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Democracia em Risco   Vários Autores

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Democracia em Risco? [e-Livros]
 
 
 
 
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 Democracia em Risco? [e-Livros]
 
 
 
 
	
 
 
 Democracia em Risco? [e-Livros]
 
 
 
			Sumário
 Nota dos editores
 
 Polarização radicalizada e ruptura eleitoral
Sérgio Abranches
 
 Deus acima de todos
Ronaldo de Almeida
 
 A comunidade moral bolsonarista
Angela Alonso
 
 Uma história de dois azares e um impeachment
Celso Rocha de Barros
 
 Em nome do quê? A política econômica no governo Bolsonaro
Monica Baumgarten de Bolle
 
 Democracia e autoritarismo: Entre o racismo e o antirracismo
Petrônio Domingues
 
 Psicologia das massas digitais e análise do sujeito democrático
Christian Ingo Lenz Dunker
 
 A queda do foguete
Boris Fausto
 
 Depois do temporal
Ruy Fausto
 
 Savonarolas oficiais
José Arthur Giannotti
 
 A política brasileira em tempos de cólera
Angela de Castro Gomes
 
 Diante da realidade, seis ficções epistemológicas
Ronaldo Lemos
 
 A marcha brasileira para a insensatez
Carlos Melo
 
 A política do pânico e circo
Conrado Hübner Mendes
 
 Uma guinada equivocada na agenda da educação
Paula Louzano e Gabriela Moriconi
 
 Desafios para a comunidade e o movimento LGBT no governo Bolsonaro
Renan Quinalha
 
 As armadilhas da memória e a reconstrução democrática
Daniel Aarão Reis
 
 El Salvador A propósito da força e da fragilidade
João Moreira Salles
 
 A bolsonarização do Brasil
Esther Solano
 
 Diplomacia da ruptura
Matias Spektor
 
 O passado que não passou
Heloisa Murgel Starling
 
 Sismografia de um terremoto eleitoral
André Singer e Gustavo Venturi
 
 Notas
 
 Democracia em Risco? [e-Livros]
 
 
 
			Nota dos editores
A ideia deste livro surgiu a menos de dez dias do segundo turno das eleições presidenciais de 2018. Parecia clara, já àquela altura, uma profunda reconfiguração da política brasileira. Fato novo, um candidato de extrema direita — de retórica virulenta e ideias conservadoras em matéria de costumes, mas vestindo novíssimo traje ultraliberal em assuntos econômicos — assomava como contendor (ao menos estatisticamente) imbatível, deixando para trás velhas figuras e partidos que haviam dominado a cena desde a conformação da Nova República. 
Conscientes de nosso papel de estimular a discussão de ideias em momentos singulares, decidimos convidar intelectuais habituados ao debate público, das mais diversas áreas (mas com predomínio, talvez natural, dos que pensam a política, em sentido amplo), a escreverem artigos de interpretação, a quente, do fenômeno que vivíamos. Muitos aceitaram o desafio, que não é pequeno, pois aos autores não se deu o benefício do tempo — nem para que fizessem uma análise de fatos mais sedimentados, nem para que preparassem 
os textos num prazo que seria o ideal. Por isso, a todos, somos muito gratos. 
O tempo exíguo em que este projeto foi concebido e executado também terá sido a causa de eventuais deficiências e ausências, pelas quais os editores assumem responsabilidade integral. Era nosso desejo intervir no debate com rapidez, e ajudar na compreensão de um período que, tudo indica, virá a ser crucial nos rumos que tomarão nosso país e nossa sociedade. 
 
Dezembro de 2018 
 
 Democracia em Risco? [e-Livros]
 
 
 
			Polarização radicalizada e ruptura eleitoral
			Sérgio Abranches
ELEIÇÕES DISRUPTIVAS
A eleição geral de 2018 foi disruptiva. Encerrou o ciclo político que organizou o presidencialismo de coalizão brasileiro nos últimos 25 anos e acelerou o processo de realinhamento partidário que já estava em curso, pelo menos desde 2006. Rompeu o eixo político-partidário que organizou governo e oposição nas últimas seis eleições gerais e que era movido pela disputa polarizada entre o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) pela Presidência da República, enquanto os demais partidos se limitavam a disputar posições no Congresso para garantir assento na coalizão de governo. 
Mas não estamos observando um processo de realinhamento clássico, em que um sistema partidário substitui o anterior em uma rodada eleitoral. Ele está se fazendo por meio de um progressivo desalinhamento do sistema de partidos. Uma crise, portanto, que ainda não tem solução emergente. Cumpriram-se, contudo, algumas das condições que caracterizam o realinhamento: uma mudança clara e forte no equilíbrio de forças entre os partidos e uma troca radical no poder governamental — no caso, da esquerda tradicional para a direita ultraconservadora. 
Alguns partidos, especialmente o Partido Democrático Trabalhista (PDT), o Partido Socialista Brasileiro (PSB) e a Rede, tentaram confrontar a polarização pela Presidência em alguns desses pleitos. Marina Silva, em 2010, pelo Partido Verde (PV), e, em 2014, pelo PSB, foi quem chegou mais perto de consolidar essa terceira via. O sucesso de sua candidatura, com 19,3% dos votos, em 2010, dispondo de 1,23 minuto de tempo de TV, e em 2014, com 21,3% dos votos e 2,3 minutos de tempo de TV, prenunciava o declínio do peso dos recursos tradicionais de campanha. Ciro Gomes (PDT), em 2018, ficou bem mais distante disso, com 12,5%, pouco mais que os 11% que obteve nas eleições de 1998. 
As rupturas de 2018 se deram em dois planos. Os resultados do primeiro turno mostraram a aceleração do desalinhamento partidário que vinha ocorrendo mais gradualmente desde 2010, com o declínio do tamanho médio das bancadas na Câmara e o aumento da fragmentação partidária no Congresso. Além disso, o PSDB ficou fora, pela primeira vez, da disputa pela Presidência. O partido ganhou as eleições presidenciais no primeiro turno, com Fernando Henrique Cardoso, em 1994 e 1998, e esteve no segundo turno contra o PT em 2006, 2010 e 2014. O segundo turno da eleição presidencial de 2018, com a derrota do PT para um candidato de partido inexpressivo e sem estrutura política de campanha, completaria a ruptura. Era o fim do ciclo PT-PSDB do presidencialismo de coalizão na Terceira República, que organizara governo e oposição desde 1994. O realinhamento partidário tende a se acelerar ainda mais e a se aprofundar, com a proibição das coligações em pleitos proporcionais. Essa nova regra já deve ter alguma influência nas eleições municipais de 2020, mas terá efeito pleno nas eleições gerais de 2022. Em algum momento levará à substituição do sistema partidário em desagregação por outro mais articulado. 
O fim do ciclo PT-PSDB na Presidência da República e a hiperfragmentação das bancadas desorganizaram completamente o jogo político-partidário que assegurou a estabilidade democrática e o funcionamento do presidencialismo de coalizão por quase um quarto de século. Esse sistema, todavia, dava sinais de estar no seu ocaso, com a rápida perda de qualidade das políticas públicas, o desalinhamento partidário e a contaminação generalizada do sistema político pela corrupção partidário-empresarial. 
As eleições legislativas revelaram ampla rejeição aos partidos tradicionais. O PT conquistou a maior bancada na Câmara, mas perdeu catorze cadeiras, confirmando um declínio iniciado em 2006. O PMDB perdeu 32 representantes e caiu da segunda maior bancada para a quarta, igualando-se ao PSB. Com 29 deputados cada, Democratas (DEM) e PSDB (que perdeu 25 cadeiras) deixaram o grupo dos cinco maiores partidos da Câmara. Em paralelo a isso, o Partido Social Liberal (PSL), de Bolsonaro, que havia eleito apenas