Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)
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Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)


DisciplinaPsiquiatria I1.975 materiais11.369 seguidores
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avançam 
perante o Estado exigências meramente egoísticas que este último satisfaz 
com medidas de bem-estar social (Habermas retoma aqui suas considera-
ções sobre a democracia e a crise da participação política apresentadas no 
prefácio de Universitários e política; cf. II.4).
As estruturas do capitalismo tardio podem ser compreendidas, segundo 
Habermas, \u201ccomo formações de reação a crises endêmicas\u201d (CLCT 53 [LSK 
56]). Já que o sistema econômico perdeu em autonomia frente ao Estado, 
\u201cas manifestações de crise no capitalismo avançado também perderam seu 
caráter natural\u201d: as crises econômicas cíclicas se amenizaram, mas delas 
resultou uma crise administrativa permanente, já que o Estado não é capaz 
de lutar com sucesso contra os fenômenos de crise (CLCT 119 [LSK 129]). 
Em tudo isso, a ser ameaçada de crise é a sociedade global, pois podem 
69 Habermas
ocorrer distúrbios no equilíbrio ecológico, antropológico e internacional 
(CLCT 57 ss. [LSK 61 ss.]), e a crise pode ser não simplesmente econômica, 
mas também política e sociocultural. Como crise do sistema político, ela 
toma a forma de uma crise de racionalidade ou de legitimação: no primeiro 
caso, o sistema administrativo não consegue \u201ccumprir os imperativos [de 
gestão] recebidos do sistema econômico\u201d; no segundo caso, não é manti-
do \u201co nível requerido de lealdade de massa\u201d (CLCT 64 [LSK 69]). Nesse 
contexto, Habermas considera a relação histórica entre direito burguês e 
moral universal. Ambos se baseiam na ideia da validade universal de nor-
mas e princípios e ambos possuem um caráter formal. À tal ética formal, 
Habermas contrapõe agora uma ética comunicativa (à concepção mera-
mente formal do direito contraporá sucessivamente uma teoria discursiva 
do mesmo) \u2013 uma primeira menção daquela que, em seguida, chamará de 
ética do discurso (cf. VIII).
No sistema sociocultural, a crise toma a forma de uma crise de mo-
tivação que surge com as modificações no nível da tradição cultural e do 
sistema educacional e que ameaça a integração social (CLCT 65 ss. [LSK 
70 s.]). Habermas aponta aqui para temas como a crise da identidade in-
dividual e de grupo, que o ocuparão nos anos seguintes.10 O livro termina 
com uma análise dos processos de racionalização das modernas sociedades 
ocidentais, que, em seguida, será retomada e aprofundada na Teoria do 
agir comunicativo (cf. VI).
iDENtiDADE DO EU E DEsENvOlvimENtO DA CONsCiêNCiA mORAl
A coletânea de ensaios Para a reconstrução do materialismo histórico 
(1976) contém textos escritos no contexto do desenvolvimento da teoria 
do agir comunicativo, mas não representam diretamente trabalhos preli-
minares a ela, antes possuem um valor por si próprios. Neles, Habermas 
retoma vários temas de A crise de legitimação no capitalismo tardio para 
aprofundá-los e, em parte, elaborá-los ulteriormente (como no caso do 
recurso à teoria evolutiva da consciência moral de Kolhberg no ensaio 
\u201cDesenvolvimento da moral e identidade do Eu\u201d). Ao fazer isso, ele tenta 
esclarecer a relação entre sua teoria do agir comunicativo (já avançada no 
seu desenvolvimento) e o marxismo (sobre este ponto voltarei em IV.5), 
assim como oferecer uma reconstrução do materialismo histórico. \u201cRecons-
trução\u201d significa, nesse contexto, como Habermas explica na introdução ao 
livro, \u201cque uma teoria é desmontada e recomposta de modo novo, a fim 
de melhor atingir a meta que ela própria se fixou\u201d (RMH 11 [RHM 9]). 
O materialismo histórico quer ser uma teoria crítica da sociedade e como 
tal explicar a evolução social de maneira diferente \u201cdas teorias burguesas 
70 Alessandro Pinzani
dominantes\u201d (RMH 12 [RHM 10]). Ao fazer isso, contudo, Marx ficou preso 
\u201cna dimensão do pensamento objetivante, do saber técnico e organizativo, 
do agir instrumental e estratégico\u201d, já que ele \u201clocalizou os processos de 
aprendizagem evolutivamente relevantes\u201d, que permitem a evolução social 
no âmbito das forças de produção. Tais processos de aprendizagem existem, 
porém, em outros âmbitos também, a saber: \u201cna dimensão da convicção 
moral, do saber prático, do agir comunicativo e da regulamentação con-
sensual dos conflitos de ação\u201d (RMH 13 [RHM 11 s.]). Habermas retoma, 
então, a crítica a Marx avançada em Ciência e técnica como \u201cideologia\u201d, 
mas introduz um conceito que perpassa como um fio condutor todos os 
ensaios de Para a reconstrução do materialismo histórico: o conceito de 
evolução. Uma teoria crítica da sociedade (como o materialismo histórico 
ou a teoria do agir comunicativo) se põe, primeiramente, a tarefa herme-
nêutica de mostrar a lógica evolutiva ativa quer nas tradições culturais, 
quer nas transformações institucionais. Além disso, ela deve identificar 
os mecanismos de desenvolvimento que levam à transformação de estru-
turas normativas, valores culturais, representações morais, etc. Em tudo 
isso, Habermas afirma, conforme a posição marxista tradicional, que essa 
dinâmica de desenvolvimento é dependente de mecanismos econômicos: 
\u201ca cultura permanece um fenômeno superestrutural, embora na passagem 
para novos níveis de desenvolvimento ela pareça ter um papel mais pree-
minente do que o supuseram até agora muitos marxistas\u201d. A contribuição 
que a teoria comunicativa pode dar a um renovado materialismo histórico 
consiste, justamente, em fazer justiça a este papel \u201cmais preeminente\u201d 
da cultura (RMH 14 [RHM 12]). Ela cumpre tal tarefa ao investigar as 
estruturas da intersubjetividade produzida linguisticamente, as quais 
são \u201ctão constitutivas para os sistemas da sociedade quanto as estrutu-
ras da personalidade\u201d. Sistemas sociais podem, pois, ser compreendidos 
como um \u201ctecido de ações comunicativas\u201d, enquanto as estruturas da 
personalidade podem ser \u201cconsideradas sob o aspecto da capacidade de 
linguagem e de ação\u201d (ibid.). Instituições sociais e competências de ação 
individuais apresentam as mesmas estruturas de consciência. Isso se tor-
na particularmente evidente, segundo Habermas, naquelas instituições 
que impedem que, em casos de conflito, a dimensão intersubjetiva seja 
ameaçada, a saber: a moral e o direito (RMH 24 [RHM 13]). Quando o 
consenso de fundo que rege nossa vida cotidiana se perde, o seu lugar é 
tomado pela regulamentação consensual dos conflitos por meio das insti-
tuições do direito e da moral (RHM 31 [RMH 30]). Habermas pensa que 
a evolução social das concepções do direito e da moral acontece segundo 
os mesmos padrões. Esses são descritos no nível ontogenético, isto é, no 
nível da identidade do Eu, em geral pela psicologia do desenvolvimento 
cognitivo de Piaget, que teoriza a existência de diferentes níveis de de-
senvolvimento da consciência.
71 Habermas
Habermas julga poder reconhecer certas homologias entre o modelo 
ontogenético de desenvolvimento de Piaget e o modelo filogenético da 
formação da identidade coletiva ou da evolução das imagens do mundo. 
Em outras palavras, haveria uma homologia entre os diferentes níveis de 
desenvolvimento do Eu e as diferentes fases da evolução de culturas e 
sociedades \u2013 quer em relação ao desenvolvimento cognitivo (RMH 18 ss. 
[RHM 17 ss.]), quer em relação à formação da identidade (caso em que 
a formação da identidade de grupo segue o mesmo modelo da formação 
da identidade do Eu) e em relação à consciência moral. Aqui, Habermas 
se refere às teorias de Piaget, Erikson, Mead, mas, sobretudo, aos estudos 
do piagetiano Lawrence Kohlberg. \u201cO processo de formação de sujeitos 
capazes de linguagem e de ação percorre uma série irreversível de estágios 
de desenvolvimento discretos e cada vez mais complexos; nenhum estágio 
pode ser saltado\u201d (RMH 53 [RHM 67]). Esse é um processo de aprendiza-
gem durante o qual o sujeito ganha um grau sempre maior de autonomia 
e que ocorre por meio de crises: a passagem para cada nível superior é 
provocada por uma crise de maturação. Desse modo, o indivíduo alcan-
ça uma competência