Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)
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Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)


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aceitar as pretensões de 
validade correspondentes, os atos de fala recebem a força ilocutiva que 
lhes permite mover o ouvinte a agir: ele responderá à pergunta (ou não), 
obedecerá à ordem (ou a ignorará), etc. Se o ouvinte aceitar a pretensão 
de validade avançada pelo falante, ele aceita também \u201cque uma oração 
é gramaticalmente correta, um enunciado verdadeiro, uma intenção do 
falante verídica, etc.\u201d O que importa não é a aceitação factual (em caso 
contrário, Habermas não se distinguiria daqueles que admitem ou até de-
fendem um uso manipulador ou retórico da linguagem), mas o fato de as 
pretensões de validade serem dignas de reconhecimento (VTKH 357). Elas 
são consideradas justificadas quando for possível mencionar razões para 
tal reconhecimento \u2013 e essas razões são racionais. Agora podemos passar 
à teoria habermasiana da verdade.
A tEORiA DisCURsivA DA vERDADE
No importante ensaio \u201cTeorias da verdade\u201d de 1972 (publicado em 
1973, agora em VTKH 127-183), Habermas toma posição em relação a 
algumas das mais conhecidas teorias da verdade e esboça sua própria 
\u201cteoria discursiva da verdade\u201d.
87 Habermas
Primeiramente, ele se ocupa de algumas questões preliminares. A 
primeira é: \u201cO que é ou do que podemos dizer que é verdadeiro e falso?\u201d. 
Os primeiros \u2018candidatos\u2019 que ele menciona são orações. Mas \u201cdiferentes 
orações da mesma linguagem podem possuir o mesmo conteúdo, enquanto 
as mesmas orações podem, em contextos diferentes, possuir conteúdos 
diferentes\u201d. Portanto, Austin propõe \u201cconsiderar não as orações, mas as as-
serções (assertions, statements), como o que podemos chamar de verdadeiro 
ou falso\u201d (VTKH 127). Agora surge, contudo, uma nova dificuldade, já que 
asserções representam expressões ou episódios linguísticos datáveis, \u201cen-
quanto a verdade avança uma pretensão de invariabilidade e, portanto, não 
possui caráter episódico\u201d. Logo, Habermas segue Strawson ao afirmar \u201cque 
não expressões, mas proposições podem ser chamadas de verdadeiras ou 
falsas\u201d (VTKH 128). Habermas demonstra, pois, seu realismo ao sustentar 
que uma proposição seria verdadeira se, e somente se, ela reproduzisse uma 
circunstância ou um fato real e não se limitasse a simulá-los. Obviamen-
te, proposições possuem força assertória somente quando se apresentam 
na forma de uma oração, isto é, de uma afirmação. Portanto, a resposta 
à primeira pergunta (o que é verdade?) é a seguinte: \u201cA verdade é uma 
pretensão de validade que ligamos a proposições ao afirmá-las\u201d. Cabe notar 
que as afirmações pertencem à classe dos atos de fala constativos; elas são 
a forma tomada por uma proposição e não podem ser nem verdadeiras nem 
falsas, mas sim legítimas ou ilegítimas. Verdadeira ou falsa é a proposição 
que eu afirmo, isto é, o conteúdo da afirmação (VTKH 129).
A segunda questão preliminar é levantada pela teoria da verdade 
chamada \u201cda redundância\u201d: Se em todas as proposições da forma \u201cp é 
verdadeiro\u201d, a expressão \u201cé verdadeiro\u201d é redundante, isto é, logicamente 
supérflua, não há necessidade de nenhuma teoria da verdade (ibid.). Por 
isso, Austin distingue entre a afirmação ingênua de uma proposição (ver-
dadeira) e a constatação metalinguística. Esta última não é uma proposição 
sobre um fato, mas se refere a uma proposição sobre um fato. O sentido 
pragmático das afirmações consiste justamente no fato de que, ao afirmar 
\u201cp\u201d, estou avançando uma pretensão de validade para \u201cp\u201d (por isso, digo \u201cp 
é verdadeiro\u201d). A pretensão de validade implícita nas afirmações ingênuas 
é tornada explícita e confirmada (ou negada) nas constatações metalinguís-
ticas. Por exemplo, cada vez que eu afirmar: \u201cO sol surge todos os dias\u201d, 
estou implicitamente avançando uma pretensão de verdade da forma: \u201cÉ 
verdadeiro que o sol surge todos os dias\u201d. Esta última afirmação pode ser 
legítima (como neste caso), mas não verdadeira. O que é verdadeiro é que 
o sol surge todos os dias. Portanto, a afirmação \u201cO sol surge somente em 
alguns dias\u201d é falsa, enquanto a afirmação \u201cÉ falso que o sol surge todos 
os dias\u201d é ilegítima.
Nesse contexto, Habermas discute a diferença entre discursos e ações. 
Com \u201cagir\u201d ele indica \u201co âmbito comunicativo no qual pressupomos e 
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aceitamos tacitamente as pretensões de validade implícitas em afirmações, 
a fim de trocar informações\u201d. O discurso é \u201cuma forma de comunicação 
caracterizada pela argumentação\u201d, na qual \u201cpretensões de validade que se 
tornaram problemáticas são discutidas para investigar sua legitimidade\u201d. 
Nesse caso, não são trocadas informações, mas argumentos. \u201cOs discursos 
requerem, em primeiro lugar, uma suspensão das obrigações ligadas ao 
agir\u201d. Neles, \u201ctodas as motivações são suspensas, com a única exceção da 
disponibilidade ao entendimento cooperativo\u201d. Os discursos exigem, em 
segundo lugar, \u201cuma virtualização das pretensões de validade\u201d: devemos 
considerar fatos e normas do ponto de vista da sua possível existência ou 
legitimidade. Uma vez que a comunicação tenha sido liberada das obriga-
ções ligadas ao agir e do peso da experiência, é possível reconstituir um 
acordo sobre pretensões de validade que se tornaram problemáticas. As 
alternativas são ou a passagem a um comportamento estratégico ou a in-
terrupção da comunicação. À questão colocada pela teoria da redundância 
se responde, portanto, que uma justificação das pretensões de validade 
ligadas a afirmações é possível somente em discursos, não em contextos 
de agir comunicativo (VTKH 130 s.).
A terceira questão preliminar concerne à diferença entre fatos e acon-
tecimentos e diz respeito a um pressuposto de fundo da teoria da verdade 
como correspondência. \u201cUm fato é o que torna verdadeira uma proposição; 
por isso, dizemos que as proposições refletem, descrevem, expressam, etc. 
fatos. Coisas e acontecimentos, pessoas e manifestações de pessoas, isto 
é, objetos da experiência são, pelo contrário, aquilo sobre o qual fazemos 
afirmações e do qual declaramos algo: o que afirmamos de objetos é, se a 
afirmação for legítima, um fato. [...] Dos objetos eu tenho experiência, os 
fatos, afirmo-os; não posso experimentar fatos e não posso afirmar objetos 
(ou experiências com objetos)\u201d, ainda que, ao afirmar fatos, possa referir-
me a objetos (VTKH 132). Ora, a teoria da verdade como correspondência 
afirma que às proposições verdadeiras devem corresponder fatos no sentido 
de que \u201co correlato das proposições represente algo de real do tipo dos 
objetos da nossa experiência\u201d. Porém, os fatos não possuem, justamente, 
o status de tais objetos. Apesar disso, a teoria da correspondência se apoia 
em uma observação correta: Se as proposições devem reproduzir e não 
meramente simular fatos, então estes últimos devem dar-se em um certo 
sentido, exatamente como se dão os objetos da experiência. \u201cAs proposi-
ções devem adaptar-se aos fatos e não os fatos às proposições\u201d, constata 
Habermas (VTKH 133).
Na sua opinião, essa dificuldade poderia ser superada se considerarmos 
\u201cque \u2018fatos\u2019 enquanto fatos vêm à tona no âmbito comunicativo do discurso\u201d. 
Nos contextos de ação nos limitamos a trocar informações sobre objetos 
de experiência; somente quando uma informação é posta em questão e é 
iniciado um discurso, \u201cfalamos sobre fatos que (pelo menos) um proponente 
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afirma e (pelo menos) um opositor põe em dúvida\u201d (VTKH 134). Somente 
no discurso as afirmações recebem o status de proposições cuja pretensão 
de validade pode ser posta em questão.6 O sentido dos fatos só pode ser 
esclarecido recorrendo-se a discursos. Isso significa que uma pretensão de 
verdade pode ser fundamentada somente por meio de argumentos, não 
se apelando para a experiência: \u201ca questão se certos fatos se dão ou não 
se dão efetivamente é resolvida não pela evidência das experiências, mas 
pela cadeia de argumentações\u201d (VTKH 135). Portanto, a verdade é uma 
propriedade de proposições: