Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)
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Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)


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de linguagem e de ação que lhe permite satisfazer 
determinadas exigências levantadas pelo seu ambiente natural e social. 
Seguindo o psicólogo germano-americano Erik Erikson, Habermas afirma 
que a identidade do indivíduo é gerada por um processo de socialização, 
\u201cou seja, vai-se processando à medida que o sujeito \u2013 apropriando-se dos 
universos simbólicos \u2013 se integra, antes de mais nada, em um certo siste-
ma social\u201d (RMH 54 [RHM 68]). Um papel particularmente importante 
em tudo isso é desempenhado pela interiorização ou internalização de 
estruturas externas.
O que interessa a Habermas é, sobretudo, o desenvolvimento da 
consciência moral. Nesse ponto, ele retoma o modelo em seis estágios 
elaborado por Kohlberg, segundo o qual o indivíduo pode percorrer as 
seguintes etapas (ainda que isto não aconteça necessariamente):
 I. Nível pré-convencional, no qual a criança reconhece a autoridade 
dos pais, professores, etc. e orienta o seu comportamento pelo 
prazer ou desprazer, que é a consequência imediata da obediên-
cia ou desobediência das regras. Ao fazer isso, ele percorre dois 
estágios:
 1. Orientação por punição e obediência (a criança segue as 
regras para não ser punida ou para ser premiada);
 2. Hedonismo instrumental (a criança segue as regras porque 
correspondem ao seu interesse imediato).
 II. Nível convencional, no qual a criança aceita simplesmente as 
regras porque elas vigem no seu ambiente. Os dois estágios que 
formam este nível são:
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 3. Orientação \u201cbom moço \u2013 moça bem comportada\u201d: a criança 
se adapta a um modelo de comportamento estereotipado e 
dominante na sua sociedade;
 4. Orientação \u201clei e ordem\u201d: a criança aprende a respeitar a 
autoridade e a fazer a sua parte para manter a ordem social, 
sem questionar nem tal autoridade, nem tal ordem.
 III. Nível pós-convencional, no qual o indivíduo adulto desenvolve 
uma concepção moral autônoma independentemente dos mo-
delos comportamentais tradicionais ou da pressão social para a 
adaptação. Os dois estágios correspondentes são:
 5. Orientação social-contratual: o indivíduo se orienta pelos 
direitos e liberdades subjetivos, assim como por padrões de 
comportamento sobre os quais há na sociedade um consenso 
geral alcançado de forma argumentativa, isto é, não por um 
mero apelo à tradição;
 6. Orientação por uma ética fundamentada por princípios: 
O indivíduo decide com base em quais princípios orientar 
seu agir; não se tratam de normas éticas concretas, mas de 
princípios abstratos sobre os quais podem ser fundamenta-
das regras morais (Kohlberg menciona princípios gerais de 
justiça, os direitos humanos, o respeito da dignidade humana 
e do indivíduo).
A estes seis estágios, Habermas acrescenta um sétimo: Enquanto no 
estágio 6 as normas morais são fundamentadas monologicamente, isto é, 
cada um verifica por si mesmo a validade da norma em questão, no novo 
estágio tais normas devem ser verificadas de forma discursiva (RMH 69 
[RHM 84]). Assim, alude-se à ideia de uma ética do discurso, que não é, 
porém, desenvolvida (cf. VIII).
Habermas tenta, em seguida, aplicar o modelo de desenvolvimento da 
identidade do Eu e da consciência moral às sociedades. Em uma série de 
ensaios (p. ex.: \u201cAs sociedades complexas podem formar uma identidade 
racional de si mesmas?\u201d, \u201cSobre a comparação das teorias na sociologia: 
O exemplo da teoria da evolução social\u201d ou \u201cHistória e evolução\u201d, todos 
contidos no volume em questão) ele tem por fim desenvolver uma teoria 
da evolução social que explique a passagem das sociedades convencionais 
fundadas na tradição às sociedades pós-convencionais, de maneira a de-
monstrar o potencial emancipatório presente nas sociedades modernas. Ao 
fazer isso, Habermas se apropria da perspectiva teórica do materialismo 
histórico: \u201cUma teoria da evolução social como história do gênero deve-
ria ser concebida de forma tal a esclarecer pelo menos três problemas: a 
passagem às culturas avançadas e, portanto, o surgimento das sociedades 
de classe; a passagem à modernidade e, portanto, o surgimento das socie-
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dades capitalistas; e, finalmente, a dinâmica de uma sociedade mundial 
antagônica\u201d (RHM 129 s.).11 Desta maneira, é reforçada a ideia de uma 
renovação (que não é uma simples retomada) do elemento de filosofia da 
história presente no marxismo. Contudo, a teoria da evolução social em 
questão não é desdobrada completamente, mas tão-somente esboçada. Nos 
anos seguintes, Habermas não continuará esse projeto: na sua teoria do 
agir comunicativo preferirá recorrer à teoria weberiana da racionalização 
para explicar exclusivamente o surgimento das modernas sociedades pós-
-convencionais.
Particularmente interessante é a questão levantada por Habermas: 
se se poderia falar em uma identidade racional da sociedade, já que isto 
significaria não somente um uso normativo do conceito de identidade, mas 
implicaria também que \u201cuma sociedade pode não apreender sua identidade 
\u2018autêntica\u2019 ou \u2018verdadeira\u2019\u201d (RMH 77 [RHM 92]). Nosso autor recorre aos 
resultados de pesquisas antropológicas e sociológicas a fim de distinguir 
quatro estágios da evolução social que ele denomina de maneira diferente 
em diferentes ensaios sem, contudo, modificar muito sua caracterização. O 
primeiro estágio \u2013 respectivamente: sociedades arcaicas (RMH 82 [RHM 
97]), sociedades primitivas (RHM 135) e sociedades neolíticas (RMH 137 
[RHM 173]) \u2013 é caracterizado pelo desenvolvimento de imagens míticas 
do mundo, pela orientação por um sistema de ação estruturado em termos 
convencionais e por uma regulamentação pré-convencional dos conflitos 
jurídicos (compensação dos danos e reconstituição do status quo ante). No 
segundo estágio \u2013 primeiras civilizações (RMH 83 e 138 [RHM 98 e 173], 
civilizações arcaicas (RHM 135) \u2013 se desenvolve uma organização política 
que necessita de uma justificação \u201ce, por isso, é englobada nas interpre-
tações religiosas e garantida por rituais\u201d (RMH 83 [RHM 98]). Também 
nesse caso nos deparamos com um sistema de ação estruturado em termos 
convencionais e a regulamentação dos conflitos acontece por meio do 
recurso a uma moral \u201cligada à figura jurisdicional ou de representante da 
justiça do detentor do poder\u201d, com a consequente \u201cpassagem da represália 
à pena\u201d (RMH 138 [RHM 173]). O terceiro estágio \u2013 grandes civilizações 
desenvolvidas (RMH 84 e 138 [RMH 99, 135 e 173]) \u2013 é caracterizado 
novamente pelo sistema de ação estruturado em termos convencionais, mas 
também por uma ruptura com o pensamento mítico. A moral utilizada na 
regulamentação dos conflitos é ainda uma moral convencional, mas des-
ligada da pessoa do detentor do poder (direito sistematizado). O quarto 
estágio \u2013 a era moderna (RMH 85 e 138 [RHM 100 e 173], a primeira 
modernidade (RHM 135) \u2013 se distingue claramente dos precedentes. Ele 
apresenta âmbitos de ação estruturados em termos pós-convencionais 
(empresa capitalista, direito privado burguês, democracia formal), dispõe 
de \u201cdoutrinas de legitimação de composição universalista (direito natural 
racional)\u201d, e nele a regulamentação dos conflitos acontece \u201ca partir do 
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ponto de vista de uma rigorosa separação entre legalidade e moralidade 
(direito geral, formal e inteiramente racionalizado, moral privada guiada 
por princípios)\u201d (RMH 138 [RHM 173]).
Com base em tais considerações ligadas a uma teoria (sócio-)evoluti-
va, a história pode \u201cser interpretada como evolução, isto é, como processo 
dotado de uma direção\u201d (RMH 144 [RHM 179]). Enquanto o materialismo 
histórico constatava progressos somente na dimensão do saber utilizável 
tecnicamente, isto é, no desenvolvimento das forças de produção, Habermas 
afirma a existência de níveis de desenvolvimento também para as formas 
de integração social. Isso remete novamente à questão da identidade de 
uma sociedade. Tal