estava numa casa bem-habitada. Mesmo quando a pessoa que ali morava
me esclareceu: “Minhas raízes são aéreas”.

E são mesmo. Mas aquele seria apenas o primeiro de meus vários encontros com Débora, e
eu a alcançaria em outras casas e cidades e aprenderia que ela faz casas coloridas e cheias de
pequenos detalhes bem-cuidados em qualquer lugar por onde vá. E se despede dessas casas
coloridas e cheias de pequenos detalhes bem-cuidados com a mesma alegria que as inventa.
Débora exerce algo muito raro que é se entregar ao provisório, ao que sabe que será seu por
apenas um momento e mesmo assim fazê-lo belo e amoroso. É, em certa medida, um
paradoxo. Vive o presente, mas com dedicação de eternidade.

Débora é passageira, e é passageira nos mais variados sentidos. Mas esse jeito de
experimentar o ato de passar me parece chave para compreender sua atuação como psicóloga
da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras. Quando ela conta cada uma
de suas missões, é bastante claro para quem a escuta que, enquanto ela lá esteve, esteve por
completo, esteve como se aquele momento fosse a vida inteira. Débora passa como se ficasse.
E quando conta é como se lá voltasse. E nós, que a escutamos, somos também carregados para
aquela experiência. E a experimentamos com as cores e os cheiros e a textura que ela
generosamente nos oferece.

Na primeira entrevista permaneci por mais de três horas escutando-a contar sobre o que ela
chama de “lado B do mundo”. E porque Médicos Sem Fronteiras vai aonde a maioria prefere
esquecer que existe, vai aonde o horror sussurra nos ouvidos, são histórias que perfuram.

Quando ela termina, é como se a gente fosse recosturado para um outro formato humano. E,
quem de fato a escuta, carrega o itinerário dessa costura no corpo como uma marca. E isso faz
com que sua voz, contando de vozes ignoradas, produza movimento.

Existe aí um outro paradoxo sobre Débora. Com tanta memória de morte, era de se esperar
que as sombras fizessem peso nela. Mas ela é leve. Conheço poucas pessoas que transmitam
tanta leveza quanto ela, sempre pronta para o riso e para o contentamento. Talvez porque parte
do trabalho de Débora como psicóloga seja compreender onde está a delicadeza — e arrancá-la
das horas brutas.

Onde está a vida possível naquele que morre talvez seja a questão que atravesse os tantos
mundos que ela e os demais MSF alcançam. Mas a dor permanente é que não é possível
interromper o ciclo de horrores enquanto a maioria não estiver disposta a enxergar os
invisibilizados do mundo. Porque não é que sejam invisíveis, é que os tornamos invisíveis para
o nosso conforto. E às vezes tudo o que homens e mulheres como Débora podem fazer é
superar as fronteiras para se assegurarem de que não estejam sós na hora da morte. Às vezes
tudo o que ela pode fazer é segurar a mão de alguém. Imenso gesto pequeno que molda Débora
e outros MSF, um constante confrontar-se com a impotência porque muitas vezes não se pode
salvar, estar junto é tudo o que dá.

Neste mundo em que a humanidade tem se especializado em criar muros cada vez maiores e
mais numerosos, barreiras cada vez mais monstruosas, cercas que nem sequer se imaginava
possível que fossem inventadas, a organização com a qual Débora trabalhou entre 2008 e 2014
faz talvez o mais amplo gesto político, que é o de atravessar as fronteiras para levar cuidado. E,
ao fazê-lo, lembrar a nós todos que a única fronteira que não pode ser ultrapassada é a do
respeito à vida do outro.

São muitos os homens e mulheres de diferentes nacionalidades sob a bandeira de Médicos
Sem Fronteiras, que derrubam, dia após dia, também os muros invisíveis, em busca de tocar os
corpos daqueles deixados do lado de fora, mesmo dentro dos limites do seu país. Ou aqueles
que precisam fugir de dentro para se manter vivos. O fora e o dentro quando a vida é violada
de tantas formas não é um conceito nem dado nem fácil. Débora, neste livro, dá conta de um
ato feito por muitos, mas empresta a ele a singularidade intransferível da sua experiência.

Como Débora consegue entrar, entregar-se por inteiro e despedir-se de tantos mundos e
ainda assim permanecer íntegra? Para encontrar pistas para essa resposta, precisei compreender
que ela vive um conceito de família expandida. Embora seja muito ligada à mãe e às irmãs,
essa sua linhagem feminina, Débora se compreende como parte de uma grande família
humana. Ela não apenas veste o nome de Médicos Sem Fronteiras. O que ela faz é mais
profundo. Ela encarna o nome do que é. E o faz lá na fundação, no sangue. Sua família não é
dada por um DNA compartilhado, mas pelo intangível. Sua família são todos. E também é
nenhum.

Débora é família enquanto está. Tanto quanto suas casas são eternas por um segundo. E a
primeira pista para essa família expandida pode ser encontrada já no primeiro capítulo deste
livro, onde a menina abre a porta da casa, a primeira fronteira, e se confronta com o dilema de
que há quem está dentro — e há quem está fora. Naquele momento, intuitivamente, Débora

percebe que a questão maior, ao contrário do que muitos pensam, não é botar o homem
“pobre” que ali está para dentro. A questão é a porta. A barreira. E decide viver num mundo
sem elas. De todas as maneiras.

Débora nega radicalmente as fronteiras, qualquer fronteira que não seja a do respeito pela
dignidade da vida. O mundo inteiro é sua casa e também sua família. Diante disso, quando ela
anunciou que embarcava para uma missão em que enfrentaria uma epidemia de ebola na
República Democrática do Congo, eu temi. Porque ali haveria uma fronteira que ela não
poderia negar. Haveria uma roupa especial, uma roupa hermeticamente vedada, uma roupa
antivírus, uma roupa antioutro. Não poderia haver toque. Não haveria pele humana, só
sintética.

Ela escreveria então: “Voltei pra casa depois de 30 dias na epidemia de ebola do Congo. E
estou com aquele cansaço no corpo de