Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)
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Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)


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de alienação é a propriedade privada 
capitalista (isto é, a propriedade privada dos meios de produção, não a 
propriedade privada em si), cuja abolição representa um passo necessário 
para a eliminação da alienação humana. No Capital, ao analisar o caráter 
de mercadoria que o trabalho toma no capitalismo, Marx retoma essa 
ideia, mas nessa obra prevalece a perspectiva puramente econômica, uma 
vez que a alienação humana é vista em primeiro lugar e a partir da teoria 
da mais-valia como expropriação. Lukács retoma essas considerações do 
Marx maduro para desenvolver sua teoria da reificação [Verdinglichung], 
segundo a qual no modo de produção capitalista não somente o trabalho, 
mas o próprio trabalhador se torna uma mercadoria, enquanto as relações 
sociais que determinam esse processo e que são condicionadas historica-
mente aparecem como fatos \u201cnaturais\u201d e imutáveis à consciência alienada 
do trabalhador e do capitalista. O resultado é uma filosofia e uma teoria 
social \u201cburguesas\u201d que permanecem cegas perante o caráter histórico-
dialético das relações sociais. A leitura de História e consciência de classe 
levou Habermas a ocupar-se com maior atenção do marxismo, sem por 
isso distanciar-se do pensamento heideggeriano.
Em 1954 Habermas publicou na revista Merkur um artigo com o 
título \u201cA dialética da racionalização\u201d, cuja ideia central contém \u201co núcleo 
de muitas das coisas\u201d que ele escreverá \u201cmais tarde na Teoria do agir comu-
nicativo\u201d (AutSol 191). Neste escrito, Habermas se ocupa de assuntos de 
sociologia do trabalho e se serve de argumentos inspirados quer pela crítica 
heideggeriana da técnica moderna, quer pela teoria da alienação do jovem 
Marx, pela teoria da reificação de Lukács e pelas investigações de Arnold 
Gehlen.6 Principalmente Lukács tinha-se confrontado, com base na teoria 
da racionalização de Weber, com o problema da racionalização capitalista 
a fim de apontar para as suas consequências negativas: uma divisão do 
trabalho extremamente avançada, que torna mais rápida a alienação dos 
trabalhadores; a criação de uma estrutura hierárquica que leva à submissão 
dos trabalhadores; a atomização dos trabalhadores assalariados, já que cada 
um deles é tão-somente uma pequena roda na engrenagem da produção; 
o impedimento do desenvolvimento da individualidade.7 O processo de 
racionalização é, portanto, essencialmente um processo de reificação (ver 
também os importantes comentários de Habermas sobre a interpretação 
lukacsiana da teoria weberiana da racionalização em TKH I 474 ss.). Se-
guindo Weber e Lukács, Habermas distingue no seu ensaio três formas de 
tal racionalização: a técnica (mecanização e automação da produção), a 
econômica (reorganização das fábricas) e a social. Esta última concerne 
à organização do próprio trabalho e visa um aumento das prestações da 
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força-trabalho \u2013 objetivo este que deveria ser alcançado menos por meio 
de um uso quantitativamente máximo da força-trabalho, mas sim da sua 
organização qualitativamente otimizada. Mais importante do que o ritmo 
de trabalho ou do que a adaptação aos maquinários é um ambiente de 
trabalho agradável, uma certa segurança social, etc. Não obstante isso, é 
impossível não perceber os efeitos negativos do processo de racionalização: 
a crescente mecanização e automação do trabalho reduziu o esforço físico 
do trabalhador, mas aumentou o psíquico e mental; os trabalhadores dis-
põem de mais lazer e maiores salários, mas sua atividade se tornou mais 
monótona e como consumidores eles desenvolveram falsas necessidades 
por causa da publicidade cada vez mais penetrante. Seguindo Gehlen, ago-
ra, Habermas defende a ideia de uma nova ascese e apela aos indivíduos 
para que eles mesmos se libertem da tirania destas falsas necessidades. 
Contudo, ele parece não nutrir uma grande esperança na capacidade do 
mundo do trabalho de corrigir seus próprios problemas e de restabelecer o 
perturbado equilíbrio social: segundo Habermas, as racionalidades técnica 
e econômica ameaçam impor-se e submeter o mundo social aos próprios 
imperativos. Nosso autor compartilha com Heidegger a desconfiança contra 
a técnica moderna que conquistou sub-repticiamente todos os âmbitos de 
nossa cultura. Por isso, ele acusa Marx de não ter prestado atenção ao papel 
da técnica na sua teoria da alienação. O que aliena o trabalhador da sua 
atividade e do produto do seu trabalho é, segundo Habermas, não tanto a 
forma capitalista de produção, como pensava Marx, mas a técnica. No ensaio 
\u201cMarx em perspectiva\u201d, publicado em 1955 na Merkur, Habermas escreve: 
\u201cMarx nunca entendeu que é este \u2018mecanismo\u2019 (e o inteiro sistema social que 
dele deriva), que é a própria técnica, e não somente uma certa configuração 
econômica na qual ela existe, que submete a um processo de \u2018alienação\u2019 
os homens, quer os trabalhadores, quer os consumidores. Da mesma ma-
neira, ele não pôde entender, então, que a humanidade [Menschlichkeit] 
estava fadada a perder o jogo lá onde os dados técnicos são considerados 
a priori bons e \u2018progressivos\u2019 e, portanto, não se consegue ver a relação 
problemática que eles têm com as \u2018forças essenciais humanas\u2019\u201d (AEF 80). 
Inspirando-se no seu orientador Rothacker, Habermas identifica uma saída 
desta situação na arte enquanto \u201cmoderna criação de formas\u201d, enquanto 
design, já que por meio da originalidade e da fantasia o caráter alienante 
e alienado da produção e do próprio produto pode ser superado.
Relevantes para uma melhor compreensão do percurso intelectual de 
Habermas são, de todo modo, as seguintes considerações que se encontram 
expressas nestes primeiros escritos:
 1. No sistema social são ativas várias formas de racionalidade, as 
quais são em si e para si, legítimas;
 2. a racionalidade técnica e a econômica tendem, contudo, a sub-
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meter todos os âmbitos da existência humana, oprimindo as 
outras formas de racionalidade e provocando problemas sociais 
(essa ideia já fora desenvolvida por Lukács, que tinha lamentado 
a intrusão da racionalidade econômica em âmbitos como a arte 
e a religião);
 3. a solução destes problemas deve consistir em rechaçar a racionali-
dade técnica e econômica para que possa desenvolver-se o potencial 
emancipatório da racionalidade social já presente na sociedade.
Essas ideias serão retomadas na Teoria do agir comunicativo \u2013 natu-
ralmente com a introdução de outras formas de racionalidade, a saber: a 
instrumental/estratégica (em lugar da técnica/econômica) e a comunicativa 
(em lugar da social).
Este conjunto temático é objeto também dos escritos \u201cAnotações sobre 
a falsa relação entre cultura e consumo\u201d de 1956, \u201cCrítica do consumismo 
\u2013 para ser consumida\u201d de 1957 e \u201cAnotações sociológicas sobre a relação 
entre trabalho e liberdade\u201d de 1958. Nestas últimas, Habermas inverte sua 
imagem negativa da técnica e identifica a verdadeira causa das patologias 
sociais supracitadas com a tecnocracia e com o uso político da técnica. 
Desse ponto de vista, pode-se dizer que Habermas nesses anos percorre 
um caminho que vai de Heidegger a Marx. A crítica à tecnocracia é um 
ulterior elemento central do pensamento do Habermas maduro e o leva, já 
nesses anos, a discutir o papel da comunicação livre de dominação, assim 
como do debate e da discussão.
Isso aparece na \u201cResenha da discussão filosófica sobre Marx e o 
marxismo\u201d publicada na revista Philosophische Rundschau, editada por 
Gadamer (tal ensaio encontra-se agora em TuP 387-462) e recebida 
com forte desaprovação por Horkheimer (cf. I.2) pela crença, nela ex-
pressa, na possibilidade concreta de uma revolução na Alemanha e pela 
legitimação, nela oferecida, de uma filosofia da história orientada por 
Marx.8 Nesse ensaio, Habermas reconstrói o debate do pós-guerra sobre 
Marx e o marxismo e toma ele mesmo posição, precisamente em prol do 
Marx filósofo contra a ortodoxia