Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)
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Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)


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princípio, acessíveis a todos\u201d e \u201cnão continuam a ser parte constitutiva da 
representatividade pública eclesiástica ou cortesã\u201d (ibid. [SÖ 53]). Isso 
\u201cleva, em terceiro lugar, ao não fechamento do público\u201d (MEEP 53 [SÖ 
53]): no debate podem participar todos, em princípio.
Essa esfera pública literária oferece um modelo para a esfera política. 
O objeto do debate crítico não são, agora, obras de arte, mas a ação dos 
poderes públicos. A esfera pública burguesa pretende ser a única fonte 
legítima de leis gerais e abstratas que correspondem aos mandamentos 
universais da razão e servem ao bem geral (MEEP 71 ss. [SÖ 72 s.]). Ha-
bermas aponta para uma certa ambivalência inerente à esfera pública: No 
debate literário pessoas privadas se entendem \u201cenquanto seres humanos 
sobre experiências de sua subjetividade\u201d; mas no discurso político eles se 
entendem enquanto proprietários \u201csobre a regulamentação de sua esfera 
privada\u201d (MEEP 73 [SÖ 74]). A identidade fictícia de cidadão (isto é, de 
proprietário) e ser humano, de bourgeois e homme, se torna um elemento 
importante da \u201cpropaganda\u201d burguesa que se articula nas \u201cpalavras de 
ordem revolucionárias burguesas\u201d da \u201cigualdade\u201d e da \u201cliberdade\u201d (MEEP 
72 [SÖ 72]). Nisso se encontra a contradição interna da esfera pública 
burguesa: por um lado, ela permanece aberta, em princípio, a todos os 
indivíduos; por outro lado, só têm acesso a ela aqueles que dispõem do 
poder econômico e da educação necessários. Essa ambivalência se reflete 
nas instituições do Estado liberal de direito: À igualdade formal dos cida-
dãos perante a lei corresponde nele a desigualdade concreta das relações 
de propriedade e das posições sociais.
No Capítulo 4, central para o livro, Habermas reconstrói o surgimento 
da esfera pública, começando com o conceito lockiano de Law of Opinion, 
passando por aquele kantiano de esfera pública e pela concepção hegeliana 
do Estado segundo a qual este último, como realidade da ideia ética, já 
não necessita da opinion publique, até chegar à crítica de Marx pela qual a 
opinião pública não seria outra coisa que a \u201cmáscara do interesse de classe 
burguês\u201d (MEEP 149 [SÖ 151]): \u201cEvidentemente faltam primeiro, uma 
vez, os pressupostos sociais para a igualdade de oportunidades, para que 
qualquer um [...] possa conseguir o status de proprietário e, com isso, as 
qualificações de um homem privado admitido na esfera pública: formação 
cultural e propriedade\u201d (MEEP 150 [SÖ 152]). A equação de \u201cproprietário\u201d 
e \u201cser humano\u201d não pode ser mantida por mais tempo. O processo de am-
pliação da esfera pública implica uma ampliação do direito de voto \u2013 o que 
levou Marx a prognosticar que o poder da burguesia poderia ser quebrado 
no momento em que a multidão dos não proprietários se tornasse sujeito 
da esfera pública (MEEP 152 [SÖ 155]).
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Diferente é a leitura de liberais como Tocqueville e Mill, que nesta 
ampliação veem antes um risco: \u201cA interpretação liberal do Estado de direito 
burguês é reacionária: ela reage à força da ideia da autodeterminação de um 
público pensante, inicialmente aceita, assim que esse público é subvertido 
pelas massas desprovidas de propriedade e de formação cultural\u201d (MEEP 
163 [SÖ 166]). Os cidadãos mais educados e com maior poder econômico 
deveriam antes formar um público elitista cuja opinião deveria determinar 
a opinião pública.
A mudança estrutural decisiva acontece quando a lógica do mercado 
irrompe na esfera pública. A partir desse momento o debate \u2013 isto é, o 
debate literário mencionado, que não era submetido ao ciclo da produção 
e do consumo e, portanto, possuía \u201cum caráter \u2018político\u2019 [...] no sentido 
grego de uma emancipação das necessidades existenciais básicas\u201d \u2013 tende 
\u201ca se converter em consumo\u201d (MEEP 190 s. [SÖ 193 s.]). Até a maneira em 
que a mídia apresenta as informações \u201cacarreta uma peculiar distorção da 
realidade\u201d que tende a substituir a percepção correta do real \u201cpor aquilo 
que está pronto para o consumo e que mais desvia para o consumo impes-
soal de estímulos destinados a distrair do que leva para o uso público da 
razão\u201d (MEEP 201 s. [SÖ 295]). Ela leva, em outras palavras, àquilo que 
hoje é chamado de infotainment.
A irrupção da lógica de mercado na esfera do debate público corres-
ponde ao processo, mencionado por Habermas no prefácio de Student und 
Politik, pelo qual no Estado de bem-estar social o cidadão se transforma 
em cliente, em simples consumidor de prestações de serviços públicos (cf. 
MEEP 246 ss. [SÖ 250 ss.]). A questão principal da qual Habermas se ocupa 
na última parte do livro é, portanto, a questão se a esfera pública política 
do Estado social pode manter sua função crítica contra a tendência à ma-
nipulação presente nela mesma (MEEP 270 ss. [SÖ 274 ss.]). A medida, 
na qual a tendência crítica se impõe, caracteriza, segundo Habermas, \u201co 
grau de democratização de uma sociedade industrial estruturada como 
socialdemocracia\u201d (ibid.). Aqui, como em muitas das suas obras, se trata de 
trazer à tona o potencial crítico e emancipatório escondido na sociedade e 
nas suas instituições. Isso, contudo, não é tarefa simples: \u201cé bem aberta a 
luta entre um jornalismo crítico e a publicidade jornalística que é exercida 
apenas com fins manipuladores\u201d (MEEP 273 [SÖ 277]). Isso também porque 
ambos os aspectos estão estreitamente entrelaçados. Daí a dificuldade em 
definir o papel atual da esfera pública (MEEP 274 ss. [SÖ 278 ss.]).
Após ter concluído esse estudo, que usa tanto os métodos da histó-
ria das ideias como os das ciências sociais, Habermas estava pronto para 
dedicar-se a uma teoria crítica da sociedade que não se limitasse a um 
diagnóstico meramente resignado, mas formulasse propostas para soluções 
concretas. Por isso, nos anos seguintes dedicou sua atenção à difícil relação 
entre teoria e práxis.
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NOtAs
 1. No seu discurso em memória dos cinquenta anos do 30 de janeiro de 1933 (dia em 
que Hitler tomou o poder) no Reichstag de Berlim (citado em NU 22 s.).
 2. Schmitt foi um jurista que, durante o nazismo, tinha tentado oferecer uma funda-
mentação teórica do regime a partir de uma teoria do Estado e do direito. Depois 
da guerra, ficou preso por um breve período em uma prisão aliada e em seguida lhe 
foi proibido o ensino universitário, como no caso de Heidegger. Mas, contrariamente 
a Heidegger, ele nunca recebeu de novo a permissão para ensinar. De fato, Schmitt 
nunca se arrependeu publicamente de ter tomado posição pelo regime nazista e 
atacou com veemência os processos de Nuremberg, que considerava expressão de 
uma justiça feita pelos vencedores. Apesar disso, ele é hoje altamente considerado 
em nível internacional e até na esquerda, quer pela originalidade dos seus escritos 
(como a sua muito discutida, mas muito influente Teologia política) e pelo fato de ser 
sem dúvida um excelente teórico do Estado, quer pela sua erudição como intérprete 
(p. ex., de Hobbes). Sua influência sobre a teoria política e jurídica alemã é bastante 
profunda.
 3. Böhme foi um místico alemão do século XVI. A relação de Schelling com Böhme já 
fora comentada por Nicolai Hartmann no seu livro A filosofia do Idealismo alemão 
(1923-29).
 4. Em um discurso proferido em 1978 em homenagem a Gershom Scholem, o célebre 
pensador e conhecedor da cabala judaica, Habermas salienta mais uma vez esta 
relação e inclui nela até o pensamento hegeliano: \u201cAtrás das Idades do mundo de 
Schelling e da Lógica de Hegel, atrás de Baader se encontram não somente, como 
nos ensinaram, os pais espirituais suabos, não somente o pietismo e a mística pro-
testante, mas também, através da mediação de Knorr von Rosenroth, aquela versão 
da cabala em cujas consequências antinômicas foram pensadas antecipadamente 
de forma mais clara do que nunca as figuras conceituais e os impulsos da grande 
filosofia dialética\u201d (PPP, 378).