A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
81 pág.
Manual de Teologia Católica   Versão Atualizada

Pré-visualização | Página 3 de 20

no confronto com as autoridades civis» (João Paulo II, 1990). Foi no âmbito desta orientação e no exercício do seu Munus docendique a Conferência Episcopal de Moçambique (CEM), iluminada pela luz do Espirito Santo, desejando ver o carácter católico da Universidade Católica de Moçambique (UCM) aprofundado e a consolidar-se cada vez mais, decidiu, sabiamente, introduzir uma cadeira que oferecesse a comunidade académica da UCM, em particular aos seus estudantes, a oportunidade de um contacto com o pensamento e posicionamento católico em algumas áreas do saber e conduta. [2: Tarefa de ensinar. ]
Para o efeito, a CEM constituiu uma equipa para a concretização do projecto. A equipa constituída assumiu o empreendimento e teve como primeira tarefa a concepção do título da cadeira que reflectisse o projecto almejado. Concluiu que o título adequado da matéria a ser ministrada seria: Fundamentos de Teologia Católica. Após a concepção do título, seguiu-se a fase da composição do respectivo Manual para assegurar a harmonização dos conteúdos a serem oferecidos durante a leccionação da cadeira nas diferentes Unidades Básicas da UCM. 
De salientar que não é propósito do manual esgotar toda a reflexão teológica, mas dar, de maneira sucinta, uma ideia de alguns fundamentos do pensamento e posicionamento católico sobre as principais áreas teológicas. O mesmo, procura, igualmente, abrir caminhos para posteriores aprofundamentos dos assuntos abordados e outros a eles conexos, para além daqueles que a discussão teológica durante a lecionação poderá suscitar. 
Com efeito, o Manual proposto tem a seguinte estrutura: O primeiro capítulo é um tratado sobre a Fé católica, o conceito e história de teologia, a revelação que culmina com a Pessoa de Cristo. O segundo capítulo é uma abordagem eclesiológica, isto é, o mistério da Igreja, a figura de Maria, modelo dos crentes, enquanto a Igreja é assembleia dos crentes, e os Sacramentos. Por sua vez, o terceiro capítulo debruça-se sobre a Pessoa humana à luz da fé, procura reflectir sobre a pessoa humana nas suas variadas dimensões, enquanto o quarto capítulo ocupa-se das problemáticas relacionadas com a Bioética, mormente aquelas questões que desafiam a consciência como é o caso do aborto. O quinto e último capítulo apresenta o pensamento social da Igreja, a Igreja intervindo nas questões sociais em favor do homem, porque o homem é o caminho da Igreja, como defende João Paulo II na sua Encíclica programática Redemptor hominis, no início do seu pontificado. 
Auspicia-se que esta cadeira suscite nos destinatários um interesse em matérias de natureza religiosa e dê uma resposta do sentido último da vida humana que, para os cristãos católicos encontra a sua reposta em Deus. Exclui-se das perspectivas deste projecto, o fomento do proselitismo, isto é, a conversão de todos ao catolicismo. 
 	 
CAPÍTULO I: A FÉ CATÓLICA 
1.1. Conceito de FÉ: 
Entende-se por fé a convicção, confiança e abandono, que uma pessoa alimenta na sua relação com Deus. A fé é sempre uma resposta positiva à iniciativa reveladora de Deus. Diante dos sinais reveladores da sua presença do ser humano, este é convidado a responder por uma relação de confiança e fé neste Deus que se dá a conhecer. A fé consiste no escutar a palavra da pregação e para conduzir á obediência; vice-versa, a obediência é escuta. 
1.1.1. Crenças 
Chama-se crença a convicção ou a lógica de pensamento, a filosofia que sustenta uma cosmovisão e os valores apresentados por uma determinada cultura.As crenças representam sempre um sistema de valores adquiridos, assimilados e proclamados como absolutos em si mesmos e por isso mesmo inegociáveis. A crença é uma convicção arraigada na pessoa que orienta as atitudes e influencia a interpretação do real. 
1.1.2. Teologia ciência da fé 
Os termos: 
Teologia = teo + logia θєōs, Deus + λοΥiα = discurso sobre Deus; arte de dirigir o espírito na investigação da verdade do discurso sobre Deus. 
O dicionário de teologia define a Teologia como a ciência das coisas divinas. 
1.2. Breve historial de Teologia 
1.2.1. Um pouco de história do termo Teologia 
Na antiguidade a teologia era entendida como um hino, onde Deus era glorificado mais do que explicado pelo espírito humano. Era o ato mesmo de louvar a Deus. Não se tratava de explicar Deus, que é inexplicável, mas de o Louvar sem cessar, pela sua grandeza. 
Este sentido continua muito vivo nos escritos dos padres da Igreja, mesmo os que como Origines farão mais uso instrumental de noções tiradas da filosofia grega ou os que como os grandes teólogos ditos da Capadócia (São Basílio de Cesareia, São Gregório de Nazianzo e São Gregório de Nissa) se servem das noções teológicas para lutar contra os erros resultantes de uma ilusão racionalista sobre a nossa capacidade de clarificar os mistérios divinos. [3: Padres da Igreja, Santos Padres ou Pais da Igreja foram influentes teólogos, professores e mestres cristãos e importantes bispos. Seus trabalhos académicos foram utilizados como precedentes doutrinários para séculos vindouros. Os padres da Igreja são classificados entre o século II e VII.O estudo dos escritos dos Padres da Igreja é denominado Patrística. ]
 Para o pseudo- Dionísio, a teologia mística é a única teologia plenamente digna desse nome, ultrapassando as analogias insuficientes numa experiência que se proclama ela mesma inexprimível. [4: Pseudo-Dionísio, o Areopagita ou simplesmente Pseudo-Dionísio é o nome pelo qual é conhecido o autor de um conjunto de textos (Corpus Areopagiticum) que exerceram, segundo os historiadores da filosofia e da arte, uma forte influência em toda a mística cristã ocidental na Idade Média. Até o século XVI, os textos tinham valor quase apostólico, já que Dionísio fora o primeiro discípulo de Paulo de Tarso. Nessa época surgiram as primeiras controvérsias a respeito da sua autenticidade. Argumentava-se que os textos continham marcada influência de Proclo, da escola neoplatônica de Atenas, e portanto não poderiam ser anteriores ao século V. Mas somente a partir do século XIX essa tese foi aceita e o autor desconhecido passou e ser chamado Pseudo-Dionísio. Apesar disso, por sua linguagem poética e pela coerente exposição de ideias, o Corpus permanece considerado como expressão autêntica do neoplatonismo ateniense e da tradição mística cristã. ]
 Até antes da Idade Média latina a teologia era concebida, particularmente na ordem monástica, não como uma ciência propriamente dita das coisas divinas, mas como meditação dos mistérios. A Teologia nessa altura é considerada importante apenas pelo apelo que faz à razão para afastar as falsas interpretações preparar a contemplação onde a razão é simplesmente ultrapassada. 
 Santo Anselmo, um dos primeiros a fazer o mais rigoroso uso do pensamento dialético em teologia. [5: Anselmo escreveu uma obra sobre a fé que busca a razão. É considerado um dos iniciadores da tradição escolástica. "Não só a habilidade dialética fez de Anselmo o precursor da Escolástica, como também o princípio teológico fundamental que adotou: fides quarens intelectum "a fé em busca da inteligência". Foi ele também quem forjou uma nova orientação à teoria dos universais e que reverteu em grande proveito para os intuitos da Teologia racional". ][6: Dialética conjunto dos meios postos em obra na discussão em vista a demonstrar ou refutar. Ex.: tese e anti- tese + resolução em síntese. ]
 Pedro Abelardo, no século XII - Tende a racionalizar completamente a teologia, ao mesmo tempo que suscita em São Bernardo de Claraval, por exemplo, uma recusa apaixonada. Provoca noutros pensadores, mesmo próximos deste último como Guilherme de Saint-Thierry, um esforço para utilizar mais sistematicamente uma crítica racional dos conceitos e uma construção racionalmente ajustada das verdades da fé num sistema ordenado. 
 S. Alberto Magno no século XIII e S. Tomás de Aquino definem a Teologia como a ciência sagrada, que coloca o conjunto das verdades da fé num sistema racional, à partir de