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o qual se fixa a “vida teórica” do equipamento. Na maioria dos países, com vistas a
acelerar o progresso tecnológico, esse acordo se faz em bases extremamente generosas para a
empresa.
Quando se observa de perto o mecanismo de financiamento da expansão da empresa moderna —
reinvestimento de fundos que ela mesma acumula depois de haver remunerado todos os fatores que
utiliza —, depreende-se com nitidez o seu caráter de centro de poder. Com efeito, somente porque
estamos presos a certos esquemas jurídicos vemos uma diferença essencial entre um imposto sobre a
produção de automóveis e a fixação de uma margem de lucro adicional, feita pela empresa produtora,
visando financiar o seu plano de expansão. Em síntese, a empresa moderna ocupa uma posição
estratégica no sistema econômico, que lhe permite interferir na distribuição da renda. Via de regra
esse poder é utilizado para induzir a coletividade a realizar uma poupança, da qual a empresa se
apropria.
Numa economia desenvolvida, conforme já vimos, essa apropriação é compensada pela difusão dos
frutos do progresso tecnológico no conjunto da coletividade. Nas economias subdesenvolvidas não se
formam espontaneamente canais de difusão, o que responde pela concentração da renda.
As observações que vimos de fazer em torno do papel da grande empresa numa economia industrial
nos ajudam a compreender o significado real dos investimentos estrangeiros existentes em um país
como o Brasil. Não se pode reduzir esse problema à propriedade de ativos, pois a propriedade das
ações de qualquer grande empresa estrangeira cabe a milhares de acionistas informados sobre a
cotação de suas ações na bolsa, mas com pouca noção sobre onde estão localizadas as “suas” fábricas.
O que realmente interessa é o comportamento dessas empresas como elementos de um sistema de
poder, porquanto as filiais são controladas pela administração da matriz e não pelos acionistas. Acima
de tudo, está a questão da captação da poupança. Em uma economia com as características da
brasileira, em que as taxas de salários pouca relação têm com as elevações de produtividade, as
empresas estão em situação privilegiada para reter em sua totalidade os benefícios do progresso
tecnológico. Em outras palavras: nessa economia, o problema criado pela captação e apropriação de
poupança coletiva pela empresa tem uma gravidade ainda maior, pois os setores em que é mais rápido
o progresso tecnológico estão controlados por grandes empresas estrangeiras. Tidos em conta os dois
fatores — retenção pela empresa dos frutos do progresso tecnológico e controle por grupos
estrangeiros das empresas que operam nos setores de vanguarda tecnológica — impõe-se a conclusão
de que tanto a industrialização como a assimilação do progresso tecnológico favorecem o controle do
sistema econômico por grupos estrangeiros.
Ademais, existe a questão da autonomia e da coerência do sistema de decisões econômicas. Se umas
poucas dezenas de grupos estrangeiros controlam, por suas filiais, grande parte do setor moderno da
economia do país, que grau de autonomia corresponde aos centros nacionais de decisão? Não devemos
esquecer que as filiais das empresas estrangeiras estão inseridas no sistema de poder vigente no país
que as acolhe, ao mesmo tempo que são parte integrante de conjuntos cujos centros principais se
situam em outro país. Esse caráter ambíguo da empresa estrangeira compromete necessariamente a
eficácia dos centros nacionais de decisão. Não é esse um problema específico do Brasil. Mesmo no
Canadá, cujo desenvolvimento é em grande parte obra de empresas estrangeiras, e onde sempre
prevaleceu a doutrina mais liberal a esse respeito, se está tomando consciência da desarticulação que
significa para um sistema econômico depender de decisões tomadas no estrangeiro em setores
fundamentais.
Os problemas que vimos de referir são dos mais complexos entre os que cabe considerar em uma
política de desenvolvimento nacional. A economia de qualquer país, mas particularmente a de um país
subdesenvolvido, necessita assimilar o progresso tecnológico numa frente mais ampla possível. Ora,
alienados pelas ilusões do laissez-faire, muitos desses países não se prepararam para enfrentar o
problema. Conforme já observamos, o progresso tecnológico tem sido no Brasil uma consequência do
desenvolvimento e não o seu motor, um subproduto de certos investimentos e não algo inerente ao
processo de formação de capital. À falta de uma política de fomento e disciplina da assimilação do
progresso tecnológico, chegou-se a uma situação em que empresas estrangeiras são as principais
beneficiárias do avanço da técnica que se assimila. Trata-se de problema que requer uma abordagem
global, no quadro de uma política visando fomentar a criação e a adaptação de novas técnicas, bem
como sua assimilação.
Tanto a questão da apropriação da poupança coletiva, por meio dos fundos de amortização e dos
chamados lucros retidos, como a do exercício de um poder de crescente ilegitimidade, somente
poderão encontrar solução no quadro de uma transformação do estatuto da empresa em geral, levando
em conta as características específicas da grande empresa e, mais ainda, da grande empresa
estrangeira. Como conciliar a necessária autonomia das empresas e seu acesso a fontes seguras de
financiamento com a difusão em benefício da coletividade dos frutos do progresso tecnológico? Como
evitar que o poder que algumas delas exercem extrapole os limites definidos por órgãos mandatados
para interpretar o interesse público? Ou ainda, como assegurar que empresas estrangeiras pautem o
seu comportamento pelas diretrizes estabelecidas por órgãos orientadores da economia nacional?
Esse problema tem muitas faces, e está longe de nós a pretensão de abordá-las exaustiva e
cabalmente. Antes de tudo, convém lembrar que a apropriação de poupança coletiva, realizada pela
empresa no seu esforço de crescimento, favorece em última instância o acionista, elemento passivo no
processo de desenvolvimento. A solução desse aspecto do problema terá de ser encontrada através de
uma fórmula que permita à coletividade recuperar os frutos dessa poupança e participar dos benefícios
do progresso técnico sem afetar o processo de crescimento da empresa. Em outras palavras, parte
substancial do incremento do valor real dos ativos, decorrente do investimento dos fundos de
depreciação, e outra não menos importante dos lucros retidos, deveriam ser transformadas em
certificados de participação emitidos em favor de instituições ligadas à pesquisa básica e tecnológica,
à formação de quadros médios e superiores, e ao investimento de infraestrutura. O argumento que
surge de imediato é que tal política desencorajaria os investimentos estrangeiros no país.
Qual é a significação real desses investimentos? A média anual dos investimentos diretos líquidos
norte-americanos no Brasil, no período de 1962 a 1965, não foi muito superior a 10 milhões de
dólares, ao passo que os investimentos financiados com lucros retidos (não contadas as reservas de
depreciação) se aproximaram de 90 milhões de dólares, anualmente. O grosso dos verdadeiros
investimentos estrangeiros que se realizam em nosso país assume a forma de empréstimos a longo
prazo ou de financiamentos a médio prazo de equipamentos adquiridos no estrangeiro. Não devemos
esquecer que a assimilação da tecnologia moderna pode igualmente ser feita, na maioria dos casos,
mediante o licenciamento de patentes e contratos de assistência técnica. Em realidade, tem sido essa a
forma principal de propagação da técnica nos países de industrialização mais rápida. O Japão tem se
apoiado essencialmente no licenciamento de patentes, conservando em mãos de grupos nacionais o
poder efetivo de decisão. Nesse país, onde a assimilação da tecnologia se fez com uma rapidez sem
paralelo, o sistema nacional de decisões preservou o máximo de autonomia.
A busca de uma legitimidade para o poder que exercem as grandes