Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)
197 pág.

Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)


DisciplinaPsiquiatria I1.975 materiais11.366 seguidores
Pré-visualização50 páginas
e 
critica a hipótese de Albert e Popper, segundo a qual a base empírica das 
ciências rigorosas seria, independente dos padrões \u201cque a própria ciência 
aplica à experiência\u201d. Habermas aponta para o fato de que são pensáveis 
também outras formas de experiência que não correspondem a tais padrões, 
mas não obstante podem \u201cser elevadas ao nível de instância experimental\u201d 
por meio de critérios correspondentes. Como exemplos de formas alter-
nativas de experiência, Habermas cita \u201csentimentos morais, privações e 
frustrações, crises existenciais, mudanças de atitude como consequências 
de reflexões\u201d; e, como exemplo de método experimental alternativo, ele 
menciona \u201ca situação de transferência entre médico e paciente interpretada 
pelo psicanalista\u201d (LSW 48). Aparece, então, a ideia de que pode haver ou-
tras formas de conhecimento que se servem de critérios diferentes daqueles 
das ciências exatas, a fim de verificar a aproveitabilidade da experiência 
e, com isso, a própria cientificidade, e que podem, contudo, avançar uma 
legítima pretensão de serem aceitas como formas válidas de conhecimento. 
Não é por acaso que Habermas menciona a psicanálise, já que durante seus 
estudos se tinha ocupado bastante de Freud.
Habermas está consciente do fato de que Popper contesta a tese 
positivista clássica, segundo a qual a experiência sensível nos colocaria 
em contato direto com o que é \u2013 uma tese que, de qualquer maneira, foi 
\u201crefutada a partir da demonstração kantiana dos elementos categoriais da 
nossa percepção\u201d, demonstração efetuada também de modo diverso por 
Hegel, Peirce, Husserl e Adorno (LSW 49). Popper reconhece, então, que 
\u201cpodemos compreender e constatar fatos somente à luz de teorias\u201d. Por 
outro lado, porém, ele subentende \u201ca independência epistemológica dos 
fatos das teorias\u201d que deveriam descrever \u201ctais fatos e as relações entre 
eles\u201d. As teorias são, portanto, testadas com base em fatos \u201cindependentes\u201d 
\u2013 e nisso consiste, segundo Habermas, o resquício positivista de Popper. 
Este último se agarra à teoria da verdade como correspondência, segundo 
a qual as teorias podem ser denominadas verdadeiras se às suas hipóteses 
correspondem fatos constatáveis empiricamente (LSW 51).
50 Alessandro Pinzani
Habermas acusa Albert e Popper de terem uma concepção limitada da 
forma de racionalidade que se articula nas ciências empíricas. Pois, para 
Habermas, em tais ciências é presente não somente uma racionalidade 
técnica interessada em dominar a natureza; as ciências naturais são, antes, 
objeto de um debate que acontece no âmbito de uma comunidade cientí-
fica (uma ideia que ele retoma de Peirce). \u201cA pesquisa é uma instituição 
de homens que agem juntos e falam entre si; como tal, ela determina, por 
intermédio da comunicação entre pesquisadores, o que pode avançar a 
pretensão de valer do ponto de vista teórico\u201d (LSW 36). Os princípios da 
pesquisa metódica não são descobertos por meio da própria pesquisa: é, 
antes, a comunidade dos pesquisadores que alcança um consenso sobre 
eles, e precisamente por meio de um processo de debate crítico no qual são 
ativas outras formas de racionalidade além da técnica. Esta racionalidade 
alternativa é orientada pela compreensão e pela interpretação. Habermas 
fala de uma \u201cautojustificação reflexiva\u201d (LSW 64), cujo sentido pode ser 
resumido da seguinte maneira: quando os pesquisadores refletem sobre 
a própria atividade de pesquisa, têm de reconhecer que esta não consiste 
meramente no desenvolvimento de teorias, mas também em uma discus-
são sobre os critérios que fazem dela uma teoria, ou uma teoria aceitável. 
Essa atividade de debate acontece sob o signo de uma racionalidade que 
se distingue daquela meramente técnica. Quando pesquisadores debatem 
entre si sobre os critérios em questão, não estão formulando nenhuma 
teoria sobre o comportamento dos colegas, mas tentando entender-se com 
eles a fim de alcançar um consenso.5 Aqui emerge, então, a ideia de que 
existe, ao lado da racionalidade técnica típica das ciências naturais, uma 
outra racionalidade, orientada pela compreensão (em seguida denominada 
de \u201ccomunicativa\u201d).
Outro aspecto relevante da crítica habermasiana diz respeito ao ca-
ráter instrumental das ciências sociais, isto é, ao fato de que estas visam o 
desenvolvimento de técnicas que nos deveriam permitir resolver problemas 
sociais. Habermas parte de uma consideração geral sobre a natureza das 
teorias científicas, assim como Popper a descreve. Segundo Habermas, 
Popper afirmaria que na aplicação de regras gerais nos movimentamos 
inevitavelmente em círculo. \u201cPopper o explica por meio de uma compara-
ção do processo de pesquisa com um processo legal. Um sistema de leis, 
independentemente do fato de ser um sistema de normas jurídicas ou de 
hipóteses científicas empíricas, não pode ser aplicado se antes não houve 
um consenso sobre o fato específico ao qual deveria ser aplicado\u201d. Tal fato 
é, então, \u201cprocurado desde já com base em categorias do sistema de leis\u201d 
em questão. Os fatos constatados experimentalmente que, segundo a tese 
da falseabilidade de Popper, poderiam levar ao fracasso de teorias científicas 
empíricas, se constituem apenas no âmbito de uma determinada interpre-
tação da própria experiência (LSW 52 s.). Esse fenômeno é explicado por 
51 Habermas
Habermas pragmaticamente (nesses anos ele se ocupa do pragmatismo 
norte-americano: cf. I.3). Teorias científicas empíricas se deixam guiar 
por um interesse determinado, a saber, o \u201cinteresse na possibilidade de 
assegurar e ampliar com informações o agir controlado pelo seu sucesso\u201d 
(LSW 54). Hipóteses de leis são desenvolvidas para antecipar regularidades 
e correspondentemente para poder gerir, com base nelas, ações controladas 
pelo seu sucesso. Habermas afirma com isso que \u201cas ciências empírico-
analíticas se deixam conduzir por um interesse cognitivo técnico\u201d (LSW 
55). No caso de uma sociologia analítico-empírica, esse interesse consiste 
em desenvolver \u201ctécnicas sociais\u201d que permitam \u201cdispor sobre processos 
sociais como se fossem processos naturais\u201d. Segundo a crítica de Habermas, 
uma sociologia desse tipo não entende a sociedade como um todo, mas 
se refere a campos isolados e a contextos fixos \u201ccom decurso recorrente 
ou repetível [...]. Sistemas sociais, porém, se dão em contextos históricos, 
não pertencem aos sistemas repetitivos, sobre os quais é possível formular 
afirmações corretas no formato das ciências empíricas\u201d (LSW 26). Os co-
nhecimentos assim obtidos não nos ajudam, então, a entender melhor a 
sociedade como um todo, e não contribuem para compreender e solucionar 
de forma efetiva os problemas sociais. Tudo o que permitem é, no máximo, 
uma compreensão parcial de âmbitos parciais.
Ao falar em um interesse que dirige o conhecimento (e remetendo 
com isso ao conceito de Teoria Crítica de Horkheimer), Habermas quer 
contestar a ideia de que as teorias científicas surgem por puro \u201camor\u201d 
do conhecimento e são neutras em relação aos valores. Elas se baseiam, 
antes, em um certo contexto pré-científico e numa certa prática de vida, 
que determinam seu surgimento, seu desenvolvimento, sua metodologia e 
sua aplicação prática. Tais ciências perseguem, então, determinados inte-
resses, que Habermas inicialmente (partindo de Marx, Gehlen, Rothacker 
e Heidegger) interpreta em sentido antropológico.6 A espécie humana 
pode assegurar sua sobrevivência somente por meio do trabalho social. 
Por isso ela necessita do saber técnico (LSW 39 et passim). O interesse 
cognitivo negado ou negligenciado pelo positivismo surge porque o ho-
mem precisa modificar a natureza com seu trabalho. Ao lado dessa forma 
de ação técnica, instrumental, aparece outra: a comunicativa. Enquanto 
a tarefa da primeira consiste na reprodução da existência material, isto 
é, em assegurar a sobrevivência da espécie, a segunda diz respeito à 
manutenção