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Manual de Teologia Católica   Versão Atualizada

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centro e fim da criação 
A história iniciada com a criação tem o seu ponto culminante naquele constituído por Deus pela ressurreição, Cristo, Palavra que ultimamente Deus falou (Hb1,1) e inclui em si a palavra sobre a natureza da criação. Cristo é identificado como salvador e posteriormente inserido na dimensão cósmico-criadora e, a Criação que já havia recebido a função histórico-salvífica passa a uma conotação cristológica: Cristo é, «ao mesmo tempo, como princípio, o centro e o fim da criação» (Cl1,15-20). Com a Sua presença, a Criação assume novas dimensões da nova criação. 
1.5.4. Dificuldades e objecções 
A doutrina da criação suscitou sempre grandes dificuldades e objecções no decurso do tempo no âmbito do seu desenvolvimento. Foi negada a criação como obra de Deus. Para além do ateísmo científico que a partir da teoria da explosão primordial diz o mundo ter um longínquo começo em que todas as radiações e toda a matéria estavam numa bola primordial de fogo, e do materialismo dialéctico, encontramos outros escolhos (o dualismo, o panteísmo e o problema do mal) contra os quais sempre embate a reflexão da Igreja, no que toca à doutrina da criação. 
Santo Irineu afirmou que a criação é uma iniciativa do Pai: “A vontade de Deus Pai é o substrato de todas as coisas” (Irineu, p.44). O Deus criador é o Pai de Jesus Cristo e toda a Trindade opera na criação. Para ele, há somente um Deus em quem tudo tem origem. A economia salvífica una de Deus se estende da criação até a sua consumação final, e a chave para ela é o Filho eterno, o Verbo que se fez carne e por sua encarnação, resume em si toda a humanidade e até o universo. O Filho, Logos de Deus é o ápice de toda a revelação, corporalmente humano em Jesus Cristo nele se experimenta a salvação de Deus a vida em liberdade, amor e Imortalidade. 
Hoje, a teologia no seu dever, apresenta-nos a criação no quadro dos escritos neotestamentários, que também são a base dos ensinamentos do concílio Vaticano II. Substancialmente, a criação se nos apresenta com significação da história da salvação cujo centro é mistério da Incarnação. Segundo as Escrituras, Cristo é a perfeita «imagem de Deus invisível, o primogénito de toda a criatura» (Cl 1, 15.18). Ele foi predestinado por Deus antes da criação do mundo, para recapitular consigo todas as coisas, as do céu e da terra (Cf. Ef 1,3.10). Isto quer dizer que no plano de Deus, a criação e a salvação estão entrelaçadas de modo que se identificam. Assim, a protologia tem na escatologia a sua concretização. Estes são os elementos teológicos na definição da criação que nos levam a entender a criação como um mistério da fé em torno do qual ocorrem discussões sobre a sua relação com a conservação, pois, «depois da criação, Deus não abandona as coisas e as pessoas ao seu destino, sem se preocupar mais com elas» (Frosini, 2011, p.121). Esta relação nunca se pode interromper. 
1.6. A dimensão trinitária da criação 
Na concepção cristã, a criação do mundo é um acontecimento trinitário: o Pai cria pelo Filho e no Espírito santo. Durante muito tempo, a tradição teológica compreendeu a criação como obra do Pai, Senhor de sua criação (monoteísmo).Posteriormente, desenvolveu-se uma doutrina especificamente cristológica da criação, com ênfase na criação através da Palavra. Diz o CIC 229 «Insinuada no Antigo Testamento, revelada na Nova Aliança, a acção criadora do Filho e do Espírito Santo, inseparavelmente unida à do Pai, é claramente afirmada pela regra de fé da Igreja “existe um só Deus. Ele é o Pai, o Criador, o Autor, o Organizador. Ele fez todas as coisas por Si próprio, quer dizer, pelo seu Verbo e pela sua Sabedoria, pelo Filho e pelo Espírito Santo” “que são como as suas mãos” (Santo Ireneu). A Criação é a obra comum da Santíssima Trindade» (Frosini, 2011, p.124). 
1.7. A Revelação em Abraão, Moisés e profetas 
O projecto da revelação obedeceu um plano. “A seu tempo Deus chamou Abraão, para fazer dele um grande povo, povo esse que depois dos Patriarcas, ensinou por meio de Moisés e dos Profetas para que O reconhecessem como único Deus, vivo e verdadeiro, Pai providente e justo juiz, e para que esperassem o Salvador prometido” (Concílio Vaticano II, O.C, 3). Como se pode depreender do texto conciliar, Deus se revelou primeiro a Abraão, em seguida a Moisés, sucessivamente aos profetas e quando chegou a plenitude dos tempos, depois de ter falado muitas vezes e de muitos modos falou por meio do seu Filho, Jesus Cristo (Heb 1,1-2), o profeta por excelência. Neste projecto estão envolvidos a palavra, o encontro, a experiência num percurso histórico. Os padres conciliares não deixam margens para dúvidas que “a economia cristã, como nova e definitiva aliança, jamais passará, e não se há- de esperar outra revelação pública antes da gloriosa manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo” (Concílio Vaticano II, O.C, 4). 
Abraão respondeu à chamada de Deus e obedeceu ao seu projecto partindo sem saber para onde ia (Gen 12). Confiou-se aos desígnios de Deus. O resultado dessa sua confiante abertura é ser pai de um grande povo. É nosso pai na fé. É patriarca, isto é, arquétipo da fé. O Deus que se revela em Abraão é o Deus da promessa. Um Deus que promete e cumpre a sua promessa de salvação. 
Deus revelou se a Moisés oferecendo a libertação ao povo escravo no Egipto. O Seu nome “ Sou Aquele que Sou” revela uma solicitude de liberdade para o ser humano. Por isso o Deus de Moisés é o Deus Libertador. 
Os Profetas foram um momento importante na revelação de Deus. Eles testemunham o cuidado de Deus pela justiça no seio da humanidade. Eles aparecem como os defensores dos pobres e dos vulneráveis da sociedade. Assim se revela um Deus que toma partido dos pobres e injustiçados. 
Nos últimos tempos Deus se revelou em Jesus Cristo como o centro e o ponto definitivo da história de Salvação (Fisichella, 2002, p. 81). A Lei e os profetas são orientados a ele e somente nele encontram pleno cumprimento. 
De facto toda a vida de Jesus foi marcada por eventos que revelam algo transcendente. O seu Baptismo, a sua pregação, os milagres, a sua morte por amor e finalmente a sua gloriosa Ressurreição só podem ser revelação de Deus. 
Os Sinópticos descrevem a actividade reveladora de Jesus com os verbos pregar e ensinar. Jesus pregou o reino de Deus e testemunhou com a sua própria vida: “Convertei-vos porque o reino de Deus está próximo” (Mt 4, 17). 
No Evangelho de São João Jesus é o Logos como sinónimo de Palavra de Deus. Deus não fez ouvir a sua voz mas a sua palavra que se pode reconhecer somente em Cristo (Jo 5, 37-38). A invisibilidade do Pai torna-se visível na glória do Filho, pois este é o unigénito, isto é, o único que possui a vida mesma do Pai, o único que pode revelar o Pai dada a sua preexistência junto de Deus (Jo 1,1-2). 
Com S. Paulo pode se afirmar que quando chegou a plenitude dos tempos Deus enviou o seu Filho nascido duma mulher […] para resgatar aqueles que estavam sob o domínio da Lei, para que recebessem a adopção de filhos (Gal 4,4-5). Paulo identifica o tempo último esperado com o tempo e a história de Cristo. 
Na carta aos Hebreus Deus que tinha já falado nos tempos antigos muitas vezes e de muitos modos aos pais por meio dos profetas, ultimamente, nestes dias, falou a nós por meio do Filho que constitui herdeiro de todas as coisas e por meio do qual fez também o mundo (Heb 1, 1-2). 
1.7.1. Transmissão da Revelação divina 
Cristo mandou os Apóstolos que pregassem a todos os homens o Evangelho, prometido pelos profetas e por ele cumprido e promulgado pela sua própria boca, como fonte de toda a verdade salvadora e de toda a disciplina de costumes, comunicando-lhes assim os dons divinos (Concílio Vaticano II, Dei Verbum, 7). Os Apóstolos foram fiéis ao mandato e anunciaram o Evangelho com palavras e a própria vida. 
Para que o Evangelho permanecesse para sempre integro e vivo na Igreja, os Apóstolos deixaram os Bispos como seus sucessores, “entregando-lhe o seu próprio magistério” (Irineu, III,3). Portanto, a sagrada