(Livro completo)   Maria Montessori   A criança
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(Livro completo) Maria Montessori A criança


Disciplina<strong>educaçã</strong>3 materiais
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MARIA
MONTESSORI
Maria Montessori
A criança
CIRCUtO DO UVRO
Sumário
Prefácio: Infância, problema so c ia l ................................ 7
Primeira parte
1. O século da crian ça..................................................... 15
2. O acusado ..................................................................... 21
3. Intervalo biológico....................................................... 25
4. O recém-nascido ........................... . ........................... 31
5. Os instintos n atu ra is.................................................. 38
6. O embrião esp iritu al.................................................. 41
7. As delicadas estruturas psíquicas............................... 50
8. A o rd em ......................................................................... 63
9. A inteligência................................................................ 74
10. Os conflitos durante o desenvolvimento................ 84
11. Andar ................................................................ 89
12. A mão ............................................................................ 93
13. O ritmo ......................................................................... 100
14. A substituição da personalidade................................ 103
15. A atividade m o to ra ..................................................... 108
16. A incompreensão......................................................... 112
17. Intelecto de amor ....................................................... 115
Segunda parte
18. A educação da crian ça................................................ 123
19. A repetição do exercício........................................... 132
20. Livre escolha ................................................................ 134
21. Os brinquedos.............................................................. 136
22. Prêmios e castigo s....................................................... 137
23. O silêncio ..................................................................... 138
5
24. A dignidade .................................................................. 141
25. A disciplina .................................................................. 145
26. O início da aprendizagem ......................................... 147
27. Paralelos físicos ........................................................... 152
28. Conseqüências ............................................................. 153
29. Crianças privilegiadas ................................................ 159
30. A preparação espiritual do professor....................... 165
31. Os desvios .................................................................... 170
32. As fugas ...................................................................... 172
33. As inibições ............................................................... 175
34. As curas ............................................................. 178
35. A dependência a fe tiv a ................................................ 181
36. A posse ......................................................................... 183
37. O p o d e r ......................................................................... 186
38. O complexo de inferioridade.................................... 188
39. O medo ......................................................................... 192
40. As mentiras .................................................................. 194
41. Reflexos sobre a vida f ís ic a ....................................... 198
Terceira parte
42. O conflito entre o adulto e a criança..................... 205
43. O instinto do trabalho................................................ 207
44. As características dos dois tipos de trabalho . . . . 211
45. Os instintos orientadores ......................................... 220
46. A criança-professora.................. ................................. 228
47. A missão dos p a i s ....................................................... 231
48. Os direitos da criança................................................ 232
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Prefácio
Infância, problema social
Iniciou-se há alguns anos um movimento social a favor 
da infância, sem que alguém em particular tomasse tal ini­
ciativa. Ocorreu algo semelhante a uma erupção natural em 
terreno vulcânico, na qual produzem-se espontaneamente 
fogos dispersos aqui e acolá. Assim nascem os grandes movi­
mentos. Não há dúvida quanto à contribuição da ciência: 
foi a iniciadora desse movimento. A higiene começou a com­
bater a mortalidade infantil; posteriormente, demonstrou 
que a criança era vítima da fadiga estudantil, mártir desco­
nhecida, condenada à pena perpétua, pois sua infância termi­
nava no momento da conclusão da escola elementar.
A higiene escolar descreve crianças desventuradas, de 
espírito oprimido e inteligência cansada, ombros encurvados 
e peito estreito, uma infância predisposta à tuberculose.
Finalmente, após trinta anos de estudos, consideramos 
as crianças seres humanos abandonados pela sociedade e, 
sobretudo, por aqueles que lhes deram e conservam a vida. 
O que é a infância? Um incômodo constante para o adulto 
preocupado e cansado por ocupações cada vez mais absor­
ventes. Já não existe lugar para as crianças nas residências 
mais acanhadas das cidades modernas, onde as famílias se 
acumulam em espaço reduzido. Não há lugar para elas nas 
ruas porque os veículos se multiplicam e as calçadas estão 
apinhadas de pessoas apressadas. Os adultos não dispõem de 
tempo para se ocuparem com elas, pois são oprimidos por 
compromissos urgentes. Pai e mãe são ambos obrigados a 
trabalhar e, quando falta emprego, a miséria atinge tanto 
adultos como crianças. Mesmo nas melhores condições, a 
criança fica confinada em seu quarto, entregue a desconhe­
cidos assalariados, não lhe sendo permitido acesso às partes 
da casa onde habitam as pessoas às quais deve a vida. Não 
existe qualquer refúgio no qual a criança se sinta compreen­
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dida, onde possa exercitar a atividade própria da infância. 
Deve comportar-se bem, manter-se em silêncio, sem tocar 
em coisa alguma porque nada lhe pertence. Tudo é inviolável, 
propriedade exclusiva do adulto, vedado à criança. O que 
possui ela? Nada. Há poucas décadas, nern mesmo existiam 
cadeiras para crianças. Donde se originou a célebre expres­
são, hoje apenas metafórica: \u201c Te segurei no colo\u201d .
Quando a criança sentava-se nos móveis dos adultos, 
ou no chão, era repreendida; tornava-se necessário que al­
guém a pegasse no colo para que pudesse sentar. Eis a situa­
ção de uma criança que vive no ambiente dos adultos: um 
importuno, que procura algo para si e não encontra, que 
entra e logo é repudiado. Uma situação semelhante à de um 
homem privado de direitos civis e de ambiente próprio: um 
ser marginalizado pela sociedade, que todos podem tratar 
sem respeito, insultar e castigar, por força de um direito con­
ferido pela natureza \u2014 o direito do adulto.
Em decorrência de um curioso fenômeno psíquico, o 
adulto nunca se preocupou em preparar um ambiente ade­
quado ao seu filho; dir-se-ia que se envergonha dele na es­
trutura social. O homem, ao elaborar suas leis, deixou o pró­
prio herdeiro sem leis e, portanto, fora delas. Abandona-o, 
sem orientação, ao instinto de tirania existente no fundo de 
todo coração adulto. Eis o que devemos dizer a respeito da 
infância que vem ao mundo trazendo novas energias que, na 
verdade, deveriam constituir o sopro regenerador capaz de 
dissipar os gases asfixiantes acumulados de geração em ge­
ração durante uma vida humana cheia de erros.
Repentinamente, porém, na sociedade há séculos cega 
e insensível \u2014 provavelmente desde a origem da espécie 
humana \u2014 surge uma nova consciência relativa ao destino da 
criança. A higiene acorreu em seu socorro como