Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)
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Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)


DisciplinaPsiquiatria I1.975 materiais11.371 seguidores
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da identidade pessoal \u201cde sujeitos socializados\u201d (LSW 73). 
Enquanto a primeira tarefa leva ao surgimento das ciências empírico- 
-analíticas, a segunda dá lugar ao surgimento das ciências hermenêuticas 
interpretativas, que se ocupam com a explicação das tradições transmitidas 
ou das cosmovisões atuais.
Com esse conceito, Habermas retoma a dicotomia introduzida por 
Dilthey entre ciências naturais e ciências do espírito. Enquanto as primeiras 
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visam principalmente a criação de teorias com fundamentos empíricos que 
permitam prognósticos sobre o futuro, as segundas tentam não somente 
descrever acontecimentos, mas entender o sentido deles. Elas não se in-
teressam pela observação de fatos, mas pela interpretação de textos e de 
contextos históricos. Seria então errado atribuir às ciências sociais o mero 
estatuto de uma ciência natural ou do espírito. Elas devem, antes, \u201cmanter 
sob o mesmo teto\u201d a tensão existente entre os dois diferentes enfoques 
(LSW 91). As ciências sociais não podem, portanto, contentar-se com a 
descrição empírica de fenômenos ou eventos sociais, mas devem tentar 
entender os seus contextos significativos. Habermas menciona três enfo-
ques que tentam lidar com \u201ca problemática da compreensão do sentido 
nas ciências empírico-analíticas da ação: o fenomenológico, o linguístico 
e o hermenêutico (LSW 203 ss.).
Decisivos para os três enfoques são três autores que, contudo, não se 
ocuparam diretamente de sociologia: Husserl, Wittgenstein e Gadamer. Por 
isso, Habermas prefere confrontar-se com sociólogos ou filósofos que se 
inspiraram nestes três pensadores. Ao mesmo tempo, é necessário esclarecer 
três conceitos fundamentais que desempenham um papel central no pen-
samento destes três autores, a saber, os conceitos de mundo da vida, jogo 
linguístico e autorreflexão hermenêutica. Com \u201cmundo da vida\u201d, Husserl 
indica o horizonte da nossa experiência vivida [Erlebnis]. Ele representa o 
limite que circunscreve nossa vida. O mundo da vida é o mundo no qual 
nos encontramos desde sempre e do qual temos experiência que precede 
qualquer saber consciente e qualquer ciência do mesmo. Por isso, o mundo 
da vida, ao contrário do mundo objetivo das ciências naturais, nunca é 
questionado na sua integridade. Encontramo-nos constantemente nele e não 
nos é possível tomar dele a distância necessária para pô-lo em questão ou 
até para discuti-lo como um todo. Quando muito, podemos problematizar 
partes dele \u2013 partes que, portanto, já não pertencem ao mundo da vida, 
mas ao mundo objetivo da ciência ou ao mundo dos filósofos. O conceito 
de \u201cjogo linguístico\u201d é introduzido por Wittgenstein nas suas Investigações 
filosóficas (publicadas póstumas em 1953). Com ele, o filósofo austríaco 
quer salientar o fato de que o falar uma linguagem é uma atividade que 
acontece segundo certas regras e no âmbito de um grupo de pelo menos 
dois indivíduos. Uma linguagem privada é, portanto, impossível, já que 
falar é uma atividade intersubjetiva.7 Com \u201cautorreflexão hermenêutica\u201d 
se indica o fato de que cada intérprete que se aproxima de um texto, ou 
quer apropriar-se de uma tradição o faz sempre a partir de um determinado 
horizonte, por exemplo, aquele da sua própria tradição. A apropriação de 
uma tradição é, ao mesmo tempo, sua continuação, e a distância entre o 
intérprete e seu objeto é assim superada, embora não eliminada. Segundo 
Habermas, a hermenêutica é \u201cuma arte e não um método\u201d, visto que a 
interpretação do sentido de construções simbólicas, isto é, de obras ou de 
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ações, não pode ser operacionalizada: uma \u201cmedição\u201d do sentido simbólico 
não é possível (VTKH 16).
Típico de um enfoque fenomenológico orientado por Husserl são as 
obras de Alfred Schütz, um sociólogo austríaco que emigrou para a Ingla-
terra durante o nazismo e continuou aí sua pesquisa. Schütz salienta o 
caráter intersubjetivo das interações cotidianas: no dia-a-dia lidamos com 
outras pessoas que não consideramos como coisas naturais, mas como 
seres com os quais nos comunicamos e interagimos. \u201cTambém a sociologia 
não consegue emancipar-se completamente dessa atitude de experiência 
comunicativa, senão ao preço de perder o acesso aos seus dados de modo a 
entender seu sentido. Ela não pode separar os fatos que formam seu âmbito 
de observação do nível de intersubjetividade no qual eles se constituem\u201d 
(LSW 227). Em analogia com o conceito husserliano de mundo da vida, 
Schütz aponta para a autocompreensão de sujeitos sociais, a qual constitui 
o horizonte ineliminável de qualquer ciência social: \u201cO saber cotidiano que 
a tradição nos oferece nos equipa com interpretações de pessoas e eventos 
que estão ao nosso alcance imediato ou potencial\u201d (LSW 228). Uma socio-
logia com base fenomenológica, preocupada com a compreensão, assim 
como Schütz a pensa, tenta observar eventos sociais a partir do fundo deste 
conhecimento pré-científico e inclui na sua análise a perspectiva do próprio 
pesquisador. Nisso ela encontra, também, seus limites: os fenomenólogos 
partem sempre da experiência do seu mundo da vida individual, para pes-
quisar, por meio de abstrações e generalizações, a formação do mundo da 
vida em geral. \u201cAssim, porém, não encontramos um único mundo da vida 
historicamente concreto, a não ser aquele dos próprios fenomenólogos\u201d 
(LSW 234). O enfoque fenomenológico permanece, portanto, segundo 
Habermas, sempre \u201cnos limites da análise da consciência\u201d (LSW 239). 
Além disso, ele não consegue fazer justiça ao papel central da linguagem 
na constituição do mundo da vida: \u201cA linguagem não é ainda reconhecida 
como a teia em cujos fios os sujeitos estão pendurados e sobre os quais 
eles se tornam justamente sujeitos\u201d (LSW 240).
Somente a partir do enfoque linguístico esse aspecto se torna manifes-
to. Habermas se refere principalmente à obra de Ludwig Wittgenstein e a 
The Idea of a Social Science (1958) de Peter Winch, o qual foi influenciado 
fortemente pela teoria wittgensteiniana dos jogos linguísticos. O enfoque 
linguístico consegue entender que temos acesso ao mundo do social so-
mente por intermédio da linguagem. Portanto, ele renuncia à atitude das 
ciências sociais objetivizantes que avançam a pretensão de descrever este 
mundo da perspectiva de uma terceira pessoa imparcial. Por outro lado, ele 
tende a fazer um erro análogo, ao tentar enfrentar o pluralismo dos jogos 
linguísticos e o correspondente problema da sua tradução \u2013 e isto inclui, 
também, o problema da tradução das diferentes culturas e sistemas de va-
lores \u2013 remetendo a uma metalinguagem analítica. Nesse caso, o enfoque 
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hermenêutico é bem mais útil, já que ele parte do pressuposto de que não 
se verifica uma mera tradução entre culturas linguística e temporalmente 
distantes, mas uma fusão de horizontes: A perspectiva do intérprete não se 
perde, então, mas é incluída no processo de compreensão. \u201cAo contrário da 
análise linguística organizada de forma teórica, a hermenêutica consiste em 
aprender a entender um jogo linguístico a partir do horizonte da linguagem 
que já nos é familiar\u201d. Portanto, ela não acaba \u201cna situação constrangedora 
da análise linguística que não consegue justificar sua própria linguagem\u201d 
(LSW 283 s.).
Do ponto de vista hermenêutico, as fundamentações fenomenológica 
e linguística de uma sociologia da compreensão caem no objetivismo, \u201cjá 
que avançam a pretensão de que o observador fenomenológico e o filósofo 
analítico da linguagem assumiriam uma atitude meramente teórica\u201d, en-
quanto na hermenêutica não existe mais o papel do observador imparcial: 
\u201cA única que garante objetividade é uma participação refletida\u201d (LSW 284). 
O enfoque hermenêutico possui, contudo, seus limites, principalmente a 
incapacidade de ir além de uma mera interpretação dos fenômenos sociais. 
Além disso, deve-se levar em conta o fato de que também