Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)
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Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)


DisciplinaPsiquiatria I1.971 materiais11.352 seguidores
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acontece nas Christian Gauss Lectures \u2013 passar à teoria discursiva 
ou consensual da verdade que, segundo Habermas, deve ser concebida 
\u201cconjuntamente aos fundamentos normativos de uma teoria da sociedade 
e com problemas de fundamentação da ética em geral\u201d (VTKH 136, nota 
15). Contudo, antes de passar à teoria habermasiana da verdade, devemos 
ocupar-nos de um importante ensaio de 1976 com o título \u201cO que signi-
fica pragmática universal?\u201d, no qual algumas teses das aulas de 1971 são 
retomadas e aprofundadas.
No início do ensaio, Habermas determina o objeto da procurada 
pragmática universal: \u201cA pragmática universal tem a tarefa de identificar 
e reconstruir as condições universais de um possível entendimento. Em 
outros contextos se fala também de \u2018condições gerais de comunicação\u2019; eu 
prefiro falar de condições gerais do agir comunicativo, já que considero 
fundamental o tipo do agir que visa o entendimento\u201d (VTKH 353). Todas 
as outras formas de agir social representam, então, derivações do agir 
orientado pelo entendimento.
Seguindo Apel, Habermas introduz algumas condições que ele ca-
racteriza como \u201cbase de validade do discurso [Rede]\u201d e que cada um deve 
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inevitavelmente preencher se quiser participar de um processo de enten-
dimento recíproco. Trata-se de quatro condições:
 \u201c1. O falante deve escolher uma expressão compreensível, para que 
falante e ouvinte possam entender-se um com o outro;
 2. o falante deve ter a intenção de comunicar um conteúdo pro-
posicional verdadeiro, para que o ouvinte possa compartilhar o 
saber do falante;
 3. o falante deve querer enunciar sua intenção com veracidade, 
para que o ouvinte possa [...] crer no enunciado do falante;
 4. finalmente, o falante deve escolher um enunciado correto em 
relação a normas e valores existentes, para que o ouvinte possa 
aceitar seu enunciado\u201d e os dois possam chegar a um consenso 
na moldura de um fundo normativo reconhecido como válido 
(VTKH 354 s.).
Essas condições visam, então, a produção de:
 1. compreensão recíproca;
 2. saber compartilhado;
 3. confiança recíproca;
 4. consenso recíproco.
Isso deixa claro que o fim do entendimento é a criação de um acordo 
que deve ser alcançado em um contexto intersubjetivo e por meio da satis-
fação das condições anteriormente mencionadas. Estas últimas remetem, 
portanto, às quatro pretensões de validade introduzidas anteriormente:
 1. compreensibilidade;
 2. verdade;
 3. veracidade; e
 4. justeza.
Habermas define, assim, \u201cas condições de validade de uma oração 
gramatical, de uma proposição verdadeira, de uma expressão intencional 
verídica e de um enunciado normativamente justo e apropriado no contex-
to\u201d e as distingue, por um lado, \u201cdas pretensões com as quais os falantes 
reclamam reconhecimento intersubjetivo para a exatidão formal de uma 
oração, a verdade de uma proposição, a veracidade de uma expressão 
intencional e a justeza de um ato de fala e, por outro lado, da justifica-
ção das pretensões de validade avançadas com razão\u201d. Esta última se dá 
quando o falante demonstra fundadamente que seus enunciados merecem 
reconhecimento e o faz apelando a experiências ou intuições, por meio de 
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argumentos ou agindo de maneira consequente; e quando o ouvinte aceita 
a pretensão de validade avançada pelo falante (VTKH 356 s.).
A pragmática universal quer reconstruir a base de validade universal 
do discurso [Rede]. Nesse sentido, destacam-se os dois termos \u201cuniversal\u201d 
e \u201creconstruir\u201d. No que diz respeito ao primeiro, o paralelo com Chomsky 
é inegável: assim como o pensador norte-americano tenta identificar os 
elementos linguísticos universais dos idiomas particulares, Habermas quer 
reconstruir os elementos pragmáticos universais do agir comunicativo. O 
segundo termo recebe um sentido diferente daquele de Para a reconstrução 
do materialismo histórico, onde ele designava a operação pela qual Haber-
mas queria desmontar a teoria do materialismo histórico e recompô-la em 
nova forma (cf. IV.4). Em \u201cO que significa pragmática universal?\u201d o termo 
\u201creconstrução\u201d indica um procedimento por meio do qual o saber pré-teórico 
(know how) de sujeitos dotados de competência linguística e de ação é 
transformado em um saber explícito (know that) (VTKH 371; cf. também 
363 ss.). Em outras palavras, o que está em questão é tornar explícitos os 
pressupostos implícitos dos processos de entendimento.
Decisiva, desse ponto de vista, é a diferença entre componente 
ilocutivo e proposicional dos atos linguísticos (diferença inspirada pela 
distinção entre enunciados performativos e constativos de Austin e que 
já fora introduzida nas Gauss Lectures): Um enunciado possui sempre um 
conteúdo proposicional (p. ex., \u201cO fumar o cachimbo por parte de Peter\u201d) 
e um aspecto ilocutivo. Pode, pois, tratar-se de uma afirmação (\u201cAfirmo 
que Peter está fumando o cachimbo\u201d), de um pedido (\u201cPeter, peço-te que 
não fumes\u201d), de uma pergunta (\u201cPergunto-te, Peter, se tu fumas cachim-
bo\u201d), etc. Isso significa que falante e ouvinte devem entender-se sempre 
em dois níveis de comunicação: no nível das experiências e dos dados de 
fato, no qual o que importa é o aspecto do conteúdo expresso no elemento 
proposicional, e no nível da intersubjetividade, no qual eles \u201cestabelecem 
por meio de atos ilocutivos, as relações que lhes permitem entenderem-se 
reciprocamente\u201d. Este último nível possui uma certa prioridade, pois é o 
aspecto ilocutivo do ato de fala que estabelece o sentido em que o conteú-
do proposicional é utilizado. É somente por meio de um ato ilocutivo que 
o conteúdo proposicional pode ser enunciado \u201ccomo algo\u201d (p. ex., como 
afirmação, como pergunta, como pedido, etc.) (VTKH 406). Para que um 
ato de fala seja \u201cbem-sucedido\u201d, é preciso chegar a um entendimento ilo-
cutivo e a um predicativo: devemos, ao mesmo tempo, entender que tipo 
de relação o falante quer estabelecer conosco (será que ele quer afirmar, 
perguntar, pedir?) e que conteúdo proposicional seu enunciado possui 
(o que ele está afirmando, perguntando, pedindo?). Em ambos os casos 
nos relacionamos com um mundo comum, mas de maneira diferente: 
a compreensão do conteúdo predicativo leva a um entendimento sobre 
algo no mundo, a do aspecto ilocutivo leva ao entendimento sobre uma 
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relação interpessoal \u2013 e tal relação é uma relação com o mundo (VTKH 
407). Posso entender o sentido linguístico (proposicional) de uma oração, 
mas não entender ou interpretar incorretamente o significado pragmático 
de um enunciado (p. ex., quando um juiz me ordena: \u201cPor favor, dê o seu 
testemunho\u201d e eu penso que esteja simplesmente pedindo) (VTKH 411). 
Para entender se o enunciado do outro é uma pergunta, um pedido, uma 
ordem, etc., devo compartilhar com ele um código comum. \u201cAprendemos o 
sentido de atos ilocutivos somente na posição performativa de participantes 
de ações linguísticas; pelo contrário, aprendemos o sentido de orações com 
conteúdo proposicional na atitude não performativa de observadores que 
relatam corretamente suas experiências em enunciados\u201d (VTKH 414).
Mas a referência ao contexto não é suficiente. Para que o falante e 
o ouvinte tenham uma influência ilocutiva recíproca (isto é, para que o 
falante deixe claro ao ouvinte que ele lhe está perguntando, comandando, 
pedindo, etc.), o falante tem de avançar com seu enunciado uma deter-
minada pretensão de validade que se deixe justificar racionalmente. Cada 
ato de fala contém implicitamente a proposta de uma fundamentação: no 
caso de atos de fala constativos por meio do recurso à experiência ou a 
argumentos que possam ser introduzidos no âmbito de um discurso teoré-
tico; no caso de atos de fala regulativos por meio do recurso a um contexto 
normativo ou a argumentos que possam ser introduzidos no âmbito de um 
discurso prático, etc. (VTKH 433 s.). Se o ouvinte