Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)
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Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)


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aprendizagem que um determinado sistema linguístico (uma determinada 
cultura) deve percorrer para formar determinados esquemas cognitivos. 
Estes últimos, contudo, não podem ser nem verdadeiros nem falsos, mas 
somente adequados ou inadequados.
Finalmente Habermas define o que ele chama de \u201csituação ideal de 
fala\u201d: \u201cA situação ideal de fala exclui distorções sistemáticas da comuni-
cação\u201d. Ela deve satisfazer, em primeiro lugar, duas condições \u201ctriviais\u201d, 
a saber:
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 \u201c1. Todos os participantes potenciais de um discurso devem ter as 
mesmas chances de praticar atos de fala comunicativos, a fim 
de poder iniciar, em cada momento, um discurso e perpetuá-lo 
por meio de intervenções, contraintervenções, perguntas e res-
postas;
 2. Todos os participantes do discurso devem ter as mesmas chan-
ces de apresentar interpretações, afirmações, recomendações, 
explicações e justificações e de questionar, justificar ou refutar 
suas pretensões de validade, de maneira que nenhuma opinião 
prévia possa, a longo prazo, subtrair-se à discussão e à crítica\u201d.
A estas se acrescentam duas condições \u201cnão triviais\u201d, a saber:
 \u201c3. São admitidos ao discurso somente falantes que, como agentes, 
têm as mesmas chances de utilizar atos de fala representativos, 
isto é, de expressar suas atitudes, seus sentimentos e desejos 
[...];
 4. Ao discurso são admitidos somente falantes que como agentes 
têm as mesmas chances de utilizar atos de fala regulativos, isto 
é, de comandar e de recusar-se, de permitir e de proibir, de fazer 
e receber promessas, de prestar e exigir contas, etc.\u201d (VTKH 177 
s.).
Obviamente é difícil estabelecer empiricamente quando tais condições 
são satisfeitas. Apesar disso, devemos subentender em cada argumenta-
ção uma situação ideal de fala e, precisamente, uma que seja real, e não 
meramente fictícia. Trata-se, segundo Habermas, da \u201cantecipação de uma 
situação ideal de fala\u201d com valor normativo: nenhuma sociedade histórica 
realizou até agora uma forma de vida que correspondesse a tal situação. 
Essa \u201cantecipação do diálogo idealizado\u201d deveria garantir que se imponha 
de fato o melhor argumento (VTKH 180 s.).
Nos anos de 1990, Habermas se ocupou de novo, intensamente, de 
questões teoréticas. O resultado é o livro Verdade e justificação, publicado 
em 1999, que reúne ensaios dos anos 1996 até 1998 e contém uma inte-
ressante discussão das posições de pensadores como Robert Brandom e 
Richard Rorty (sobre Brandom ver também ET 189 ss.).
Em relação a Rorty, Habermas critica a ideia de que a verdade de-
penderia sempre, do contexto cultural específico no qual é afirmada. Ao 
contextualismo do pensador norte-americano nosso autor contrapõe uma 
forma de absolutismo, a saber, a ideia de que a verdade é independente do 
contexto: \u201cO que consideramos verdadeiro deve poder ser defendido com 
razões convincentes não só em outro contexto, mas também em todos os 
contextos possíveis, ou seja, a todo momento e contra quem quer que seja\u201d 
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(VJ 254 [WR 259]). À pragmática linguística normativa de Robert Brandom 
ele contrapõe uma pragmática formal (VJ 135 ss. [WR 138 ss.]). Este discí-
pulo de Rorty defende a posição segundo a qual na linguagem está presente 
uma normatividade que atribui aos participantes do discurso certos direitos 
e certas obrigações: quem expressa linguisticamente um pensamento, aceita 
implicitamente esses pressupostos normativos (que Brandom quer tornar 
explícitos, como salienta o título do seu livro Making it Explicit).7 Ao fazer 
isso, o filósofo norte-americano se serve da ideia kantiana de autonomia; 
justamente nisso consiste, segundo Habermas, seu erro, já que as normas 
da racionalidade não podem ser produzidas pelos próprios falantes: \u201co 
modelo de uma autolegislação [...] já pressupõe a orientação do legislador 
pelas normas de racionalidade [...]. Uma instituição de normas que seja 
\u2018racional\u2019 precisa ser feita de acordo com normas da razão e por isso não 
pode, por seu turno, servir de modelo a uma explicação da normatividade 
da própria razão\u201d. Brandom confundiria normas morais (que \u201cdeterminam 
a vontade dos agentes\u201d) com normas de racionalidade (que \u201cguiam seu 
espírito\u201d): as primeiras são postas por nós, as segundas nos são dadas (VJ 
146 s. [WR 148 s;]).
Particularmente importante é a revisão parcial que Habermas faz em 
relação à sua teoria consensual da verdade. Ainda que permaneça a ideia 
de que há \u201cuma conexão epistemológica incontornável de verdade e jus-
tificação\u201d, ele defende agora a opinião de que as razões que aqui e agora 
nos parecem irrefutáveis \u201cnão são razões \u2018obrigatórias\u2019 no sentido lógico 
da validade definitiva\u201d, mas podem revelar-se falsas em uma diferente 
situação epistêmica. A verdade alcançada no contexto de um discurso não 
ideal e que corresponde a um conceito pragmático, não epistêmico de 
verdade, não pode ser identificada com a verdade em sentido absoluto, 
isto é, com uma verdade que possa ser afirmada em condições ideais e que 
pode avançar pretensões de aceitabilidade racional (VJ 48 s. [WR 50 s.]). A 
diferença entre os dois conceitos de verdade se torna particularmente clara 
nos dois níveis da ação, por um lado, e do discurso, por outro: No agir é 
ativado o conceito não epistêmico de verdade que nos permite pressupor 
a existência de um mundo objetivo de coisas que podem ser manipuladas 
e avaliadas; no discurso visamos \u201cencontrar uma verdade que ultrapasse 
todas as justificações\u201d, mas nos confrontamos com a circunstância de que 
até as melhores razões que podemos oferecer em prol de uma pretensão 
de verdade \u201cestão sob a reserva da falibilidade\u201d. A resposta de Habermas a 
esse problema é pragmática: Os discursos permanecem sempre \u201cengastados 
no contexto das práticas do mundo da vida\u201d e possuem neles meramente 
a função \u201cde restabelecer um acordo de fundo parcialmente perturbado\u201d; 
os participantes do discurso são sempre, também, atores que ao agir pres-
supõem a validade de certas pretensões de verdade; se todas as objeções 
contra a aceitação de uma pretensão de verdade foram refutadas, os indiví-
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duos no seu papel de atores não têm nenhuma razão para manter a atitude 
reflexiva dos participantes do discurso; eles devem, antes, \u201cretornar a um 
trato ingênuo com o mundo\u201d, ainda que a verdade em questão não seja 
uma verdade absoluta (isto é, não seja uma verdade que pode pretender 
aceitação racional), mas uma aceitação falível (VJ 50 [WR 52]). Habermas 
revê, portanto, a ideia de uma verdade alcançada em condições discursi-
vas ideais que fora inspirada por Peirce e que ele mesmo tinha defendido 
precedentemente: \u201cO conceito discursivo de verdade não é exatamente 
falso, mas insuficiente. Ele ainda não explica o que nos autoriza a ter por 
verdadeiro um enunciado suposto como idealmente justificado\u201d (VJ 284 
[WR 290]).8 Desta maneira, o caráter pragmático da teoria habermasiana 
da verdade se torna ainda mais acentuado.
NOtAs
 1. Frequentemente se fala de uma teoria consensual da verdade. O próprio Habermas 
faz isso, mas reconhece também que talvez seria melhor falar em teoria discursiva 
da verdade (VTKH 160 Nota).
 2. Cf. WELLMER, Albrecht. Communications and emancipation: reflections on the 
linguistic turn in critical theory. In: J. O\u2019Neill (ed.). On Critical Theory. New York: 
Seabury Press, 1976, 230\u2013265.
 3. Sobre Humboldt e sua importância para Habermas, ver VJ 63 ss. (WR 67 ss.).
 4. AUSTIN, John L. How to Do Things With Words. Oxford: Oxford University Press, 
1962.
 5. SEARLE, John R. Speech Acts. An Essay in the Philosophy of Language. Cambridge: 
Cambridge University Press, 1969.
 6. Para recorrer à teoria do mundo da vida: Somente no discurso o saber implicitamente 
pressuposto, pré-científico e não problematizado da práxis cotidiana é discutido 
explicitamente. Somente quando uma afirmação