Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)
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Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)


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instrumento de legislação, e a divisão dos poderes. Contudo, 
a constituição liberal pressupõe \u201cuma sociedade de cidadãos independentes 
com propriedade privada distribuída de maneira uniforme\u201d; tal sociedade, 
porém, \u201cnunca se deu. [...] A base real do Estado liberal nunca foi uma 
ordem de cidadãos em competição entre si e com as mesmas chances, mas 
uma ordem social hierárquica estável, garantida por meio da propriedade 
e da educação\u201d (KuK 17). Não obstante, a burguesia se apresentou como a 
classe que encarna o interesse geral: \u201cO Estado liberal de direito pressupõe 
a identificação da burguesia com o povo\u201d; portanto, ele permanece, apesar 
da tentativa de institucionalizar a ideia de democracia, uma \u201cdemocracia 
minoritária sobre a base de uma hierarquia social\u201d (KuK 18). Somente na 
Primeira Guerra Mundial o Estado liberal passou a ser Estado social carac-
terizado por intervenções ativas na vida econômica e social. O novo Estado 
recebe novas tarefas: \u201cem primeiro lugar, a tarefa de proteção, indenização 
e compensação dos grupos economicamente mais fracos (trabalhadores, 
inquilinos, clientes, etc.); em seguida, a tarefa de evitar ou amenizar, em 
certa medida, as mudanças estruturais (política de proteção à classe média), 
ou de introduzir tais mudanças de forma planejada (p. ex., por meio de 
intervenções de política social com o fim de alcançar uma redistribuição 
não somente gradual das rendas); em seguida, [a tarefa] de manter em 
equilíbrio [...] o sistema econômico geral; e, finalmente, a tarefa [...] de 
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garantir prestações públicas de serviço\u201d (KuK 19 s.). Habermas constata 
que \u201ca sociedade burguesa hoje precisa de intervenções estatais\u201d que trans-
formam profundamente sua estrutura originária sem, contudo, modificar 
o fato de que a sociedade ainda \u201ctem como base a disponibilidade privada 
sobre os meios de produção\u201d, fazendo com que a separação de Estado e so-
ciedade continue existindo, pelo menos formalmente (KuK 20 s.). Contudo, 
por intermédio de um fenômeno característico do Estado social, isto é, a 
\u201cdeslocação do peso do parlamento para a burocracia pública e os partidos\u201d, 
há lugar para um ulterior entrelaçamento de Estado e sociedade subtraído 
completamente ao controle público (ibid.). Segundo Habermas, isto leva 
ao surgimento de cidadãos apolíticos em uma sociedade em si política. 
Pelo fato de que o cidadão \u201cem quase todos os âmbitos fica submetido co-
tidianamente\u201d à burocracia pública, há \u201cuma espécie de contato contínuo 
do cidadão com o Estado\u201d, ao qual, porém, não corresponde nenhuma 
ampliação da participação política \u2013 pelo contrário: O cidadão vive a ação 
estatal, reduzida aos atos da burocracia, como uma espécie de imposição 
externa perante a qual ele toma uma atitude estratégica orientada pelo 
próprio interesse. Como Habermas dirá em escritos posteriores, os cida-
dãos se transformam em \u201cclientes das burocracias do Estado de bem-estar 
social\u201d (TKH II, 515). Ao mesmo tempo, o cidadão tenta afirmar-se contra 
a burocracia de outras formas: Surgem associações como os sindicatos, 
as associações empresariais, etc., assim como seus expoentes políticos, os 
partidos. É interessante que Habermas remeta aqui a Carl Schmitt, com 
cuja crítica da democracia de massa ele em parte concorda, sem, contudo, 
aceitar as propostas de soluções antiliberais e autoritárias do jurista alemão. 
Como já Schmitt e Gerhard Leibholz tinham salientado, o parlamento se 
torna cada vez mais \u201cum lugar no qual delegados dos partidos vinculados 
por mandados partidários se encontram para sancionar decisões já tomadas\u201d 
em outros lugares (KuK 28). Essa \u201cautonomização dos partidos perante 
o parlamento é, ao mesmo tempo, uma autonomização perante os eleito-
res\u201d. Os modernos partidos de massa já não são instrumentos para ajudar 
na realização da vontade popular, mas criam eles próprios tal vontade, já 
que se apresentam como os representantes do povo (KuK 29). Ao mesmo 
tempo, com o desaparecimento dos partidos de classe e o surgimento dos 
modernos \u201cpartidos de integração\u201d, que já não defendem os interesses in-
conciliáveis de classes diversas, mas se veem como superação da divisão em 
classes, desaparece também a diferença dos partidos entre si, enquanto os 
contrastes políticos são \u201cformalizados\u201d e se tornam praticamente sem con-
teúdo. O \u201cabalo social da constituição burguesa operado pelo antagonismo 
de classe\u201d aparece, então, \u201ccomo um fenômeno passageiro historicamente 
superado\u201d (KuK 32 s.).
Desse modo, a esfera pública é deixada para trás. A participação 
política dos cidadãos é \u201ctendencialmente neutralizada desde o começo\u201d 
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(KuK 32). Seguindo os diagnósticos formulados por Adorno e Horkheimer 
na Dialética do Esclarecimento, Habermas salienta a redução do cidadão a 
consumidor e aponta para o papel de manipulação da mídia ao apresentar 
notícias sobre acontecimentos políticos no formato de entretenimento. A 
informação política se torna uma mercadoria, até a propaganda eleitoral 
não se distingue da comercial (KuK 52). A conclusão de Habermas é: \u201cNão 
há dúvida de que o espaço no qual acontece a participação política do 
cidadão médio é restrito\u201d (KuK 54). Contudo, se é de duvidar que \u201co povo 
maduro\u201d consiga controlar de maneira eficaz as instituições parlamentares, 
então é pensável que participem do processo de decisão política grupos 
\u201cque dispõem de um âmbito de eficácia política externo ao parlamento\u201d 
(KuK 56). Tais grupos são identificados por Habermas, em primeiro lugar, 
com os sindicatos, mas também com os quadros dirigentes da economia 
e da administração pública, isto é, funcionários de alto nível, executivos, 
etc.11
Esse é o horizonte no qual Habermas concebe seu estudo sobre o 
conceito de esfera pública, por ele apresentado como tese de habilitação. 
A introdução a Student und Politik lhe serve como pano de fundo para 
descrever o processo de formação de tal esfera na moderna sociedade 
burguesa. Ao fazer isso, o que lhe interessa não é somente a reconstrução 
histórica deste processo, mas também a introdução de elementos para dar 
vida a um conceito normativo de esfera pública.
Habermas parte da dicotomia \u201cpúblico/privado\u201d, que ele, porém, con-
trariamente a Hannah Arendt em A condição humana de 1958 (livro que 
de resto Habermas admira muito), não identifica com a distinção entre as 
duas esferas da política e da vida privada. A esfera pública se constitui na 
Europa antes como o lugar em que a burguesia discute e avalia os eventos 
políticos e, sobretudo, as decisões do monarca.
Servindo-se de exemplos tirados da história da Grã-Bretanha, da 
França e da Alemanha, Habermas mostra como \u201ca esfera pública política 
provém daquela literária\u201d (MEEP 46 [SÖ 46]), isto é, daquele público de 
burgueses consumidores de literatura e de arte que visitavam os cafés e os 
salões criados apenas para neles se discutirem com paixão temas literários 
e artísticos. Habermas atribui um papel importante também às sociedades 
secretas, como a maçonaria, e sobretudo às revistas, aos jornais de crítica 
artística e cultural e, em particular, aos hebdomadários moralistas (MEEP 
50 ss. e 58 ss. [SÖ 50 ss. e 58 ss.]). Comunidades de comensais, salões e 
cafés reúnem, é verdade, somente indivíduos particulares, mas eles dispõem 
\u201cde uma série de critérios institucionais em comum\u201d (MEEP 51 [SÖ 52]). 
Neles vale o princípio de que o status social não conta: os membros do 
público se veem como indivíduos, Privatleute, hommes ou private gentlemen, 
independentemente do seu papel na sociedade. Em segundo lugar, há uma 
\u201cproblematização de setores que até então não eram considerados ques-
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tionáveis\u201d (MEEP 52 [SÖ 52]). Isso se torna possível porque as obras de 
arte são produzidas para um público mais amplo do que antes e, portanto, 
adquirem um caráter de mercadoria e \u201ccomo mercadorias tornam-se, em