23  Tumores do Coração
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FERREIRA - ATHENEU
FER-23 - 4ª Prova 06/09/99

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INTRODUÇÃO

Até algumas décadas atrás, o estudo dos tumores
do coração estava limitado aos achados de autópsia.
Graças, porém, ao desenvolvimento da cirurgia cardía-
ca aberta, os neoplasmas passaram a ser estudados tam-
bém no campo da patologia cirúrgica, a qual permite
estabelecer uma correlação anatomoclínica in vivo e
não só no post-mortem, como antigamente. Ademais,
os novos métodos de propedêutica armada tornaram
possível o diagnóstico intra-vitram de tumores em in-
divíduos às vezes totalmente assintomáticos.

O estudo dos tumores primários e secundários do
coração implica conhecimento prévio de cinco fatos es-
senciais relacionados com a anatomia patológica geral:

1) As fibras musculares cardíacas, comportando-se
como as células permanentes de Bizzozero, não têm ca-
pacidade de multiplicação. Desta forma, os agentes
cancerígenos não encontram no miocárdio o locus pre-
ferentialis para sua ação, tal como ocorre nas células lá-
beis, isto é, células em constante reprodução, o caso
dos epitélios de revestimento e os órgãos hematopoiéti-
cos9.

Daí o fato de os tumores primários, além de raros,
serem congênitos e encontrados principalmente em cri-
anças.

2) Os tumores secundários por via hematogênica
seriam também raros porque metástases dependem da
circulação coronária. Como o enchimento das coroná-
rias ocorre durante a diástole, as células cancerosas,
eventualmente presentes no sangue, não conseguem
penetrar no miocárdio durante a sístole, porque os ósti-
os dessas artérias ficam ocluídos pelas valvas aórticas.
É evidente que, durante a diástole, a quantidade de cé-

lulas cancerosas que reflui para penetrar nos óstios se-
ria bem menor ou até inexistente.

3) Ademais, é preciso levar em conta o locus prefe-
rencialis para o desenvolvimento das metástases, isto
é, o órgão onde as células cancerosas imigradas encon-
tram o meio metabólico mais favorável para sua multi-
plicação7.

4) Além da natureza primária ou secundária dos tu-
mores do coração, sua nomenclatura8 depende do com-
portamento benigno ou maligno da neoplasia e da ori-
gem embriológica dos três componentes do órgão:

a) Miocárdio = mesênquima = rabdomioblasto;
b) Endocárdio = mesênquima = endotélio;
c) Pericárdio = celoma = mesotélio.
5) Dentro da raridade dos tumores primários do co-

ração, o mais freqüente é o chamado mixoma, confun-
dível com um trombo organizado3,9 (Fig. 23.1).

Por sua vez, a trombose intracardíaca é comum, re-
sultando de duas premissas da tríade de Virchow: retar-
do da corrente sangüínea e alteração da parede vascu-
lar. O retardo da corrente sangüínea, coadjuvado pelos
remoinhos formados nas câmaras cardíacas, ocorre na
fibrilação atrial, dando como resultado um trombo atri-
al flutuante (ball thrombus)5,9 (Fig. 23.2).

A alteração da parede do endocárdio, observada no
infarto do miocárdio, produz um trombo mural no ven-
trículo. No caso de invasão de um tumor maligno pri-
mário no lume de uma veia, há uma alteração da crase
sangüínea, isto é, estabelece-se a terceira premissa da
tríade de Virchow para a patogenia da trombose. As
plaquetas aglutinam-se em torno das células cancero-
sas, seguindo-se a precipitação de fibrina e a atração
dos leucócitos. Forma-se, assim, um trombo misto,

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contendo, além dos elementos sangüíneos, células can-
cerosas3 (Fig. 23.3).

TUMORES PRIMÁRIOS

RABDOMIOMA

Não se trata de tumor verdadeiro, mas de um amar-
toma, isto é, uma hiperplasia tumoriforme congênita. O
conceito de hamartoma (G. hamartio = defeito, erro +
oma = sufixo de tumor), para designar malformação
congênita tumoriforme constituída por um ou mais te-
cidos próprios do órgão em que se originou18.

Incidência

Os rabdomiomas do coração são raros. Na maioria
dos casos são encontrados em recém-nascidos ou na

primeira infância, e, excepcionalmente, em adultos.
Três quartos dos casos estão associados à esclerose tu-
berosa de Bourneville e a anomalias renais (cistos e tu-
mores)6. A esclerose tuberosa caracteriza-se pela tríade
deficiência mental, ataques epilépticos e adenomas se-
báceos de Springle na face2. O cérebro mostra nodosi-
dades esbranquiçadas na substância cinzenta, formadas
por grandes células gliais. Rabdomiomas múltiplos,
tais como no homem, foram também encontrados em
leitões e cobaias1.

Macroscopia

Incluídos no miocárdio, são representados por nó-
dulos medindo 1 a 2cm de diâmetro, pálidos, de consis-
tência mole, em geral múltiplos mas excepcionalmente
difusos, nas vizinhanças do endocárdio (Fig. 23.4).

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Fig. 23.1— Fases da organização de um trombo numa artéria: A) Trombo cruórico inicial. B) Trombo em vias de organização invadido pelos
vasa-vasorum. C) Trombo organizado e fibrosado: tunelização do trombo e recanalização do vaso3.

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Microscopia

Envolvidos por uma cápsula incompleta que não se
interrompe na continuidade de seus elementos com
aqueles do miocárdio vizinho, são formados por traves
musculares estriadas anastomosadas. O sarcoplasma
compreende um endoplasma compacto contendo o
núcleo e um exoplasma delgado separados um do outro
por grandes vacúolos contendo gl icogênio,
identificado pelo carmim de Best, mas assumindo o
aspecto vazio das células vegetais pela coloração da
hematoxilina-eosina15 (Fig. 23.5).

Devido ao conteúdo dessa substância, o rabdomio-
ma foi também chamado tumor glicogênico. São célu-
las semelhantes às fibras de Purkinje, correspondendo
o rabdomioma a um potencial evolutivo exagerado des-
sas fibras6. Os vacúolos, comprimindo o núcleo, confe-
rem à célula um aspecto aracnóide (spider)11,12 (Fig.
23.6), em cujas malhas citoplasmáticas encontram-se

estriações reveláveis pela hematoxilina-eosina férrica
ou pela hematoxilina fosfotúngstica de Malory12 (Fig.
23.7).

OUTROS TUMORES PRIMÁRIOS BENIGNOS

PAPILOMA

Formado por digitações sustentadas por um estro-
ma conjuntivo e recobertas por endotélio. Mede 3 a
4cm de diâmetro, encontra-se nas válvulas ventricula-
res e sigmóides e pode ser diagnosticado em vida pela
ecocardiografia. Admite-se que provenha de trombo
mural organizado, e ocorre tanto em crianças como em
adultos.

FIBROMA

Encontrado sobretudo em crianças com menos de
10 anos de idade, e localizado na parede dos ventrícu-

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Fig. 23.2 — Trombo intracardíaco flutuante (ball thrombus). O trombo torna-se esferoidal por causa dos remoinhos do sangue intracavitá-
rio5.

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los esquerdo ou direito. Mede 3 a 7cm de diâmetro, e
em 40% dos casos é diagnosticado em crianças com
menos de um ano de idade.

MIXOMA

Além do rabdomioma, outro tumor primário impor-
tante do coração é o mixoma, por sinal o mais freqüente

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Fig. 23.3—Gênese de trombo canceroso e demestástase por via hematogênica: A) Aderência das células cancerosas no endotélio. B) Agluti-
nação das plaquetas com precipitação da fibrina. C) Os leucócitos tendem a reabsorver o trombo e entram em diapedese. D) As células cance-
rosas seguem os leucócitos e penetram nos tecidos perivasculares3.

Fig. 23.4—Múltiplos nódulos de rabdomioma na parede do coração
de um recém-nascido15.

Fig. 23.5 — Quadro histológico de rabdomioma: rabdomioblastos
vacuolados com aspecto de células vegetais15.

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