Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)
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Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)


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como vimos (cf. IV.5).
81 Habermas
Segundo Habermas, é possível fundar uma teoria da sociedade sobre 
o conceito central de sentido, isto é, conceber tal teoria como ciência inter-
pretativa. Como tal, ela tem como seu objeto não o mero comportamento, 
mas o agir. O agir é um comportamento intencional, isto é, \u201cum comporta-
mento dirigido por normas ou orientado por regras\u201d (VTKH 13). Normas e 
regras possuem um sentido que é preciso interpretar e entender. A ciência 
em questão não pode, portanto, contentar-se com a mera observação de 
comportamentos, mas deve tentar compreender o sentido das ações e das 
normas e regras que as determinam. Isso tem importantes consequências 
metodológicas, já que as observações podem ser controladas por certos 
procedimentos reduzíveis a mensurações físicas, enquanto a interpretação 
do sentido de ações e normas depende de uma compreensão linguística 
pré-científica. O fato de tal interpretação ser adequada (ou não) pode ser 
verificado \u201csomente fazendo referência ao saber do sujeito\u201d, já que se parte 
do pressuposto de que um sujeito capaz de falar e de agir possui um saber 
implícito acerca de regras, visto que domina as normas linguísticas e de 
ação. Esse saber implícito \u201coferece a base experiencial sobre a qual devem 
fundar-se as teorias do agir, enquanto teorias estritamente científicas do 
comportamento podem referir-se exclusivamente a dados observáveis\u201d 
(VTKH 17).
A tese central de Habermas, aqui, é de que a tarefa da teoria é re-
construir a formação do sistema de regras que sujeitos capazes de agir e 
dotados de competência linguística aplicam irrefletidamente no seu agir 
cotidiano. Isso é possível somente se pensarmos a sociedade \u201ccomo um 
contexto vital estruturado acerca de certos sentidos\u201d (VTKH 19), que pode 
ser interpretado hermeneuticamente, e se dispusermos de uma teoria da 
competência linguística. Nesse ponto, Habermas recorre novamente ao 
conceito husserliano de mundo da vida e à teoria wittgensteiniana dos jo-
gos linguísticos, integrando-as com a teoria gramatical de Noam Chomsky. 
Esta última visa explicar apropriadamente o sistema de regras graças ao 
qual falantes (ou ouvintes) competentes produzem (ou compreendem) 
séries de expressões linguísticas. \u201cCompetência linguística indica a capa-
cidade de dominar tal sistema de regras\u201d. Um falante competente pode, 
\u201cpor meio de um número finito de elementos, produzir e compreender 
um número indeterminado de séries de símbolos, inclusive as que até o 
momento nunca foram formuladas; além disso, ele pode [...] distinguir 
entre expressões formuladas corretamente ou irregularmente\u201d (VTKH 
84). A teoria gramatical de Chomsky pretende apresentar os elementos 
universais sobre os quais se baseia qualquer língua particular. O linguista 
norte-americano parte, então, da hipótese de uma capacidade linguística 
inata: a criança não aprende a sua língua materna somente por meio do 
material linguístico que a família e a escola lhe oferecem, mas pode, ao 
mesmo tempo, aprendê-la usando o material linguístico do seu ambiente 
82 Alessandro Pinzani
graças a esse saber inato sobre a estrutura das linguagens naturais (VTKH 
86 s.). Portanto, todos os membros mediamente socializados de uma co-
munidade linguística são capazes, à medida que tenham aprendido a falar, 
de dominar o correspondente sistema de regras linguísticas: todos eles 
possuem a mesma competência linguística.
A linguística se limita \u201càs expressões linguísticas e abstrai das situ-
ações nas quais elas podem ser utilizadas\u201d: ela se ocupa de orações. Mas 
Habermas pretende esboçar uma pragmática universal fundada na intui-
ção de fundo da teoria de Chomsky; os elementos universais em questão 
são, porém, de natureza pragmática: a pragmática universal se ocupa de 
enunciados. Para esse fim, Habermas recorre à teoria dos atos linguísticos 
(ou de fala) de John L. Austin (1911-1960) e de John R. Searle (nascido 
em 1932), embora ambos defendam ainda, aos olhos do nosso autor, uma 
versão de cunho semântico de tal teoria (VTKH 386). Em sua obra How 
to Do Things With Words,4 Austin distingue inicialmente entre enunciados 
constativos e performativos. Os primeiros são constatações ou descrições 
(p. ex., \u201ceste lápis é vermelho\u201d), os segundos remetem ao cumprimento de 
uma ação (p. ex., \u201cprometo-te que farei isto\u201d). Ora, já que nem sempre é 
possível distinguir claramente enunciados constativos de enunciados per-
formativos, em um segundo passo, Austin descreve os atos linguísticos de 
maneira diferente, identificando em cada enunciado um ato locucionário, 
um ilocucionário e um perlocucionário. O ato locucionário diz respeito à 
dimensão meramente linguística (p. ex., o meu amigo me diz \u201camanhã 
te visitarei\u201d); o ato ilocucionário atribui ao enunciado um determinado 
papel que pode ser compreendido somente em um determinado contexto 
(isso me permite saber se meu amigo está simplesmente afirmando que 
amanhã me visitará ou se está prometendo fazê-lo); o ato perlocucionário 
se refere ao efeito extralinguístico (vou comprar uma garrafa de vinho 
para tomá-la com meu amigo amanhã). Searle retoma a classificação de 
Austin e a desenvolve sistematicamente, investigando a estrutura dos atos 
ilocucionários, particularmente das promessas.5 Ao fazer isso, ele enumera 
uma série de regras semânticas que regulamentam o uso dos indicadores 
dos papéis ilocucionários (isto é, regras que devo aplicar para que um 
determinado enunciado possa ser reconhecido como promessa, pergunta, 
mandamento, etc.).
Ora, Habermas acha que um ato linguístico consiste \u201cem um enunciado 
performativo e em um enunciado com conteúdo proposicional dependente 
do primeiro\u201d (p. ex., \u201cPrometo que amanhã te visitarei\u201d). O enunciado per-
formativo estabelece uma relação intersubjetiva entre falante e ouvinte (eu 
te faço uma promessa); o enunciado dependente dele serve para comunicar 
sobre coisas ou circunstâncias (minha promessa concerne ao fato de que 
amanhã te visitarei). Isso significa que uma comunicação sobre coisas ou 
circunstâncias é possível somente quando, ao mesmo tempo, ocorre uma 
83 Habermas
metacomunicação sobre o sentido do uso do enunciado dependente, isto 
é, quando acontece uma comunicação de nível superior sobre a simples 
comunicação relativa a coisas ou circunstâncias, como no caso do exemplo 
mencionado: \u201cPrometo que amanhã te visitarei\u201d, no qual a primeira parte 
(o enunciado dominante) comunica que se trata de uma promessa cujo 
objeto (expresso no enunciado dependente) é minha visita de amanhã. Os 
sujeitos devem, então, estabelecer uma comunicação em ambos os níveis (o 
da comunicação simples e o da metacomunicação), para que se chegue a 
uma compreensão. A pragmática universal buscada por Habermas serve à 
reconstrução do sistema de regras que um falante competente deve dominar 
para que seja possível essa comunicação que acontece simultaneamente em 
dois níveis. Essa qualificação é chamada por Habermas de \u201ccompetência 
comunicativa\u201d (VTKH 91).
Ao retomar a teoria dos atos linguísticos, Habermas institui uma co-
nexão entre sua filosofia da linguagem e sua teoria do agir, já que, desta 
maneira, se possibilita a passagem de uma teoria semântica a uma prag-
mática universal, que representa a base para a teoria do agir comunicativo. 
Esta última concebe \u201co processo vital da sociedade como um processo de 
produção mediado por meio de atos de fala\u201d. A realidade social se baseia no 
reconhecimento factual de pretensões de validade contidas em formações 
simbólicas (enunciados, ações, gestos, tradições, instituições, cosmovi-
sões, etc.). Habermas identifica \u201cquatro classes de pretensões de validade 
que reclamam reconhecimento e podem recebê-lo: compreensibilidade, 
verdade, justeza e veracidade\u201d (VTKH 104). Todas essas pretensões de 
validade têm como paradigma a verdade de proposições: assim poderíamos 
\u2013 como