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Diabetes Mellitus e Doenças Cardiovasculares

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realizado em nove capitais
Tabela 2.3
brasileiras, com a população de 30 a 69 anos, é um marco importante no estudo e no
dimensionamento dessa doença. Seus resultados têm possibilitado o reconhecimento da importância
do diabetes como grave problema de saúde em nosso país.
A Tabela 2.3 apresenta as prevalências de diabetes, de acordo com as cidades participantes.
Pode-se notar que as taxas mais elevadas foram encontradas nas cidades das regiões Sul e Sudeste
do Brasil, entretanto, mesmo nas cidades das regiões Norte e Nordeste, a magnitude da prevalência é
comparável a de países desenvolvidos. Dados mais recentes apontam para taxas mais elevadas,
como 13,5% em São Carlos-P e 15% em Ribeirão Preto-SP.
Prevalência de diabetes mellitus e tolerância à glicose diminuída ajustada por idade em algumas capitais
brasileiras, 1992
 PREVALÊNCIA (%)
CAPITAIS DM PREVIAMENTE DIAGNOSTICADO DM RECÉM-DIAGNOSTICADO DM TOTAL TGD
Belém 3,3 3,9 7,2 9,5
Fortaleza 2,3 4,2 6,5 5,8
João Pessoa 3,8 4,1 7,9 7,2
Recife 3,5 2,9 6,4 5,4
Salvador 4,8 3,1 7,9 4,8
Brasília 3,3 1,9 5,2 4,5
Rio de Janeiro 5,2 2,3 7,5 9,2
São Paulo 4,7 5 9,7 11,2
Porto Alegre 4,8 4,1 8,9 12,2
Total 4 3,4 7,4 7,7
A influência da idade na prevalência do diabetes e na tolerância à glicose diminuída (TGD)
também é evidenciada nesse estudo brasileiro. A prevalência de DM aumenta 6,4 vezes do grupo
etário de 30 a 39 anos para o de 60 a 69; para a TGD, o aumento entre esses grupos etários é de 1,9
vezes. Esse aumento menor com o progredir da idade na prevalência da TGD pode traduzir a
progressão dos indivíduos para DM ou resultar da maior mortalidade por doenças cardiovasculares
nessa categoria.
A incidência do DM2 é difícil de ser determinada em grandes populações, pois envolve o
seguimento durante alguns anos, com realizações periódicas de glicemias. Os estudos de incidência
são geralmente restritos ao DM1, pois em suas manifestações iniciais apresenta sintomas bastantes
característicos. O DM1 parece ser pouco frequente nos países em desenvolvimento, entretanto essa
aparente baixa frequência tem resultado em desinteresse na documentação de sua morbidade. Assim,
deve ser questionado se a real frequência desse tipo de diabetes não é muito subestimada, já que o
DM1 é associado a alta mortalidade nas áreas em que os serviços de saúde são insuficientes ou
inadequados.
Nos últimos anos, em decorrência do desenvolvimento do Projeto DiaMond, apoiado pela
Organização Mundial da Saúde (OMS) e que visa conhecer as variações geográficas na incidência
do DM1, têm surgido diversas publicações sobre sua incidência em diferentes países.
Na Figura 2.1, pode-se observar a grande variabilidade no risco de a população infanto-juvenil
adquirir diabetes, variando de 0,5 por mil indivíduos (Paquistão e Paraguai) a 40,9 por mil na
Finlândia, ou seja, um gradiente superior a 80 vezes.
Figura 2.1 Incidência anual de diabetes mellitus tipo 1 (por 100 mil habitantes) na população com menos de 15 anos em
alguns países.
A incidência do DM1 começa a aumentar a partir dos nove meses e continua a crescer até a idade
de 12 a 14 anos, quando então passa a diminuir. Não existe um consenso quanto à diferença entre
sexos; alguns registros norte-americanos evidenciam um excesso no sexo masculino, particularmente
nas crianças brancas não hispânicas, mas registros escandinavos apontam igualdade na incidência
entre os sexos. Dados de registros populacionais mostram que a incidência de DM1 está aumentando,
particularmente na América do Norte e na Europa, sendo esse aumento mais pronunciado no grupo
etário com menos de 5 anos.
A incidência de DM1 tem sido estudada em relação à sazonalidade do nascimento e do
diagnóstico, sugerindo que existam períodos com maior suscetibilidade. Por exemplo, diferentes
níveis maternos, fetais ou da criança de vitamina D associados com a quantidade disponível de luz
ultravioleta e a localização geográfica poderiam influenciar a imunidade e o metabolismo em
determinados períodos e, assim, contribuir para a diferença norte-sul observada na incidência.
Outros fatores ambientais que possuem variação sazonal, como infecções virais, também poderiam
contribuir para maior incidência em determinadas estações do ano, em particular as mais frias.
Fatores dietéticos têm sido extensivamente estudados, sem resultados conclusivos e consistentes.
Exposição precoce à proteína de leite bovina tem sido relacionada à maior risco de DM1. O estudo
Trial to Reduce Insulin-Dependent Diabetes Mellitus in the Genetically at Risk – TRIGR, em
andamento, tem por objetivo identificar se retardar a exposição à proteína do leite de vaca reduz o
risco de DM1 em crianças geneticamente com maior risco.
MORTALIDADE
Os dados de mortalidade obtidos mediante atestados de óbito subestimam a importância do
diabetes, pois é frequente ele não ser mencionado na declaração de óbito, em especial dos idosos,
nos quais estão presentes simultaneamente várias doenças crônicas. Além disso, também é omitido
com frequência pelo fato de serem suas complicações, particularmente as cérebro e
cardiovasculares, as que figuram como a causa do óbito nesses pacientes, sendo então essas as
causas que figuram nas estatísticas de mortalidade.
De acordo com dados de taxas de mortalidade por diabetes, por 100 mil habitantes, para as
macrorregiões brasileiras, por faixas etárias, para o ano de 2009, pode-se observar o acentuado
aumento na mortalidade, conforme o progredir da idade, crescendo mais de 400 vezes da faixa etária
de 0 a 29 anos para a de 60 anos ou mais. Ou seja, com o envelhecimento populacional que está
ocorrendo no Brasil, o diabetes passará a ter uma maior contribuição para a mortalidade da
população. Nos países ou regiões em que existe carência de recursos médicos, os indivíduos com
DM1 tendem a morrer precocemente por complicações metabólicas agudas (frequentemente por falta
de insulina) ou em razão de infecções (sobretudo a tuberculose). Nesses locais, os indivíduos com
DM2 têm no acidente vascular cerebral (AVC), como complicação da hipertensão arterial, umas das
principais causas de óbito.
A análise da causa de óbito, por idade de início e duração do diabetes, mostra que o coma
Tabela 2.4
cetoacidótico é uma importante causa de óbito para os indivíduos com diagnóstico recente de DM1, e
a nefropatia diabética, para os indivíduos com longa duração da doença. Nos indivíduos com DM2,
as doenças cardiovasculares são a principal causa de óbito.
Na maioria dos países desenvolvidos, quando se analisa apenas a causa básica do óbito,
verifica-se que o diabetes está entre a quarta e a oitava das principais causas. Estudos sobre as
causas múltiplas de óbito, que refletem a frequência da doença por ocasião do óbito, têm mostrado o
quanto é subestimada a importância do diabetes, quando se analisa apenas a causa básica. Estudos
focalizando esse aspecto, realizados nos municípios de São Paulo – SP, Botucatu – SP, São Manoel –
SP, Salvador – BA e Recife – PE, mostram que quando se analisa a mortalidade pelo método das
causas múltiplas, a mortalidade por DM aumenta em até 6,4 vezes.
Na Tabela 2.4 são apresentadas as taxas de mortalidade por diabetes, por faixa etária e
macrorregião geográfica, para o ano de 2010. Pode-se observar a crescente importância do diabetes
como causa de morte com o progredir da idade.
Taxa de mortalidade por diabetes (por 100 mil habitantes), por macrorregião geográfica brasileira, conforme
faixa etária, no ano de 2010
FAIXA ETÁRIA REGIÕES
(ANOS) NORTE NORDESTE SUDESTE SUL CENTRO-OESTE TOTAL
Total 19 33 28,4 30,6 22,3 28,2
0-29 0,4 0,6 0,6 0,5 0,5 0,5
30-39 2,3 3,4 2,9 2,1 2,6 2,8
40-49 9,7 11,9 10,2 8,9 9,8 10,3
50-59 39,9 44,6 35,4 35,1 37,5 37,9
60 ou mais 213,6 263,5 189,3 207,9 191,8 213,4
Fonte: DATASUS/MS, 2014.
O diabetes tem se tornado uma das principais causas de morte nos Estados