Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)
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Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)


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do materialismo dialético de Engels e 
do marxismo soviético. Segundo Habermas, Marx desenvolve uma filo-
sofia da revolução e da unidade de teoria e práxis: o marxismo deve \u201cser 
entendido ao mesmo tempo como filosofia da história e como teoria da 
revolução, como um humanismo revolucionário que parte da análise da 
alienação e tem sua meta no revolvimento das relações sociais existentes, 
para superar ao mesmo tempo estas últimas e a alienação em geral\u201d (TuP 
394). Isso aconteceria, em primeiro lugar, por meio da análise do próprio 
fenômeno da alienação.
Habermas critica a \u201cdiscutível hegelianização\u201d da filosofia de Marx 
(TuP 451), assim como a interpretação dos escritos marxianos da juventude 
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como \u201cprefácio a Ser e tempo\u201d (TuP 400). A alienação não representa para 
Marx \u2013 na leitura de Habermas \u2013 uma dimensão existencial, trata-se de 
\u201calgo derivante não do fato de que os homens alienam seu trabalho\u201d, mas 
do fato de que esta alienação acontece \u201cde maneira errada\u201d: \u201cPara Marx 
[...] a alienação não é o signo de um acidente metafísico, mas de uma situ-
ação factualmente presente de pauperismo, pela qual começa sua análise 
da sociedade existente. [...] A análise da alienação permanece, portanto, a 
cada passo análise da sua superação\u201d (TuP 400 s.). A alienação, então, não 
pode ser concebida como \u201cconstituição invariável \u2018do\u2019 homem \u2013 como acha 
uma interpretação de Marx que se inspira em Heidegger\u201d (TuP 401), mas 
deve ser vista como o resultado de determinadas relações sociais. Abolir 
estas últimas é, justamente, tarefa da revolução, cuja teoria é oferecida 
pelo materialismo histórico. A superação revolucionária da alienação per-
manece uma tarefa ainda praticável, segundo Habermas, que aqui parece 
situar-se ainda nas proximidades do Lukács de História e consciência de 
classe, e a filosofia pode e deve fazer sua parte, junto às ciências sociais e 
naturais. Estas últimas devem, contudo, repensar seu estatuto, particular-
mente as ciências sociais. Com base nesses pressupostos, não foi por acaso 
que Habermas se tornou uma das figuras principais da polêmica sobre o 
positivismo na sociologia alemã (cf. III.2).
ROtHACkER x GEHlEN
Em 1958, Habermas escreveu para o dicionário de bolso de filosofia da 
editora Fischer o verbete \u201cAntropologia filosófica\u201d, que, curiosamente, não 
apareceu mais nas numerosas reedições deste livro e foi publicado nova-
mente somente em 1973, na coletânea Cultura e crítica (KuK 89-111). Nesse 
escrito, Habermas contrapõe a antropologia cultural de Rothacker àquela 
biológico-determinista de Gehlen, entre outras coisas com o argumento de 
que esta última justificaria o despotismo e a tirania, enquanto o enfoque 
de Rothacker possuiria uma dimensão histórica que o salvaguardaria da 
opinião de Gehlen pela qual seria necessário um sistema repressivo de ins-
tituições rígidas para controlar a natureza humana (KuK 108 s.). Rothacker 
se distanciaria da ideia, típica das teorias antropológicas tradicionais, de 
que os homens apresentam todos as mesmas características; ele apelaria 
menos para uma presumidamente invariável natureza humana (que repre-
senta tradicionalmente o objeto da antropologia) e salientaria a dimensão 
histórica de tal natureza, que remete à existência de culturas e sociedades 
diferentes: \u201cos seres humanos vivem e agem somente nos concretos mundos 
da vida da sua respectiva sociedade, nunca \u2018no\u2019 mundo\u201d (KuK 107).
Provavelmente Habermas pensa não somente em Gehlen, mas também 
em Heidegger e na sua atitude perante o nazismo, ao escrever: \u201cSe a antro-
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pologia insiste em proceder, de certa maneira, de forma ontológica, em ter 
como objeto somente o que sempre volta, o que sempre permanece igual, o 
que está na base do homem, ela se torna acrítica e leva, finalmente, a uma 
dogmática com consequências políticas tanto mais perigosas quanto mais 
ela avança a pretensão de ser uma ciência não valorativa\u201d (KuK 108).
Por outro lado, a tese de Gehlen, segundo a qual o ser humano seria 
\u201cpor natureza não especializado\u201d, é importante para Habermas, já que isso 
significa que o homem constrói ele mesmo \u201cseu mundo e seu ser-no-mundo\u201d 
\u2013 uma ideia que Habermas liga à analítica existencial de Heidegger (KuK 
100). A humanidade, portanto, pode garantir sua sobrevivência \u201csomente 
por meio da manipulação tecnicamente eficaz da natureza\u201d.9 Desse modo, 
Habermas recebe um primeiro impulso para a ideia de que as ciências 
empírico-analíticas perseguem um interesse técnico determinado antropo-
logicamente (cf. II.2.b e II.2.c). Contudo, ele salienta, contra Gehlen, que a 
natureza humana não consiste na mera reprodução da vida e de maneira 
nenhuma encontra sua plena realização exclusivamente numa \u201cforma de 
ação instrumental que torne a vida algo sobre que se pode dispor\u201d (KuK 
102).
DEmOCRACiA E EsFERA PúBliCA
Em 1961, Habermas publicou, junto com Ludwig von Friedeburg, 
Christoph Oehler e Friedrich Weltz, Student und Politik (Universitários e 
políticas), um estudo empírico sobre o comportamento político dos estu-
dantes universitários alemães. Na introdução ao livro, escrita em 1958,10 
Habermas enfrenta, pela primeira vez, a questão da participação política 
e apresenta uma concepção de democracia e de Estado burguês de direito 
que basicamente permanecerá sem grandes variações nos traços funda-
mentais até a publicação de Direito e democracia (1992) e que, portanto, 
merece nossa atenção.
Em primeiro lugar, Habermas critica a \u201cversão sociotécnica\u201d da de-
mocracia defendida pelas ciências políticas tradicionais que a formaliza e 
a reduz a um \u201cconjunto de regras do jogo\u201d, no qual a participação política 
é somente \u201cum fator entre outros\u201d. Destarte, porém, continua Habermas, 
a ideia da soberania popular, isto é, o núcleo da democracia, acaba \u201csendo 
esquecido quase completamente\u201d (KuK 10 s.). Buscando apoio em Franz 
Neumann, que \u2013 junto com Otto Kirchheimer \u2013 fora um dos poucos membros 
antigos do Instituto de Pesquisa Social que se tinham ocupado de filosofia 
do direito e do Estado, Habermas salienta o caráter peculiar da democracia: 
\u201cSua essência consiste antes no fato de que ela causa mudanças sociais pro-
fundas que aumentam e, no final, talvez produz completamente a liberdade 
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dos homens. A democracia se ocupa da autodeterminação da humanidade 
e somente quando esta [autodeterminação] for real a democracia será 
verdadeira\u201d (KuK 11). A democracia visa transformar a autoridade pessoal 
em autoridade racional, e isso só pode acontecer se \u201ccidadãos maduros 
tomam nas suas próprias mãos a organização da sua vida social sob os 
pressupostos de uma esfera pública que funcione politicamente e por meio 
de uma delegação cuidadosa da própria vontade e de um controle eficiente 
da sua efetivação\u201d (KuK 12). Cidadãos maduros, porém, não se encontram 
\u201cem qualquer condição social\u201d: a democracia atual que fundamenta sua 
legitimidade na ideia de um consenso dos cidadãos deve tal legitimidade 
ao ponto de partida histórico do Estado burguês de direito (KuK 13).
Por isso, Habermas reconstrói brevemente o desenvolvimento do 
Estado liberal de direito e mostra como ele se tornou o Estado social de 
bem-estar (KuK 14 ss.). Ao fazer isso, ele se deixa orientar pela perspectiva 
marxista, assim como pela teoria weberiana da racionalização e, sobretudo, 
pela Teoria Crítica de Adorno e Horkheimer, em particular por Dialética 
do Esclarecimento. Nosso autor interpreta o surgimento do Estado liberal 
de direito como a tentativa da burguesia \u201cde impor instituições próprias\u201d 
que deveriam criar \u201cas bases para uma sociedade de proprietários inde-
pendentes\u201d por meio da garantia da autonomia privada e da \u201cliberdade 
de contrato e de profissão, de propriedade e de herança\u201d (KuK 15 s.). São 
particularmente importantes, deste ponto de vista, a representação popular, 
como concreto