Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)
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Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)


DisciplinaPsiquiatria I1.975 materiais11.377 seguidores
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antes de poder objetivar-se em sua primeira 
manifestação vital \u2013 seja esta em palavras, em atitudes ou em ações\u201d (CI 
169 s. [EuI 198]). E a hermenêutica como método se coloca em primeiro 
plano como apropriação dos \u201cconteúdos semânticos legados por tradição\u201d 
(CIs 173 [EuI 204]), dirigida a expressões verbais, a ações e a expressões 
vivenciais. Estas três classes de \u201cmanifestações vitais\u201d (CI 175 [EuI 206 
s.]) antecipam os três tipos de pretensões de validade que desempenharão 
um papel central na teoria discursiva de Habermas, a saber: pretensões de 
verdade de enunciados, pretensões de validade de normas e pretensões de 
verossimilhança de expressões dramáticas.
Na sua análise da posição de Dilthey, Habermas retoma considerações 
que ele tinha formulado no âmbito do debate sobre o positivismo: as ciên-
cias hermenêuticas e as ciências empírico-analíticas se deixam conduzir por 
interesses cognitivos; mas, enquanto estas últimas visam o domínio técnico 
de processos naturais, as primeiras \u201cprocuram assegurar a intersubjetivida-
de da compreensão nas formas correntes da comunicação e garantir uma 
ação sob normas que sejam universais\u201d. O interesse cognitivo prático das 
ciências do espírito consiste em garantir \u201ca possibilidade de um acordo sem 
coação e de um reconhecimento mútuo sem violência\u201d (CI 186 [EuI 221 
s]), que deem coesão a uma determinada forma de vida. A diferença entre 
ciências naturais e do espírito corresponde, então, à diferença entre agir 
instrumental e comunicativo. Em ambos os casos, o que está em questão é 
a reprodução e autoconstituição da espécie humana, a qual \u2013 conforme as 
teses já formuladas por Habermas em \u201cTécnica e ciência como \u2018Ideologia\u2019\u201d 
\u2013 acontece no nível antropológico nas formas do trabalho e da interação 
(CI 217 [EuI 242]). A estas duas categorias correspondem os interesses 
que guiam o conhecimento das ciências naturais e do espírito, interesses 
que Peirce e Dilthey tornaram claros sem, contudo, elaborar o correspon-
dente conceito (CI 218 [EuI 243]). A causa disso, segundo Habermas, está 
no fato de eles não conceberem sua metodologia como autorreflexão da 
ciência (CI 219 [EuI 244]). A autorreflexão está, portanto, intimamente 
ligada à emancipação, já que representa uma \u201clibertação da dependência 
dogmática\u201d (CI 228 [EuI 256]). Por isso, é preciso reconhecer um interesse 
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cognitivo emancipatório que existe legitimamente ao lado do interesse 
técnico das ciências naturais e do prático das ciências do espírito. \u201cComo 
o único exemplo disponível de uma ciência que reivindica metodicamente 
o exercício autorreflexivo\u201d, Habermas menciona a psicanálise freudiana 
(CI 233 [EuI 262]). Ela é, por um lado, autorreflexão enquanto é metate-
oria, reflexão sobre seu próprio status como ciência e sobre \u201cas condições 
de possibilidade do conhecimento psicanalítico\u201d (CI 269 [EuI 310]). Por 
outro lado, ela é autorreflexão enquanto atividade de interpretação de 
um sujeito que estuda a si mesmo. É precisamente essa característica que 
interessa a Habermas.
O nosso autor estabelece um paralelo entre psicanálise e hermenêuti-
ca: central para ambas é uma interpretação que é, ao mesmo tempo, uma 
apropriação e uma crítica, cuja tarefa é restabelecer \u201co texto mutilado da 
tradição\u201d (CI 235 [EuI 265]), ainda que, no caso da psicanálise, o texto 
em questão sejam as memórias do paciente, de maneira que as mutilações 
não são \u201cdeficiências acidentais\u201d (ibid.), mas possuem sentido em si, já que 
tornam visível, de certa forma, o autoengano do sujeito e o torna acessí-
vel à análise. O que é decisivo é que, na terapia psicanalítica, é o próprio 
sujeito que cumpre o trabalho de clarificação. \u201cO ato de compreender [...] 
é autorreflexão\u201d (CI 246 [EuI 280]). Além disso, o conhecimento da aná-
lise é atividade crítica no sentido de levar o sujeito a uma transformação 
existencial. Essa transformação é precedida pela \u201cexperiência da dor e 
da carência\u201d e pelo \u201cinteresse pela remoção do estado pesaroso\u201d (CI 251 
[EuI 286]) \u2013 em suma: o interesse pela emancipação, pela autolibertação. 
Nesse sentido, esse tipo de crítica representa um modelo para uma teoria 
social crítica, cujo interesse emancipatório consiste na eliminação da dor 
e da carência sociais.
Cada interpretação pertinente \u2013 quer no âmbito da psicanálise, quer 
em geral no âmbito das ciências do espírito \u2013 restabelece, portanto, \u201cuma 
intersubjetividade perturbada da compreensão mútua\u201d (CI 277 [EuI 319]). 
Ela acontece sempre \u201cna moldura de uma comunicação inerente à lingua-
gem cotidiana\u201d e leva à exposição narrativa de uma história individual (CI 
281 [EuI 324]). O interesse pelo conhecimento da terapia psicanalítica é, 
portanto, ao mesmo tempo um interesse pela emancipação \u2013 do sujeito 
individual, mas também da sociedade, já que Freud prevê uma aplicação 
da psicanálise a esta última.7
O interesse cognitivo emancipatório deve levar à formação de uma 
teoria social crítica que \u2013 analogamente à psicanálise freudiana \u2013 iden-
tifique as patologias sociais e contribua com isso à sua eliminação. Tais 
patologias são concebidas por Habermas primariamente como patologias 
da reprodução simbolicamente mediada da sociedade. Uma teoria crítica 
do social deveria, portanto, ser em primeiro lugar uma teoria da interação 
simbólica.
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O DEBAtE COm lUHmANN
Habermas retoma temáticas da sua polêmica com o positivismo no 
debate com Niklas Luhmann, que os dois pensadores efetuaram em uma 
série de ensaios que foram reunidos em 1971 em um livro com o título 
Teoria da sociedade ou tecnologia social. Na impossibilidade de oferecer uma 
reconstrução minuciosa desse debate e da teoria de Luhmann, altamente 
complexa, nos limitaremos, nesse contexto, a algumas rápidas observações 
sobre os pontos mais relevantes desse debate.
Habermas considera a teoria sistêmica da sociedade de Luhmann como 
a herdeira das teorias sociais positivistas por ele tão criticadas, já que ela 
exerce uma função de legitimação do poder no contexto de um sistema 
político baseado na despolitização dos cidadãos. Luhmann introduziria 
uma \u201canálise de cunho sociotecnológico\u201d no lugar de discursos práticos e 
pretenderia acabar com qualquer tendência à democratização em nome de 
uma racionalização das decisões que visa a eficiência. A teoria de Luhmann 
representaria, \u201cpor assim dizer, a forma mais alta de uma consciência tec-
nocrática que permite hoje definir a priori questões práticas como questões 
técnicas e que, com isso, se subtrai a uma discussão pública e livre\u201d (TGS 
145). Segundo Habermas, o sociólogo de Bielefeld veria a sociedade como 
um sistema fechado em si mesmo que se autorreproduz (autopoético) e que 
inclui todos os outros sistemas sociais (o direito, a economia, a religião, a 
política, etc.). Os sistemas são unidades estruturadas de forma invariável 
no tempo, que se mantêm em um ambiente complexo e mutável pelo fato 
de diferenciar-se continuamente deste último, ou seja, de estabilizar uma 
diferenciação entre interno e externo. A conservação do sistema pressupõe 
a conservação dos seus limites. Para alcançar esse fim, ele deve reduzir a 
complexidade. Já que o ambiente é sempre mais complexo do que o siste-
ma, os sistemas formam e mantêm \u201cilhas de complexidade menor\u201d. Eles 
devem ser complexos o bastante para responder com reações de autocon-
servação a transformações do ambiente que lhes dizem respeito (TGS 146 
ss.). Segundo Habermas, esse modelo é \u201cevidentemente adequado para as 
atividades dos sistemas orgânicos\u201d, mas inutilizável em relação a uma teoria 
geral da sociedade. Diferentemente de um organismo, um sistema social 
não é imutável: \u201cUm asno não pode transformar-se em uma cobra [...]. 
Um ordenamento social, pelo contrário, pode experimentar transformações 
estruturais profundas, sem perder sua identidade e sua continuidade estru-
tural\u201d \u2013 ele pode, por