Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)
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Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)


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Referências ...................................................................................................................................183
Índice onomástico e analítico .............................................................................................................
Prefácio
Certamente não é tarefa fácil classificar exatamente um pensador como 
Jürgen Habermas, que, além de ser ativo em quase todos os âmbitos da filo-
sofia, tem formulado importantes considerações sobre o estatuto e a lógica 
das ciências sociais, visando a criação de uma teoria crítica da sociedade. 
Ao mesmo tempo, Habermas é considerado o membro mais proeminente 
da segunda geração da Teoria Crítica, isto é, um herdeiro direto de Ador-
no, Horkheimer e Marcuse; um marxista não ortodoxo que quis dar novos 
impulsos ao materialismo histórico com a ajuda do pragmatismo norte- 
-americano, com a teoria do desenvolvimento de Piaget e Kohlberg e com 
a psicanálise de Freud; um filósofo moral e político que desenvolveu uma 
teoria discursiva da moral e do direito que está entre os empreendimentos 
filosóficos mais originais da segunda metade do século XX.
Os comentadores tendem a distinguir duas fases da sua obra: o pri-
meiro Habermas dos anos 1960 e 70, que teria desempenhado um papel 
particularmente meritório na sociologia alemã, e o Habermas tardio dos 
anos de 1980 e 90, que aparentemente se teria retirado definitivamente 
para o reduto da filosofia. Contudo, tal divisão negligencia o início pura-
mente filosófico da carreira de Habermas: sua dissertação sobre Schelling. 
Ademais, ela desconsidera a situação histórica na qual começou o seu 
percurso intelectual. Nas universidades da RFA, dos anos de 1950 e 60, 
não era incomum que filosofia e sociologia fossem ensinadas na mesma 
cátedra, como demonstra o exemplo de Adorno e de Horkheimer. A sepa-
ração das duas disciplinas resulta de uma controvérsia na qual Habermas 
teve uma participação decisiva: a chamada polêmica sobre o positivismo 
na sociologia alemã, em consequência da qual o estatuto epistemológico 
da sociologia experimentou uma mudança essencial. Isso, contudo, não 
impediu que Habermas procurasse e encontrasse inspiração tanto em filó-
sofos como Hegel e Kant, quanto em sociólogos como Weber, Parsons ou 
Luhmann. O fato de Habermas ter-se ocupado, em medida sempre maior 
8 Alessandro Pinzani
com os clássicos da filosofia ao longo do tempo, em particular a partir 
da publicação da Teoria do agir comunicativo, não significa, então, uma 
renúncia à perspectiva sociológica. Ele permanece nas palavras de um 
comentador, \u201ca má consciência\u201d da tentativa de tornar independentes as 
duas disciplinas.1
Igualmente incorreto seria falar em um Habermas que teria passado 
de Hegel \u2013 e/ou Marx \u2013 a Kant. Não há como negar a presença de influ-
ências kantianas na sua filosofia moral; contudo, é questionável afirmar 
que elas contrastem ou até contradigam as posições defendidas pelo jovem 
Habermas. Até a primeira fase do seu pensamento, influenciada por Hei-
degger, é marcada por uma ideia à qual Habermas nunca renunciou e que 
pode ser chamada, sem problemas, também de kantiana: a ideia de uma 
emancipação dos indivíduos enquanto seres autônomos. Esse interesse 
emancipatório guia todo o pensamento de Habermas e pode ser consi-
derado a sua marca característica. O aspecto original desse pensamento 
consiste justamente na capacidade de juntar os elementos mais diferentes 
e de elaborar a partir deles uma posição que, apesar de orientar-se, em 
geral, ao ideal da emancipação, nunca tenta explicar \u201co mundo a partir 
de um único ponto\u201d, como o próprio Habermas declarou numa entrevista 
(PCF 107 [VaZ, 150]). Ele admite, contudo, que sua obra é marcada por 
uma certa continuidade: \u201cTenho uma motivação conceitual e uma intuição 
fundamental [...]. O pensamento que forma tal motivação é a reconciliação 
da modernidade dilacerada consigo mesma\u201d (NU 202) \u2013 uma reconciliação 
que pode ser interpretada, justamente, como emancipação.
O presente trabalho oferece uma introdução geral ao pensamento de 
um dos autores mais produtivos da contemporaneidade. Isso explica duas 
características: o uso de uma linguagem simplificada (um pouco como 
contrapeso ao estilo de Habermas, que, às vezes, é muito complicado) 
e a renúncia a avaliações ou confrontações aprofundadas com a posição 
habermasiana; em lugar disso, será oferecida uma reconstrução o mais 
ampla possível da totalidade da obra deste pensador \u2013 ainda que este livro 
leve consigo o risco de ser acusado de estar fazendo uma mera paráfrase. 
A meu ver, não é tarefa de introduções como a presente tomar posições 
críticas que, por um lado, poderiam refletir a opinião subjetiva do autor e, 
por outro lado, se não querem manipular o leitor, devem pressupor neste 
último uma atitude crítica que só pode ser construída com base no conhe-
cimento aprofundado do pensamento em questão. Quem quer alcançar tal 
conhecimento deve recorrer às obras do próprio Habermas e formar sua 
própria opinião \u2013 mesmo com a ajuda de comentadores, aos quais aqui 
também se fará referência.
Contudo, a presente introdução almeja um fim ambicioso. Ela quer 
apresentar o pensamento de Habermas em toda a sua variedade e mostrar 
seu valor histórico \u2013 o que não é fácil, tratando-se de um autor vivo. Ela 
9 Habermas
tenta apresentar a obra de Habermas de maneira tal que apareçam clara-
mente as relações entre as diversas fases e obras, já que para entender um 
pensador é necessário essencialmente possuir um olhar compreensivo do 
seu caminho intelectual. O fato de uma das características principais do 
pensamento de Habermas consistir na capacidade de estabelecer um diálogo 
contínuo com diferentes autores (filosofos, sociologos, economistas, juristas 
e cientistas políticos) contribui, em parte, para a dificuldade de acesso às 
suas obras. Por exemplo, em obras enormes e complexas como a Teoria do 
agir comunicativo ou Direito e democracia, não é fácil separar a posição do 
próprio Habermas da sua reconstrução e avaliação da posição de outros 
pensadores. Para nos expressarmos de forma metafórica, poderíamos dizer 
que Habermas se comporta como uma esponja: ele absorve as teorias de 
outros autores, filtrando-as e mantendo delas o que é útil para a sua própria 
teoria. Este livro pretende fazer uma análoga obra de filtragem e apresentar 
o essencial deste pensador extraordinariamente variado.
Para a tradução em língua portuguesa, emendei alguns pequenos erros 
presentes na edição original alemã e fiz poucas e mínimas modificações a fim 
de esclarecer pontos que, conquanto não problemáticos para o leitor alemão, 
poderiam não ficar tão evidentemente claros ao público brasileiro.
Gostaria de agradecer, em primeiro lugar, a Otfried Höffe, que me 
motivou a escrever este livro, e a Maria Moneti, que me introduziu no 
pensamento de Habermas. Os colegas e estudantes em Florença, Tubinga 
e Florianópolis me ajudaram em inúmeros debates e diálogos, a elaborar 
e rever minha interpretação deste pensamento. Gostaria de mencionar 
particularmente Jean-Christophe Merle, Christoph Horn, Christof Rapp, 
Rolf Geiger, Nico Scarano, Tim Wagner, Constantin Rauer, Debora Spini, 
Francesco Puglioli, Delamar Dutra, Sônia Felipe, Darlei Dall\u2019Agnol, Maria 
de Lourdes Borges, Paulo Krischke, Antônio Cavalcanti Maia, Marcos Nobre 
e Marcel Schneider Dietzold. Um agradecimento particular a Andrea Hem-
minger da editora C. H. Beck pelo precioso trabalho de redação e revisão 
do manuscrito original. Finalmente, agradeço muito a Fernando Coelho a 
ajuda na revisão linguística da tradução.
NOtA
 1. A. Kieserling. Zwischen Soziologie und Philosophie: Über Jürgen Habermas, in: 
Müller-Doohm, St. (Hg.): Das Interesse der Vernunft. Rückblicke auf das Werk von 
Jürgen Habermas seit \u201cErkenntnis und Interesse\u201d, Frankfurt a. M., 2000, 25