Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)
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Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)


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renúncia a tal projeto.
O horizonte de uma filosofia da história volta, interessantemente, 
num ensaio de 1961 sobre a filosofia tardia de Schelling (que já fora o 
tema da tese de Habermas) com o título \u201cIdealismo dialético na passagem 
para o materialismo \u2013 Consequências do ponto de vista da filosofia da 
história a partir da ideia de uma contração de Deus em Schelling\u201d (agora 
em TuP 172-227). Nele, Habermas não somente remete de novo à tradição 
mística, em particular à judaica, como a uma importante raiz da moderna 
filosofia da história e da moderna ideia de emancipação, mas fala também 
de um \u201cmaterialismo escondido da filosofia das Idades do mundo\u201d, ligando 
Schelling a Marx, já que ambos os pensadores se teriam preocupado com a 
reconstituição da \u201cidentidade entre natureza e gênero humano\u201d (TuP 215). 
Na interpretação de Habermas, a filosofia tardia de Schelling se insere em 
duas tradições diferentes, quase opostas: sua filosofia das Idades do mundo 
se coloca sob o signo de um materialismo que sucessivamente levará à ideia 
marxiana de uma emancipação da natureza e do homem; sua filosofia da 
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revelação, pelo contrário, desemboca em uma atitude antipolítica que irá 
de Kierkegaard até Heidegger. Cabe notar como Habermas identifica uma 
das raízes do conceito tipicamente iluminista de emancipação com a mística 
medieval e da primeira modernidade, mais precisamente: com a ideia nela 
desenvolvida de uma reconstituição da identidade de Deus e da criação. 
Longe de compartilhar a leitura, um pouco simplista, do marxismo como 
messianismo, nosso autor tenta antes apontar para parentescos inesperados 
e relações das quais se perdeu a consciência.
Em 1962, Habermas publicou o ensaio \u201cTarefas críticas e conservadoras 
da sociologia\u201d (agora em TuP 290-306), no qual ele enfrenta um assunto 
que desenvolverá ulteriormente em \u201cDogmatismo, razão e decisão, sobre 
teoria e práxis na civilização cientificizada\u201d, de 1963 (agora em TuP 307-
335). No primeiro ensaio, ele reconstrói a história da sociologia desde 
seus inícios, com os filósofos morais escoceses, e constata que, já naquela 
época, ela tinha um interesse crítico, \u201ca saber, o esclarecimento da esfera 
pública política, que era formada por pessoas privadas burguesas e que 
estava surgindo também no século XVIII\u201d (TuP 293 s.). Depois da Revo-
lução Francesa, contudo, acontece uma cisão: a sociologia é considerada, 
ao mesmo tempo, \u201ccomo uma ciência de oposição por Saint-Simon e 
como uma ciência de estabilização por de Bonald\u201d (TuP 294). Essa \u201cdupla 
intenção de uma dissolução crítica da autoridade ou da sua conservação 
a qualquer preço determinou as lutas programáticas também na segunda 
metade do século XIX, e quase até nossos dias\u201d (TuP 295 s.). Habermas 
vê um interesse conservador presente naquela visão que faz da sociologia 
uma \u201cciência de planificação\u201d meramente empírica, que deveria \u201climitar-se 
a tarefas analíticas\u201d. Nesse ponto, ele enfrenta temas próprios da polêmi-
ca sobre o positivismo (cf. III.2), ao afirmar que uma ciência empírica é 
incapaz \u201cde estabelecer prioridades e formular programas\u201d (TuP 300). A 
tarefa de uma sociologia crítica deveria ser, então, \u201cem vez de tornar visível 
o que de qualquer modo acontece, manter vivo na nossa consciência o que 
deveríamos de qualquer modo fazer\u201d (TuP 303).
A ideia de uma teoria crítica da sociedade que se contrapõe a uma 
ciência ou a uma técnica social pura está presente também na aula inaugural 
de Marburgo sobre \u201cA doutrina clássica da política em relação à filosofia 
social\u201d (1962). Nela, Habermas descreve a passagem da antiga doutrina da 
política, que se via como doutrina da vida boa e justa e como complemen-
tação da ética, à concepção moderna segundo a qual a doutrina da política 
deve ser entendida como ciência. Segundo a concepção antiga, a política se 
refere à práxis e, portanto, uma doutrina política só era possível como uma 
doutrina prática, cujo conceito principal era a phronesis, a prudência que 
determinava o agir político. Na concepção moderna da política como objeto 
de uma ciência, pelo contrário, o agir político se torna um agir técnico que 
obedece a leis \u201ccientíficas\u201d ou, pelo menos, a regularidades cientificamente 
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observáveis. Essa mudança tem consequências importantes, já que com ela 
o âmbito da práxis passa a ser visto pelo prisma tecnológico e a racionali-
dade técnica, característica das ciências naturais, substitui a razão prática 
como critério do agir político. Este é um tema que desempenhará um papel 
importante não somente no pensamento habermasiano mais tardio, mas 
também no contexto da polêmica sobre o positivismo.
A POlêmiCA sOBRE O POsitivismO E A lóGiCA DAs CiêNCiAs sOCiAis
No começo dos anos de 1960 aconteceu a chamada polêmica sobre 
o positivismo na sociologia alemã, que foi iniciada por Adorno mas con-
tinuada, principalmente por Habermas, Hans Albert, Harald Pilot e Ralf 
Dahrendorf.1 Em outubro de 1961, durante o simpósio da Sociedade Ale-
mã de Sociologia, em Tubinga, Adorno, no seu comentário à conferência 
principal de Karl Popper sobre \u201cA lógica das ciências sociais\u201d, tinha atacado 
o postulado da independência dos valores das ciências. Em 1963, Haber-
mas tomou posição sobre o assunto em um ensaio dedicado a Adorno, 
em ocasião dos 60 anos deste e com o título \u201cTeoria analítica da ciência e 
dialética\u201d. O ensaio incitou o popperiano Hans Albert a uma resposta que, 
por sua vez, suscitou uma réplica de Habermas. Uma nova tomada de po-
sição de Albert marcou o fim provisório da polêmica, cujas consequências, 
contudo, são claramente visíveis nas obras sucessivas de Habermas, come-
çando por Conhecimento e interesse.2 A polêmica levou Habermas, também, 
a escrever uma resenha sobre o estado da arte na sociológica dos anos de 
1950, que foi publicada com o título Sobre a lógica das ciências sociais, em 
fevereiro de 1967, como caderno especial n° 5 da revista Philosophische 
Rundschau. Habermas via essa resenha como expressão de um processo 
de \u201cautocompreensão\u201d, mas considerou seus resultados já superados em 
1970, quando o republicou com outros ensaios no volume Sobre a lógica 
das ciências sociais. De fato ele queria, agora, continuar a discussão sobre 
a natureza e o papel da teoria social em uma outra direção, uma vez que 
depois da publicação de Conhecimento e interesse (1968), ele se encontrava 
já \u201ca caminho de uma teoria do agir comunicativo\u201d (LSW 12).
O ataque de Adorno tinha como alvo principal a tomada de uma atitude 
positivista nas ciências sociais. O que ele e Habermas põem em questão é 
o fato de \u201ca ciência poder assumir uma atitude indiferente em relação ao 
mundo criado pelo homem, assim como acontece com sucesso nas ciências 
naturais exatas\u201d (LSW 17). Adorno e Habermas acusam as ciências sociais 
positivistas de querer encontrar de forma dedutiva leis que possam ser 
pensadas em analogia com as leis das ciências naturais. Uma teoria dialética 
da sociedade, pelo contrário, procede de forma hermenêutica: \u201cela obtém 
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suas categorias, em primeiro lugar, a partir da consciência que os próprios 
indivíduos agentes têm da sua situação\u201d (LSW 23 s.). A essa crítica, Albert 
responde que a Escola de Mannheim, reunida ao seu redor, não defende a 
posição do positivismo tradicional que partia do modelo verificacionista, 
mas se serve do modelo popperiano do falibilismo3. A réplica de Albert 
pode, talvez, ser pertinente em relação à posição de Adorno,4 mas não à 
de Habermas. Este distingue a posição de Popper da do positivismo do 
Círculo de Viena, mas vê na crítica de Popper aos vienenses somente \u201cum 
primeiro nível de autorreflexão do positivismo, ao qual, contudo, ele fica 
ligado\u201d (LSW 46 s.).
Habermas parte, aqui, das teses sobre o método das ciências naturais 
apresentadas por Adorno e Horkheimer na Dialética do Esclarecimento