Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)
197 pág.

Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)


DisciplinaPsiquiatria I1.975 materiais11.366 seguidores
Pré-visualização50 páginas
uma 
com a outra. Desse ponto de vista, cabe descrever sua dinâmica interna 
no âmbito da sociedade.
Como ponto de partida da reconstrução dessa dinâmica, Habermas 
toma a teoria da racionalização de Max Weber, que ele coloca em relação 
com as análises marcusianas da racionalidade das sociedades capitalistas 
industrialmente desenvolvidas (TCI 46 ss. [TWI 49 ss.]). Marcuse teria 
constatado que nestas últimas a dominação \u201ctende a perder seu caráter 
explorador e opressor e a tornar-se \u2018racional\u2019\u201d. Ela se legitimaria apoiando-
-se na \u201ccrescente produtividade e no crescente domínio da natureza, que 
também proporcionam aos indivíduos uma vida mais confortável\u201d (assim 
Marcuse, apud TCI 47 s. [TWI 50 f.]). Hoje, a dominação eterniza-se e 
amplia-se como tecnologia e isso \u201cproporciona a grande legitimação ao 
poder político\u201d (sempre Marcuse, apud TCI 49 [TWI 52]). O autor do One-
Dimensional Man (a Bíblia dos movimentos estudantis de 1968) teria sido o 
primeiro, segundo Habermas, a transformar \u201co \u2018conteúdo político da razão 
técnica\u2019 em ponto de partida analítico de uma teoria da sociedade tardo-
capitalista\u201d (TCI 50 [TWI 53]). Contudo, Habermas sente a falta \u2013 tanto 
em Marcuse como nas análogas análises críticas de Adorno, Horkheimer e 
Benjamin \u2013 da tentativa de desenvolver uma Nova Ciência alternativa (e 
uma correspondente Nova Técnica). Remetendo aos estudos antropológicos 
sobre a técnica de Gehlen,12 Habermas aponta para a impossibilidade de 
renunciar \u201cà técnica, isto é, à nossa técnica, substituindo-a por uma quali-
tativamente distinta\u201d (TCI 52 [TWI 57]). Ele vê a alternativa à técnica atual 
em uma estrutura de ação que não seja racional teleológica, mas consista 
em uma interação mediada simbolicamente. Desta maneira é colocada a 
primeira pedra para uma teoria do agir comunicativo.
NOtAs
 1. Ver DAHMS, Hans-J. Positivismusstreit. Die Auseinandersetzungen der Frankfurter 
Schule mit dem logischen Positivismus, dem amerikanischen Pragmatismus und dem 
kritischen Rationalismus. Frankfurt a. M.: Suhrkamp, 1994.
 2. O debate está documentado em ADORNO, Theodor W. et alii. Der Positivismusstreit 
in der deutschen Soziologie. Neuwied e Berlin: Luchterhand, 1969.
 3. SCHNEIDER, Norbert. Erkenntniskritik als Gesellschaftskritik: Jürgen Habermas. In: 
\u2013\u2013\u2013\u2013\u2013\u2013\u2013\u2013\u2013\u2013\u2013\u2013\u2013\u2013\u2013 . Erkenntnistheorien im 20. Jahrhundert. Klassische Positionen. Stuttgart: 
Reclam, 1998, 211.
58 Alessandro Pinzani
 4. Na Dialética do Esclarecimento, contudo, Adorno e Horkheimer não tinham atacado 
somente o positivismo, mas também a crença, característica das ciências naturais, 
na verdade dos dados acessíveis por meio da experiência sensível (ainda que se trate 
de uma experiência ampliada através da técnica). Esta crença é compartilhada pelo 
falibilismo popperiano.
 5. Cf. PETRUCCIANI, Stefano. Introduzione a Habermas, Roma e Bari: Laterza, 2000, 
48.
 6. Sobre as relações de Habermas (e de Apel) com a teoria do conhecimento de Rotha-
cker, cf. DAHMS, Hans-J. Positivismusstreit..., 1994, 363 ss.
 7. Esta é uma definição fortemente simplificada do conceito de jogo linguístico de 
Wittgenstein, que é muito mais complexo. Contudo, ela é sufficiente para nossas 
intenções.
 8. A tradução portuguesa utilizada por mim diz aqui \u201ccomo fruto de um dever\u201d, mas 
no original se lê \u201cals gewordene\u201d (particípio de \u201cwerden\u201d, que significa \u201cdevir\u201d): 
evidentemente se trata de um erro tipográfico.
 9. Sobre este assunto ver: WELLMER, Albrecht. Ethik und Dialog. Elemente des mora-
lischen Urteils bei Kant und in der Diskursethik. Frankfurt a. M.: Suhrkamp, 1986, e 
HÖFFE, Otfried. Eine republikanische Vernunft. Zur Kritik des Solipsismus-Vorwurfs. 
In SCHÖNRICH G. e KATO, Y. Kato (Hg.). Kant in der Diskussion der Moderne. Frank-
furt a. M.: Suhrkamp, 1996, 396\u2013407.
 10. HONNETH, Axel. Kritik der Macht. Reflexionsstufen einer kritischen Gesellschaftstheorie. 
Frankfurt a. M.: Suhrkamp, 1986, 265 s.
 11. HONNETH, Axel. Kritik der Macht. Reflexionsstufen einer kritischen Gesellschaftstheorie. 
Frankfurt a. M.: Suhrkamp, 1986, 245.
 12. GEHLEN, Arnold. Anthropologische Ansicht der Technik. In: FREYER, H., PAPALEKAS, 
J. Chr. E WEIPPERT, G. (Hg.). Technik im technischen Zeitalter. Stellungnahmen zur 
geschichtlichen Situation. Düsseldorf: Schilling, 1965, 101\u2013118.
o Programa emanciPatório de HaBermaS
Nos anos de 1960, houve um ulterior distanciamento de Adorno 
sem que se chegasse, contudo, a uma ruptura. Habermas toma, antes, 
um caminho que, na opinião de Adorno, estava definitivamente fechado. 
Pois Adorno, na sua teoria de uma \u201cdialética negativa\u201d, parece tomar 
uma atitude fundamentalmente pessimista que via na realidade presente 
um mundo irreparavelmente corrompido pela visão e pelo modo de vida 
capitalistas e que quase não deixava esperança para uma possível eman-
cipação humana.1 Habermas recusa esse pessimismo e tenta oferecer uma 
perspectiva a uma teoria social emancipatória. Com base na ideia já men-
cionada de um interesse que guia nosso conhecimento, ele distingue entre 
um interesse técnico, um prático e um emancipatório. O interesse técnico 
caracteriza as ciências empírico-analíticas que visam uma manipulação 
racional teleológica da natureza. O interesse prático caracteriza as ciências 
hermenêuticas que pretendem chegar a uma compreensão do sentido. O 
interesse emancipatório é visto por Habermas como estando presente nas 
ciências sociais críticas, na crítica da ideologia e na psicanálise \u2013 e isso o 
leva a estabelecer uma analogia entre o processo terapêutico individual e 
a atividade das ciências críticas do espírito. O interesse emancipatório é 
considerado por Habermas como sendo constitutivo da natureza humana 
(nisso há um forte elemento antropológico do pensamento habermasiano) 
e \u201cportanto, é colocado no mesmo nível transcendental-antropológico [...] 
das outras duas formas de conhecimento\u201d, a saber, as ciências naturais e 
as do espírito.2
CONHECimENtO E iNtEREssE
Este é o título da aula inaugural de Habermas em Frankfurt (TCI 129 
ss. [TWI 146 ss.]), na qual ele retoma a crítica husserliana das ciências 
4
60 Alessandro Pinzani
naturais. Husserl tinha acusado as ciências naturais matemáticas e físicas 
de desconsiderar o pano de fundo a partir do qual elas mesmas teriam 
surgido e efetuariam suas pesquisas. Ele defendia, contra essa maneira de 
proceder, uma \u201cvolta ao \u2018mundo da vida\u2019, isto é, ao mundo no qual vivemos 
desde sempre e que fornece o chão para qualquer realização cognitiva e 
para qualquer determinação científica\u201d.3 As ciências deveriam, portanto, 
tornar-se conscientes dos \u201cinteresses cognitivos\u201d que lhes oferecem fun-
damento e guia, pois todas elas possuem, segundo Husserl, uma \u201cvontade 
de conhecimento, quer por amor ao conhecimento, quer a serviço de uma 
finalidade prática\u201d.4
Habermas compartilha com Husserl a ideia de que \u201cuma atitude que 
relaciona ingenuamente os enunciados teóricos com os estados de coisas\u201d 
é objetivista e, como tal, deve ser rejeitada. Contudo, ele acusa Husserl 
de querer desconectar o conhecimento do interesse, para preparar o chão 
para uma teoria \u201cpura\u201d, contemplativa, e deixa claro que existe uma rela-
ção inevitável entre as regras lógico-metódicas e os interesses que guiam 
o conhecimento: \u201cNo exercício das ciências empírico-analíticas, imiscui-se 
um interesse técnico do conhecimento; no exercício das ciências histórico-
hermenêuticas, intervém um interesse prático do conhecimento e, no 
posicionamento das ciências de orientação crítica, está implicado [um] 
interesse emancipatório\u201d (TCI 137 [TWI 67]).
Habermas aprofunda esses pensamentos no seu livro, de grande su-
cesso, Conhecimento e interesse (1968), no começo do qual ele resume suas 
intenções da maneira seguinte: \u201cA análise da conexão entre conhecimento e 
interesse tem a finalidade de apoiar a afirmação de que a crítica do conhe-
cimento